A demanda global por minerais críticos poderá dobrar até 2040, considerando a meta de emissões líquidas zero de gases de efeito estufa, segundo o World Resources Institute (WRI). Esse é um dos principais argumentos dos defensores da mineração em águas profundas, que veem a atividade como uma alternativa complementar para atender à crescente corrida por materiais essenciais à transição energética.
Explicando: há depósitos minerais valiosos no fundo do mar, incluindo cobre, cobalto, níquel, zinco, ouro, prata e terras raras. E mais: a tecnologia de extração avançou bem, embora atualmente não exista ainda uma exploração comercial em escala industrial.
Apesar disso, já existem cerca de 20 contratos de exploração conhecidos para a Zona de Clarion-Clipperton, no Oceano Pacífico. Assim como outras regiões potenciais, ela está em águas profundas internacionais. As áreas já concedidas para exploração somam cerca de 1 milhão de km² — uma extensão comparável ao território do Egito — dentro da Zona de Clarion-Clipperton, que é significativamente maior.
Potencial vs custos
A mineração submarina pode destravar um potencial de negócios estimado em US$ 20 trilhões em escala mundial, segundo estudo da consultoria de gestão Arthur D Little. Esse valor considera somente os minerais críticos essenciais para baterias e outras tecnologias verdes.
A consultoria ressalta, no entanto, que os financiamentos de projeto só devem ser aprovados quando as empresas demonstrarem capacidade de produção em escala comercial, ou seja, superior a 500 mil toneladas/ano. Além disso, as operações deverão ser ambientalmente sustentáveis.
Entre os custos da exploração está o investimento em equipamentos. Para a Arthur D Little, os veículos especiais de coleta dos minerais em solo marinho podem custar entre US$ 10 milhões e US$ 20 milhões cada. Outro custo pesado é o das embarcações que vão funcionar como plataformas de apoio: entre US$ 400 milhões e US$ 600 milhões por unidade.
Já o transporte do mineral extraído no fundo do mar até as plataformas vai envolver sistemas de elevação e tubulação, com investimento mínimo superior a US$ 200 milhões por sistema instalado.
Uma vez transportados para a terra, os minerais precisam ser processados e as plantas novas envolvem investimentos entre US$ 3 bilhões e US$ 4 bilhões. Acrescente-se a isso tecnologias específicas de pré-tratamento e separação, que podem chegar a US$ 500 milhões.
“Aspirador de pó” submarino
A escolha da tecnologia vai ser determinada pelo tipo de depósito. No caso dos “nódulos” polimetálicos de formação lenta, do tamanho de uma batata, principal foco de atenção atual, os veículos de coleta citados acima removeriam os depósitos minerais da superfície do fundo do mar, juntamente com as camadas superiores de sedimentos, utilizando um dispositivo de sucção semelhante a um aspirador de pó.
Os materiais coletados seriam então conduzidos por tubulação até uma embarcação na superfície para processamento. Quaisquer resíduos, como sedimentos e outros materiais orgânicos, seriam bombeados de volta para o oceano. A mineração poderia ter consequências significativas em termos de perturbação do leito marinho, criação de grandes plumas de sedimentos e liberação de substâncias tóxicas dos depósitos.
As ocorrências minerais também envolvem sulfetos polimetálicos, ou seja, grandes depósitos compostos de enxofre e outros metais que se formam ao redor de fontes hidrotermais. Uma terceira opção envolve as crostas ricas em metais situadas nas chamadas montanhas submarinas.
Entre as tecnologias de processamento em terra que podem contribuir para a viabilidade econômica, a lixiviação pode ser parte do processo metalúrgico. Tanto para os nódulos polimetálicos, como para os sulfetos polimetálicos, ela seria uma rota de extração para cobre, níquel e cobalto, entre outros.
A extração direta de lítio (DLE), embora seja aplicada aos depósitos em salmouras, como ocorrem no Chile e Argentina, ainda estariam sendo avaliados para depósitos submarinos.

Barreiras regulatórias e ambientais
Embora os países possam realizar a mineração em águas profundas em seus próprios territórios, o mundo ainda aguarda regulamentação da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA) da ONU, que determinarão se e como essa atividade poderá prosseguir em águas internacionais, onde se espera estar a maior parte dos minerais críticos.
Segundo o WRI, a ISA e seus membros não conseguiram chegar a um acordo sobre as regras que regerão as operações de mineração comercial em águas internacionais. A última rodada terminou em julho de 2025, sem acordo, e as negociações devem continuar ao longo de 2026..
Para os especialistas da Arthur D Little, o avanço da mineração submarina exige consenso sobre os níveis aceitáveis de perturbação ambiental, especialmente nos ecossistemas frágeis, em grande parte inexplorados e com biodiversidade única nas profundezas oceânicas.
O estudo da consultoria aponta que, embora a mineração em leito marinho sugira menos emissões de CO2 e utilize menos água do que a mineração terrestre, a perturbação do habitat e a liberação de sedimentos precisam ser avaliadas.
“Não existe um método de extração perfeito. Portanto, o foco da mineração submarina recai na minimização dos impactos por meio da inovação tecnológica, regulamentação rigorosa e um compromisso genuíno com práticas sustentáveis”, resume o relatório.