- Apenas 3% do financiamento climático global é destinado à adaptação climática, enquanto 90% concentra-se em mitigação, apesar de perdas econômicas de US$ 370 bilhões anuais por desastres naturais.
- Somente 35% das empresas listadas no S&P Global 1200 possuem planos formais de adaptação, revelando lacuna crítica entre reconhecimento de riscos e preparação corporativa estruturada.
- Mineradoras como BHP e Hydro demonstram que adaptação exige investimentos em inovação tecnológica, uso racional de água e energia renovável para conciliar aumento de produção com descarbonização.
A adaptação às mudanças climáticas deve ser uma pauta de negócios presente, e não futura, de acordo com especialistas ouvidos na Exposibram. O diagnóstico é que apesar dos custos econômicos crescentes dos eventos extremos, a agenda de adaptação ainda enfrenta um grave déficit de financiamento e de planejamento formal em comparação com as ações de mitigação.

Clarissa Lins, sócia fundadora da Catavento Consultoria, apresentou dados que ilustram a disparidade. Segundo ela, as perdas econômicas globais por desastres naturais somaram quase US$ 370 bilhões no ano passado, com 60% desse total sem cobertura de seguro. Apesar disso, o financiamento climático global é majoritariamente direcionado à mitigação (mais de 90%), enquanto a adaptação recebe apenas 3% dos recursos. “Nem as empresas têm planos preparados, nem os recursos identificaram ainda direito esses projetos”, afirmou Lins. Ela também apontou que, globalmente, apenas 35% das empresas listadas no S&P Global 1200 possuem um plano de adaptação formal.

Thais Ferraz, diretora de Programas do Instituto Clima e Sociedade (iCS), reforçou que a adaptação é uma “certeza”, dado que o aquecimento médio já atinge 1,3°C. Ela destacou a necessidade de políticas públicas que tratem a adaptação como investimento, e não como custo. “A estimativa é de que sejam necessários aproximadamente US$ 350 bilhões ao ano para construir resiliência nos países em desenvolvimento”, disse Ferraz, sinalizando que 75% desse investimento deveria ser público. Ambas as especialistas citaram o papel de ferramentas públicas, como a plataforma ‘Adapta Brasil’, como incentivos não-monetários que auxiliam no mapeamento de riscos.
Mineradoras detalham seus planos

Do lado corporativo, os executivos destacaram que a mineração, por sua natureza, já opera com visão de longo prazo. René Muga Escobar, vice-presidente de Assuntos Corporativos América Latina da BHP, defendeu que o setor privado deve ser “mais ousado” e não esperar por políticas públicas. Ele citou o exemplo da mina Escondida (Chile), que há 12 anos investiu mais de US$ 4 bilhões em dessalinização para parar de usar água de zonas úmidas (wetlands), uma decisão tomada antes de qualquer exigência legal. Segundo ele, a BHP também foi a primeira operação de mineração a atingir zero emissões de Escopo 2 (consumo de energia) ao migrar totalmente para renováveis.

Anderson Baranov, CEO da Norsk Hydro Brasil, informou que a empresa está investindo R$ 12,6 bilhões em descarbonização desde 2022, incluindo a troca de combustível por gás natural na refinaria Alunorte, eletrificação de caldeiras e investimentos em eólicas e solares. A meta da companhia é descarbonizar até 2050. Baranov também destacou inovações em adaptação e economia circular, como a tecnologia “Tailing Dry Backfield” (recomposição do solo sem barragens) e um projeto piloto que usa o caroço do açaí como biomassa para substituir o carvão.
O desafio para o setor é duplo, segundo Escobar. A mineração precisa aumentar a produção para suprir a transição energética – a BHP estima que o mundo precisará de 70% a mais de cobre nos próximos 20 anos – enquanto, simultaneamente, reduz o consumo de energia e água e avança na descarbonização (Escopo 1). “Estamos investindo muito em inovação, como lidar com o Escopo 1, os grandes caminhões são movidos a diesel”, explicou Escobar, mencionando testes com tração elétrica e hidrogênio.
Baranov, da Hydro, ressaltou o potencial do Brasil em ser referência na agenda climática, especialmente no contexto da COP30 em Belém. “Quem vai falar melhor de floresta que a gente? Quem vai falar melhor em adaptação?”, questionou. O Ibram lançou durante o evento o “Green Paper: Adaptação a Mudanças do Setor Mineral”. “Este documento não apenas mapeia os desafios, mas também propõe um conjunto robusto de ações, desde o monitoramento aprimorado de variáveis climáticas até a implementação de planos de contingência e o uso racional de água, demonstrando a proatividade necessária para transformar riscos em medidas concretas de proteção e sustentabilidade”, pontuou o diretor de Sustentabilidade e Assuntos Associativos do Ibram Rinaldo Mancin.
Confira a cobertura completa da Exposibram na página especial do Radar Mineração.

