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Raul Jungmann falando em evento do IBRAM em 2023 durante congresso no Brasil, representando o Ministério do Defesa e Fomento à Segurança. Cenário com palco azul e logo do Exposibram 2025.
Raul Jungmann (Foto: IBRAM via Flickr)

A encruzilhada da mineração: entre a liderança climática e a licença para investir

Proposta de agenda climática apresentada por Raul Jungmann, do Ibram, expõe que responsabilidade socioambiental é a nova realidade do setor

Por Beto Francellino, 4 min de leitura

Publicado em 28/10/2025

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A convocação feita por Raul Jungmann na abertura do segundo dia da Exposibram, em Salvador, para que a mineração brasileira assuma compromissos climáticos mensuráveis vai além de uma resposta protocolar à proximidade da COP30. É o reconhecimento de que a viabilidade do setor não depende mais apenas de licenças ambientais, mas de uma “licença reputacional” emitida pelo mercado financeiro global e pela sociedade.

No painel, “Compromisso do Setor Mineral”, ao apresentar um plano com cinco eixos — descarbonização, natureza, água, adaptação e governança —, o presidente do Ibram articulou a premissa que hoje rege o capital responsável: sem confiança, não há investimento; sem investimento, não há inovação. A agenda de metas, que inclui o aumento de 15% em fontes renováveis e a redução de 10% no uso de água nova até 2030, funciona como uma plataforma para reconstruir essa confiança. A iniciativa atende a um pedido direto do embaixador André Corrêa do Lago, presidente global da COP30, para que o setor privado brasileiro assumisse compromissos “firmes, mensuráveis e concretos” com a agenda climática.

“O que ele esperava dessa COP é que o país se transformasse na referência em termos de compromisso com a (agenda climática)”, afirmou Jungmann. “O setor mineral procurou exatamente assumir esse compromisso.” Transparência foi apontada como ferramenta essencial para o sucesso dos compromissos e para a relação do setor com a sociedade. Questionado sobre o monitoramento das metas, Raul Jungmann afirmou que a metodologia de aferição será pública e os resultados apresentados periodicamente, de forma similar aos balanços de segurança de barragens já realizados pelo instituto.

Em conversa com a imprensa, Ana Sanches, presidente do Conselho Diretor do Ibram, destacou que os cinco compromissos estão alinhados aos objetivos-chave da COP30 e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. “É uma forte demonstração de como o setor está querendo (dar) cada vez mais visibilidade, cada vez mais clareza, formas bem diretas de medir”, disse Sanches.

Para sustentar as metas, Jungmann citou um plano de investimentos do setor que totaliza US$ 68 bilhões, dos quais US$ 16 bilhões estão especificamente alocados para ações de sustentabilidade.

Cinco tópicos sobre energia renovável, preservação ambiental e sustentabilidade, ilustrando conceitos de natureza, água, adaptação e descaracterização.
Fonte: Ibram

Os cinco compromissos detalhados

Os compromissos foram apresentados como metas básicas para o setor, com foco em transparência e monitoramento.

1. Descarbonização

A meta mais ambiciosa estabelece uma redução de 40% a 50% da pegada de carbono do setor até 2035, com o objetivo de atingir uma redução de 90% a 95% até 2050.

Raul Jungmann explicou que a base de cálculo é o último inventário setorial realizado pelo Ibram em 2022. “A pegada do (setor) fica aproximadamente em 0,5% da pegada do Brasil”, disse. 

Questionado sobre como atingir essa meta, Jungmann mencionou a transição para biocombustíveis, como o HVO (óleo vegetal hidrotratado), e a eletrificação de equipamentos, como caminhões fora de estrada. Sanches complementou, enfatizando a necessidade de ação coletiva para viabilizar tecnologias como o hidrogênio verde em escala.

2. Fontes Renováveis 

Diretamente ligada à descarbonização, o setor se compromete a ampliar em 15% a participação das fontes renováveis na matriz energética do setor até 2030. Jungmann usou como exemplo a Vale, que consome “quase 1 bilhão de litros de diesel” e que, com o compromisso, está fazendo testes para ampliação de renováveis em sua frota.

3. Biodiversidade

O setor visa “ampliar em 10% o ganho líquido de biodiversidade até 2030”. Ana Sanches explicou que a mineração legal já opera numa proporção de restauração de 10 hectares para cada hectare suprimido. A meta, portanto, é elevar essa proporção para 11 hectares restaurados.

“As áreas no entorno da mineração são as áreas mais preservadas, o que é contraintuitivo. Aumentar esse percentual de área preservada vai reforçar ainda mais isso que já é uma prática”, afirmou Sanches.

4. Eficiência Hídrica

O compromisso prevê reduzir o uso específico de água nova. Ana Sanches detalhou que a medição não será em volume absoluto, mas em relação à produção. “É a metragem cúbica de água utilizada em relação à massa de minério. A gente precisa da água na mineração, mas é o uso otimizado, é o uso inteligente, o uso respeitoso”, disse. O foco será o aumento da recirculação e o desenvolvimento de novas tecnologias de tratamento.

