O diretor do BNDES José Luís Gordon e o presidente em exercício, Geraldo Alckmin
Diretor do BNDES José Luís Gordon e o presidente em exercício, Geraldo Alckmin (Foto: Kayo Magalhães / BNDES)

BNDES detalha financiamento de linha do Brasil Soberano para minerais críticos

Programa criado por medida provisória prevê R$ 15 bilhões em financiamentos para enfrentar impactos geopolíticos e fortalecer setores estratégicos, com minerais críticos incluídos entre prioridades

Por Vanderlei Campos, 6 min de leitura

Publicado em 07/05/2026

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A partir do dia 15 de maio, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) começará a receber propostas para as novas linhas de financiamento do Plano Brasil Soberano, apresentadas em pré-lançamento a representantes do setor mineral em conferência neste 7 de maio. Articulado pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), o encontro reuniu executivos do banco, mineradoras e empresas ligadas à cadeia de minerais críticos para detalhar os instrumentos de apoio previstos.

Instituído pela Medida Provisória 1345/2026, o Brasil Soberano prevê R$ 15 bilhões em financiamentos distribuídos entre diferentes frentes de apoio econômico e setores estratégicos definidos pelo governo federal. “O principal objetivo é [obter] linhas de financiamento para enfrentamento dos impactos causados por questões geopolíticas e instabilidades internacionais”, disse o superintendente da área de desenvolvimento produtivo e inovação do BNDES, João Pieroni.

Dentro desse escopo, os minerais críticos foram incluídos entre os setores estratégicos contemplados pela política, ao lado dos complexos farmacêutico, automotivo e de informática.

Segundo Pieroni, o programa foi estruturado em três grupos de beneficiários. Um deles contempla empresas afetadas por tarifas e instabilidades geopolíticas internacionais. O segundo reúne exportadores impactados pela conjuntura externa, incluindo os setores industriais considerados estratégicos pelo governo brasileiro, caso dos minerais críticos. “O grupo mais importante é o grupo 2, onde estão os setores industriais estratégicos. Concentramos aquilo que o Brasil entende que são segmentos estratégicos e eventualmente segmentos em que temos um déficit comercial relevante”, explicou.

Além dos minerais críticos, o grupo inclui setores de média e alta intensidade tecnológica, como os complexos farmacêutico, automotivo e de informática.

Condições de financiamento para setor mineral

Mineração com estruturas metálicas e terra escavada em um ambiente de floresta, durante o dia.
Foto: Tom Fisk / Pexels

Pieroni informou que a linha destinada ao grupo 2 contempla financiamento para investimentos em novas minas, beneficiamento mineral e aquisição de máquinas e equipamentos. “A parte do investimento tem uma taxa de 6,5% ao ano, a mesma do Fundo Clima do BNDES”, mencionou.

Segundo o executivo, o custo final das operações deve variar entre 8% e 11% ao ano, dependendo do risco do projeto. A composição inclui spread básico de 1,3% e spread de risco entre 0,2% e 3,5%. O prazo pode chegar a 20 anos, com até quatro anos de carência. O limite inicial é de R$ 500 milhões por grupo econômico.

Pieroni destacou ainda que as condições estarão válidas a partir de 15 de maio e elas podem ser combinadas com outras linhas do banco, incluindo financiamentos em dólar (considerados particularmente relevantes para projetos voltados à exportação) e linhas de Indústria 4.0 para aquisição de equipamentos tecnológicos.

“Esse é um instrumento incentivado, mas que pode ser composto com outros vários instrumentos que nós temos”, afirmou o diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do BNDES, José Luís Gordon.

Urgência na aprovação da MP

Plenário da Câmara durante sessão deliberativa com deputados e senadores discutindo e debatendo.
Foto: Bruno Spada / Câmara dos Deputados / Agência Câmara Notícias.

Apesar da abertura do protocolo, os executivos do BNDES alertaram para o principal risco institucional do programa: a eventual caducidade da Medida Provisória 1345/2026, caso ela não seja convertida em lei pelo Congresso Nacional dentro do prazo constitucional de até 180 dias, contados a partir de 25 de março.“Esse não é um prazo viável para analisar operações mais estruturadas, mais complexas”, alertou Pieroni.

Segundo o executivo, operações de mineração demandam períodos mais longos de estruturação, due diligence e negociação de garantias, o que torna essencial a aprovação definitiva da medida provisória. “O nosso grande desafio é também pedir o apoio de vocês para que a gente possa converter essa medida provisória em lei”, disse Pieroni aos representantes do setor produtivo.

