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Da esquerda para a direita: Davi Bomtempo, Anderson Baranov, Clarissa Lins, René Muga Escobar e Thais Ferraz. Especialistas e executivos destacam na Exposibram 2025 que apenas 3% do financiamento climático global é voltado à adaptação climática.
Da esquerda para a direita: Davi Bomtempo, Anderson Baranov, Clarissa Lins, René Muga Escobar e Thais Ferraz (Foto: Aldair Lima/ IBRAM via Flickr)

Adaptação é imperativo de negócio, mas carece de financiamento e planos

Apenas 3% do financiamento climático global é destinado à adaptação; mineradoras operam com visão de longo prazo

Por Roberto Francellino, 3 min de leitura

Publicado em 31/10/2025

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  • Apenas 3% do financiamento climático global é destinado à adaptação climática, enquanto 90% concentra-se em mitigação, apesar de perdas econômicas de US$ 370 bilhões anuais por desastres naturais.
  • Somente 35% das empresas listadas no S&P Global 1200 possuem planos formais de adaptação, revelando lacuna crítica entre reconhecimento de riscos e preparação corporativa estruturada.
  • Mineradoras como BHP e Hydro demonstram que adaptação exige investimentos em inovação tecnológica, uso racional de água e energia renovável para conciliar aumento de produção com descarbonização.
Resumo revisado pela redação.

A adaptação às mudanças climáticas deve ser uma pauta de negócios presente, e não futura, de acordo com especialistas ouvidos na Exposibram. O diagnóstico é que apesar dos custos econômicos crescentes dos eventos extremos, a agenda de adaptação ainda enfrenta um grave déficit de financiamento e de planejamento formal em comparação com as ações de mitigação.

Clarissa Lins, sócia fundadora da Catavento Consultoria
Clarissa Lins (Foto: Aldair Lima/ IBRAM via Flickr)

Clarissa Lins, sócia fundadora da Catavento Consultoria, apresentou dados que ilustram a disparidade. Segundo ela, as perdas econômicas globais por desastres naturais somaram quase US$ 370 bilhões no ano passado, com 60% desse total sem cobertura de seguro. Apesar disso, o financiamento climático global é majoritariamente direcionado à mitigação (mais de 90%), enquanto a adaptação recebe apenas 3% dos recursos. “Nem as empresas têm planos preparados, nem os recursos identificaram ainda direito esses projetos”, afirmou Lins. Ela também apontou que, globalmente, apenas 35% das empresas listadas no S&P Global 1200 possuem um plano de adaptação formal.

Thais Ferraz, diretora de Programas do Instituto Clima e Sociedade (iCS)
Thais Ferraz (Foto: Aldair Lima/ IBRAM via Flickr)

Thais Ferraz, diretora de Programas do Instituto Clima e Sociedade (iCS), reforçou que a adaptação é uma “certeza”, dado que o aquecimento médio já atinge 1,3°C. Ela destacou a necessidade de políticas públicas que tratem a adaptação como investimento, e não como custo. “A estimativa é de que sejam necessários aproximadamente US$ 350 bilhões ao ano para construir resiliência nos países em desenvolvimento”, disse Ferraz, sinalizando que 75% desse investimento deveria ser público. Ambas as especialistas citaram o papel de ferramentas públicas, como a plataforma ‘Adapta Brasil’, como incentivos não-monetários que auxiliam no mapeamento de riscos.

Mineradoras detalham seus planos

René Muga Escobar, vice-presidente de Assuntos Corporativos América Latina da BHP
René Muga Escobar (Foto: Aldair Lima/ IBRAM via Flickr)

Do lado corporativo, os executivos destacaram que a mineração, por sua natureza, já opera com visão de longo prazo. René Muga Escobar, vice-presidente de Assuntos Corporativos América Latina da BHP, defendeu que o setor privado deve ser “mais ousado” e não esperar por políticas públicas. Ele citou o exemplo da mina Escondida (Chile), que há 12 anos investiu mais de US$ 4 bilhões em dessalinização para parar de usar água de zonas úmidas (wetlands), uma decisão tomada antes de qualquer exigência legal. Segundo ele, a BHP também foi a primeira operação de mineração a atingir zero emissões de Escopo 2 (consumo de energia) ao migrar totalmente para renováveis.

Anderson Baranov, CEO da Norsk Hydro Brasil
Anderson Baranov (Foto: Aldair Lima/ IBRAM via Flickr)

Anderson Baranov, CEO da Norsk Hydro Brasil, informou que a empresa está investindo R$ 12,6 bilhões em descarbonização desde 2022, incluindo a troca de combustível por gás natural na refinaria Alunorte, eletrificação de caldeiras e investimentos em eólicas e solares. A meta da companhia é descarbonizar até 2050. Baranov também destacou inovações em adaptação e economia circular, como a tecnologia “Tailing Dry Backfield” (recomposição do solo sem barragens) e um projeto piloto que usa o caroço do açaí como biomassa para substituir o carvão.

