- A siderurgia brasileira enfrenta o desafio de transição tecnológica dos altos-fornos a carvão para rotas com gás natural e hidrogênio, exigindo inovação contínua para reduzir emissões de carbono.
- A infraestrutura logística inadequada para distribuição de gás natural no Brasil mantém custos elevados, enquanto a competição desleal de produtores chineses subsidiados desestimula investimentos de longo prazo no setor.
- A parceria entre siderúrgicas e mineradoras, com transparência nas medições de emissões e desenvolvimento conjunto de tecnologias limpas, é fundamental para produzir aço verde competitivo e atender demanda crescente de clientes.
A siderurgia é um setor-chave na jornada pela descarbonização. O Radar Mineração conversou com Titus Schaar, CEO da Ternium Brasil, a maior siderúrgica da América Latina e principal acionista da Usiminas, sobre os desafios e oportunidades para produzir aço com menor pegada de carbono, a importância da inovação e a parceria com a mineração nesse processo.
Qual é o maior desafio para a descarbonização da siderurgia brasileira, considerando a experiência da Ternium Brasil?
A indústria siderúrgica brasileira é uma das mais eficientes e, com isso, “verdes” do mundo. A maior dificuldade é a mudança da rota de produção. Hoje, a produção se baseia em grande parte em altos-fornos, com carvão, e mesmo com a eficiência, há limites tecnológicos. O próximo passo é a adoção do gás natural na rota integrada, especialmente com a injeção nos altos-fornos, como uma importante medida transitória para avançar na descarbonização. No Brasil, a transição para o uso do gás natural na siderurgia enfrenta desafios, não pela falta do insumo, já que o país produz gás natural em abundância, mas sim pela carência de investimentos em infraestrutura para sua logística (transporte, processamento e distribuição). Isso faz com que o gás permaneça caro e limite sua adoção em larga escala nos altos-fornos. Assim, embora o hidrogênio seja visto como uma oportunidade futura, o gás natural ainda representa uma alternativa relevante, desde que sejam superados os obstáculos logísticos e de custo.
Além de gás caro, acesso ao capital de longo prazo, infraestrutura para energias limpas, escala de produção de matérias-primas de alta qualidade e arcabouço regulatório, qual dessas questões é a mais complexa no Brasil?
O Brasil é competitivo por natureza. A matéria-prima está disponível, o minério existe e a energia renovável representa quase 90% da matriz. A dificuldade em atrair investimentos está mais relacionada à incerteza no mercado do que a qualquer outro fator. Temos uma competição desleal com algumas fabricantes chinesas, que operam sob subsídios do governo para manter empregos.
O que o Brasil poderia fazer em relação a essa competição desleal?

O Brasil precisa decidir se quer preservar empregos e garantir a qualidade, mantendo a indústria siderúrgica nacional forte. É fundamental que o país adote medidas, como outros já fizeram, para defender o setor contra práticas desleais de comércio internacional, especialmente por parte de alguns produtores chineses. O Governo brasileiro deve atuar com os instrumentos técnicos e legais disponíveis para bloquear essas práticas e garantir condições justas à indústria nacional.
Como o senhor vê o futuro da parceria siderurgia-mineração para produzir aço verde? Será uma parceria muito mais próxima, com investimentos conjuntos em tecnologias ou acordos de longo prazo para garantir o fornecimento de energia limpa?
A competitividade exige desenvolvimento conjunto. Vale e Ternium Brasil, por exemplo, precisam avançar juntos no desenvolvimento de produtos e processos. Por isso, assinamos memorandos de entendimento (MoUs) para promover esses projetos colaborativos, e essa parceria já está em andamento. As empresas também investem diretamente em energia renovável. No Brasil, não realizamos esses investimentos porque já contamos com uma central termelétrica altamente eficiente, que aproveita integralmente os gases e vapores gerados no processo siderúrgico para a geração de energia elétrica, em um exemplo de economia circular.
Como provar que o aço é realmente verde? Como a Ternium Brasil está se preparando para essa nova realidade, em que os clientes exigirão um selo verde e estarão dispostos a pagar mais por isso?
O ponto de partida é a transparência. Existem sistemas para medir as emissões de gases de efeito estufa na produção siderúrgica, mas é fundamental definir, juntamente com o cliente, qual será o sistema de contabilização adotado. A Ternium Brasil desenvolveu e implementou, no último ano, um sistema que garante total transparência em relação às emissões em seus processos. Com esses dados, conseguimos contabilizar conforme a necessidade de cada cliente. O próximo passo é que muitos clientes já demonstram interesse por essas informações e pelo selo verde, embora ainda sejam poucos os que aceitam pagar mais por isso. Seguimos trabalhando para avançar na descarbonização e, com a nossa nova planta — o centro industrial de Pesquería, no México, que contará com um forno elétrico de redução direta.
O senhor já falou publicamente que as empresas nem sempre pensam no impacto climático e que é preciso inovar para chegar lá. Como avançar nesse ponto?
Hoje, poucos clientes estão abertos a pagar mais por um produto que seja produzido com aço verde. O consumidor final ainda prioriza o preço. Como fabricantes, nossa responsabilidade é inovar continuamente, reinventando processos para produzir aço de alta qualidade utilizando menos recursos e práticas mais sustentáveis. A inovação é essencial para promover a descarbonização e aumentar a eficiência, construindo uma indústria siderúrgica mais sustentável para o futuro.
* Especial para o Radar Mineração