O tema ganhou mais relevância porque o Congresso aprovou na véspera a PL 2780, relacionada ao fundo garantidor voltado ao setor, como noticiou o Radar Mineração. “Ontem à noite tivemos a aprovação do 2780, o que está muito ligado ao trabalho de vocês (do BNDES), que levaram ao Congresso a ideia do Fundo Garantidor. Agora, o andamento dessa MP obviamente é uma de nossas prioridades”, afirmou o diretor-presidente interino do Ibram, Pablo Cesário.

Garantias e project finance para operações em estágio inicial

Equipamentos de perfuração no solo em um canteiro de obras, destacando ferramentas para escavações e instalação de tubulações.
Operação em estágio inicial (Foto: IslandHopper X / Pexels)

Além das condições de financiamento, o BNDES detalhou iniciativas voltadas a superar um dos principais gargalos do setor: as garantias exigidas para projetos de mineração, especialmente nos segmentos de minerais críticos.

“Estamos avançando em um gargalo muito relevante desses projetos, que são as garantias, e o banco está buscando inovar, trazendo a modalidade de project finance”, disse Pieroni.

Segundo o executivo, o modelo pode representar um divisor de águas para projetos de mineração ao permitir avaliações baseadas no fluxo de caixa futuro dos empreendimentos, e não apenas nos ativos existentes das empresas.

O tema apareceu de forma recorrente ao longo da conferência, especialmente nas intervenções de empresas em estágio pré-operacional. O CFO da St. George Mining, Edmar Rocha, questionou como empresas sem faturamento poderão acessar os novos instrumentos e quais serão os mecanismos de garantia disponíveis.

Pieroni apontou o Fundo de Investimento em Participações (FIP) como alternativa para empresas em estágio inicial. “O caminho mais adequado é vocês procurarem o gestor”, orientou.

A sócia do escritório Demarest, Maiara Mendes, e especialista em project finance, afirmou que bancos comerciais nacionais e internacionais também têm ampliado o interesse por operações ligadas à mineração. Segundo a advogada, um dos principais desafios para ampliar o project finance no setor é reduzir a percepção de risco dos credores em relação à geração futura de caixa dos empreendimentos minerais.

Fundo para minerais críticos

Mina a céu aberto, com máquinas pesadas e trabalhadores com coletes refletores, demonstrando processos de extração de carvão.
Foto: Vale / BNDES

Pieroni deu especial destaque às iniciativas estruturadas pelo banco para minerais críticos desde 2023. Entre elas está o FIP, voltado a minerais estratégicos e  estruturado em parceria com a Vale, com aportes de até R$ 250 milhões de cada instituição e potencial para atingir pelo menos R$ 1 bilhão.

Segundo ele, o fundo já recebeu cartas de intenção que superam R$ 3 bilhões e deve começar a anunciar os primeiros investimentos ainda neste semestre, voltados sobretudo a empresas júnior e a projetos de pesquisa mineral.

Durante a conferência, executivos do banco indicaram que o primeiro aporte poderá ocorrer em junho e tem grande probabilidade de ser direcionado à Viridis, empresa dedicada a extração de terras raras. 

Outra frente destacada foi a chamada pública de transformação mineral, lançada em parceria com a Finep no ano passado. Segundo Pieroni, o edital recebeu mais de R$ 85 bilhões em propostas de investimentos. Após seleção inicial, permaneceram 56 planos de negócios, somando R$ 46 bilhões em investimentos potenciais. Desses, R$ 14 bilhões já foram protocolados no banco.

Pieroni afirmou que a BNDESPar (subsidiária de renda variável do banco) criou uma equipe dedicada exclusivamente a projetos de mineração e vem avaliando operações de participação acionária em minerais críticos. “A BNDESPar está avaliando alguns projetos. Então o BNDES também deve ter uma atuação direta em equity”, disse.

Gargalos de funding

Durante a conferência, representantes de empresas do setor defenderam aperfeiçoamentos nos instrumentos financeiros para contemplar operações em estágio inicial, especialmente projetos greenfield e empresas sem faturamento.

O CEO da Cabo Verde Mineração, Túlio Rivadavia, lembrou que a maior parte dos projetos brasileiros de minerais críticos ainda está em fase inicial e enfrenta dificuldades para acessar financiamento. “A pesquisa é a parte mais cara, principalmente em terras raras, agora. Não adianta terceirizar essa etapa ao Serviço Geológico Brasileiro”, argumentou.