5. Adaptação Climática

O Ibram propõe elaborar um projeto piloto em 30 municípios [mineradores] para que se desenvolva essa metodologia e depois se possa escalar. Jungmann contextualizou que o Ibram já possui um levantamento de indicadores de progresso social (IPS) em 290 municípios com mineração e realizou um levantamento sobre a maturidade da Defesa Civil em 900 municípios, dados que apoiarão a implementação da meta de adaptação.

O pano de fundo é um setor transformado pela pressão pós-Brumadinho. Investidores institucionais e fundos soberanos consolidaram métricas de risco socioambiental que se tornaram cláusulas excludentes. A adequação a esses padrões, como a descaracterização de barragens, não é mais apenas uma questão de conformidade legal, mas uma estratégia para reduzir o custo do capital e acessar pools de investimento antes fechados.

Da pressão ambiental à geopolítica do investimento

Jungmann conectou essa realidade microeconômica a um desafio macro. Em um cenário onde a produção de aço se desloca para regiões com energia mais barata e limpa, como o Oriente Médio, o Brasil precisa transformar suas vantagens comparativas — matriz elétrica renovável e potencial para hidrogênio verde — em competitividade real. Para isso, argumenta-se no setor, são indispensáveis regulação estável e compromissos corporativos verificáveis.

A iniciativa de fomentar 30 planos de adaptação climática em municípios mineradores ilustra essa nova abordagem, que busca integrar a atividade econômica à resiliência dos territórios onde opera. A mensagem final é inequívoca: a mineração legal, pautada por uma governança robusta e transparente, busca se posicionar não como um problema, mas como parte da solução para a transição energética e a conservação. O sucesso dessa jornada definirá a capacidade do Brasil de exercer a liderança climática que almeja.

Confira a cobertura completa da Exposibram na página especial do Radar Mineração.

Dúvidas mais comuns

A licença reputacional é a confiança emitida pelo mercado financeiro global e pela sociedade em relação às práticas de uma empresa ou setor. Para a mineração, ela vai além das licenças ambientais tradicionais, representando o reconhecimento de que a viabilidade do setor depende de compromissos climáticos mensuráveis, transparência e governança robusta. Sem essa confiança, não há investimento; sem investimento, não há inovação.

O Ibram apresentou cinco eixos de compromisso: (1) Descarbonização - redução de 40% a 50% da pegada de carbono até 2035 e 90% a 95% até 2050; (2) Fontes Renováveis - aumento de 15% na participação de renováveis na matriz energética até 2030; (3) Biodiversidade - ampliação de 10% no ganho líquido de biodiversidade até 2030; (4) Eficiência Hídrica - redução de 10% no uso de água nova até 2030; e (5) Adaptação Climática - desenvolvimento de projetos piloto em 30 municípios mineradores.

A mineração pode reduzir sua pegada de carbono através da transição para biocombustíveis como o HVO (óleo vegetal hidrotratado), eletrificação de equipamentos como caminhões fora de estrada, e ampliação do uso de energias renováveis. O setor também busca viabilizar tecnologias como o hidrogênio verde em escala, que requerem ação coletiva para implementação. Essas medidas estão alinhadas com a meta de redução de 40% a 50% até 2035.

O setor mineral possui um plano de investimentos que totaliza US$ 68 bilhões, dos quais US$ 16 bilhões estão especificamente alocados para ações de sustentabilidade. Esses investimentos visam viabilizar as metas climáticas e tecnologias necessárias para a transição energética, demonstrando o compromisso financeiro do setor com a agenda climática.

A metodologia de aferição dos compromissos será pública e os resultados serão apresentados periodicamente, de forma similar aos balanços de segurança de barragens já realizados pelo Ibram. Essa transparência é considerada essencial para o sucesso dos compromissos e para a relação do setor com a sociedade, permitindo que investidores e stakeholders acompanhem o progresso das metas.

A mineração legal já opera numa proporção de restauração de 10 hectares para cada hectare suprimido. O compromisso do setor é elevar essa proporção para 11 hectares restaurados por hectare suprimido. Além disso, as áreas no entorno da mineração são frequentemente as áreas mais preservadas, e aumentar esse percentual de área preservada reforçará ainda mais essa prática.

O embaixador André Corrêa do Lago, presidente global da COP30, solicitou que o setor privado brasileiro assumisse compromissos firmes, mensuráveis e concretos com a agenda climática. Os cinco compromissos do Ibram foram especificamente desenvolvidos para atender a esse pedido e estão alinhados aos objetivos-chave da COP30 e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, posicionando o Brasil como referência em compromisso climático.

A eficiência hídrica será medida não em volume absoluto, mas em relação à produção, calculada em metros cúbicos de água utilizada por massa de minério produzido. O foco será o aumento da recirculação de água e o desenvolvimento de novas tecnologias de tratamento, buscando um uso otimizado, inteligente e respeitoso da água, que é essencial para as operações de mineração.