O desafio para o setor é duplo, segundo Escobar. A mineração precisa aumentar a produção para suprir a transição energética – a BHP estima que o mundo precisará de 70% a mais de cobre nos próximos 20 anos – enquanto, simultaneamente, reduz o consumo de energia e água e avança na descarbonização (Escopo 1). “Estamos investindo muito em inovação, como lidar com o Escopo 1, os grandes caminhões são movidos a diesel”, explicou Escobar, mencionando testes com tração elétrica e hidrogênio.

Baranov, da Hydro, ressaltou o potencial do Brasil em ser referência na agenda climática, especialmente no contexto da COP30 em Belém. “Quem vai falar melhor de floresta que a gente? Quem vai falar melhor em adaptação?”, questionou. O Ibram lançou durante o evento o “Green Paper: Adaptação a Mudanças do Setor Mineral”. “Este documento não apenas mapeia os desafios, mas também propõe um conjunto robusto de ações, desde o monitoramento aprimorado de variáveis climáticas até a implementação de planos de contingência e o uso racional de água, demonstrando a proatividade necessária para transformar riscos em medidas concretas de proteção e sustentabilidade”, pontuou o diretor de Sustentabilidade e Assuntos Associativos do Ibram Rinaldo Mancin.

Confira a cobertura completa da Exposibram na página especial do Radar Mineração.

Dúvidas mais comuns

A adaptação é imperativa porque as perdas econômicas globais por desastres naturais já somam quase US$ 370 bilhões anuais, com 60% sem cobertura de seguro. O aquecimento médio já atinge 1,3°C, tornando a adaptação uma certeza, não uma possibilidade futura. As empresas que não se adaptarem enfrentarão riscos crescentes à continuidade operacional e à rentabilidade.

Apenas 3% do financiamento climático global é direcionado à adaptação, enquanto mais de 90% vai para mitigação. Estima-se que sejam necessários aproximadamente US$ 350 bilhões anuais para construir resiliência nos países em desenvolvimento, sendo que 75% desse investimento deveria ser público. Essa disparidade reflete a falta de reconhecimento da adaptação como investimento estratégico.

Globalmente, apenas 35% das empresas listadas no S&P Global 1200 possuem um plano de adaptação formal. Além disso, nem as empresas têm planos preparados adequadamente, nem os recursos foram identificados corretamente para esses projetos. Essa lacuna representa uma oportunidade significativa para empresas que desejam se diferenciar competitivamente.

A BHP investiu mais de US$ 4 bilhões há 12 anos na mina Escondida (Chile) em dessalinização para parar de usar água de zonas úmidas, uma decisão tomada antes de qualquer exigência legal. A empresa também foi a primeira operação de mineração a atingir zero emissões de Escopo 2 ao migrar totalmente para energias renováveis, demonstrando liderança proativa em adaptação.

A Norsk Hydro Brasil está investindo R$ 12,6 bilhões em descarbonização desde 2022, incluindo a troca de combustível por gás natural na refinaria Alunorte, eletrificação de caldeiras e investimentos em eólicas e solares. A empresa também desenvolve inovações como a tecnologia 'Tailing Dry Backfield' para recomposição do solo sem barragens e um projeto piloto usando caroço de açaí como biomassa para substituir carvão.

A mineração precisa aumentar a produção em 70% para suprir a transição energética global de cobre nos próximos 20 anos, enquanto simultaneamente reduz o consumo de energia e água e avança na descarbonização. Isso exige inovação contínua, como testes com tração elétrica e hidrogênio para grandes caminhões movidos a diesel, equilibrando crescimento com sustentabilidade.

As políticas públicas devem tratar a adaptação como investimento, não como custo, e fornecer ferramentas como a plataforma 'Adapta Brasil' para auxiliar no mapeamento de riscos. Além disso, 75% do investimento necessário em adaptação deveria ser público, demonstrando que o setor privado não pode resolver sozinho esse desafio sem suporte governamental estruturado.

O Brasil possui vantagens naturais significativas, especialmente com suas florestas e biodiversidade, posicionando-o como referência em adaptação climática. No contexto da COP30 em Belém, o país tem a oportunidade de liderar a agenda global de adaptação, aproveitando sua expertise em questões ambientais e sua capacidade de demonstrar soluções práticas para resiliência climática.