Rivadavia argumentou que o mercado financeiro ainda concentra atenção excessiva em empresas de capital aberto e projetos mais maduros, deixando lacunas no financiamento da etapa de exploração mineral e desenvolvimento inicial. “O BNDES poderia ser o grande agente disso para o Brasil”, disse.

Os executivos do BNDES reconheceram a existência dessas lacunas e afirmaram que o FIP foi concebido para atender projetos de maior risco e empresas em estágio inicial. O chefe do Departamento de Indústrias de Base do banco, Flávio Mota, esclareceu que o objetivo é criar um efeito indutor no mercado. “O FIP é o veículo, pelo menos da parte do BNDES, estruturado para endereçar essa demanda”, afirmou.

Segundo Mota, o regulamento do fundo prevê aplicação mínima de recursos em projetos early stage e a expectativa é alcançar pelo menos uma dezena deles voltados a exploração mineral.

Cesário, do Ibram, também defendeu a necessidade de acelerar a construção de instrumentos voltados às empresas pré-operacionais. “É hora de trazer as iniciativas pré-operacionais”, resumiu.

Dúvidas mais comuns

O Plano Brasil Soberano é um programa instituído pela Medida Provisória 1345/2026 que prevê R$ 15 bilhões em financiamentos para setores estratégicos, incluindo minerais críticos. Seu principal objetivo é oferecer linhas de financiamento para enfrentar os impactos causados por questões geopolíticas e instabilidades internacionais, reforçando a estratégia industrial brasileira em segmentos considerados essenciais para o desenvolvimento econômico do país.

O BNDES oferece financiamento com taxa de 6,5% ao ano para investimentos em novas minas, beneficiamento mineral e aquisição de máquinas e equipamentos. O custo final das operações varia entre 8% e 11% ao ano, dependendo do risco do projeto, com composição de spread básico de 1,3% e spread de risco entre 0,2% e 3,5%. O prazo pode chegar a 20 anos com até quatro anos de carência, e o limite inicial é de R$ 500 milhões por grupo econômico.

Os minerais críticos prioritários para o Brasil incluem lítio, cobalto, níquel e terras raras, fundamentais para baterias de veículos elétricos, turbinas eólicas e painéis solares. O país possui 94% das reservas mundiais de nióbio, 22% de grafite, 16% de níquel e representa 17% das terras raras globais, posicionando-se como terceiro maior produtor mundial desses minerais estratégicos.

O BNDES estruturou o Fundo de Investimento em Participações (FIP) em parceria com a Vale para apoiar empresas em estágio inicial, com aportes de até R$ 250 milhões de cada instituição e potencial para atingir pelo menos R$ 1 bilhão. O fundo já recebeu cartas de intenção que superam R$ 3 bilhões e deve começar a anunciar os primeiros investimentos ainda neste semestre, voltados sobretudo a empresas júnior e projetos de pesquisa mineral.

Project finance é uma modalidade de financiamento que permite avaliações baseadas no fluxo de caixa futuro dos empreendimentos, em vez de apenas nos ativos existentes das empresas. Para projetos de mineração, especialmente em estágio inicial, essa abordagem representa um divisor de águas, pois reduz a percepção de risco dos credores e facilita o acesso ao financiamento para empresas sem faturamento ou ativos consolidados.

O principal risco institucional é a eventual caducidade da Medida Provisória 1345/2026 caso ela não seja convertida em lei pelo Congresso Nacional dentro do prazo constitucional de até 180 dias, contados a partir de 25 de março. Operações de mineração demandam períodos longos de estruturação, due diligence e negociação de garantias, tornando essencial a aprovação definitiva da medida provisória para garantir a viabilidade dos projetos.

A chamada pública de transformação mineral, lançada em parceria com a Finep, recebeu mais de R$ 85 bilhões em propostas de investimentos. Após seleção inicial, permaneceram 56 planos de negócios somando R$ 46 bilhões em investimentos potenciais, dos quais R$ 14 bilhões já foram protocolados no banco, demonstrando forte interesse do setor em acessar os instrumentos de financiamento disponibilizados.

O BNDES está inovando ao trazer a modalidade de project finance para superar o gargalo das garantias exigidas para projetos de mineração. Além disso, criou o FIP com regulamento que prevê aplicação mínima de recursos em projetos early stage, e a BNDESPar criou uma equipe dedicada exclusivamente a projetos de mineração para avaliar operações de participação acionária em minerais críticos, ampliando as opções de financiamento disponíveis.