- Brasil apresentou 33 empresas de mineração no PDAC 2026 com foco em atrair capital estrangeiro para projetos de minerais críticos alinhados à transição energética global.
- O governo lançou o Guia do Investidor 2026 e criou o Brazilian Mining Day para reduzir assimetrias de informação e conectar projetos em exploração com fundos especializados em risco mineral.
- A maioria das empresas brasileiras buscava financiamento em Toronto, onde estão 40% a 50% das mineradoras listadas globalmente, para avançar projetos de lítio, grafite, terras raras e cobre.
Transformar potencial geológico em financiamento e novas parcerias foi o centro da participação brasileira na Prospectors & Developers Association of Canada (PDAC), realizada entre 1º e 4 de março, em Toronto. Com 33 empresas do setor mineral na delegação oficial, pavilhão próprio e uma agenda voltada a investidores, a mensagem foi direcionada para a atração de capital estrangeiro a projetos de minerais críticos e ao fortalecimento da posição brasileira como fornecedor estratégico para a transição energética.
A APEX (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) patrocinou novamente o Pavilhão Brasileiro no evento, que teve cerca de 30 mil participantes, de 135 países e mais de mil expositores.“No PDAC, o Brasil reafirma seu protagonismo ao apresentar projetos alinhados às melhores práticas de sustentabilidade e um ambiente de negócios cada vez mais seguro e competitivo. Queremos ampliar parcerias e atrair investimentos estrangeiros que contribuam para desenvolver plenamente o potencial da indústria brasileira no setor”, disse a diretora de Negócios da ApexBrasil, Ana Paula Repezza.
O estande brasileiro, com 90 m², funcionou como base para reuniões bilaterais e rodadas de negócios. O principal evento da agenda foi o Brazilian Mining Day, realizado em 3 de março, com painéis sobre governança regulatória, licenciamento ambiental, mercado de capitais para junior companies, inovação e panorama de minerais críticos e metais preciosos no país. Também ocorreram apresentações de projetos em diferentes estágios de desenvolvimento e mesas-redondas com investidores na Toronto Stock Exchange.
A delegação foi coordenada pela Agência para o Desenvolvimento e Inovação do Setor Mineral Brasileiro (Adimb), em parceria com a Brazil-Canada Chamber of Commerce e o Consulado-Geral do Brasil em Toronto.
Guia do Investidor
O governo federal aproveitou o evento no Canadá para lançar a edição de 2026 do Guia do Investidor para Minerais Críticos, publicação do Ministério de Minas e Energia (MME) voltada à atração de capital estrangeiro para a cadeia mineral brasileira. O documento reúne informações sobre o marco regulatório, ambiente de negócios e projetos considerados estratégicos.
O guia também apresenta dados atualizados sobre o ambiente macroeconômico, os procedimentos para obtenção de direitos minerários e as etapas de licenciamento ambiental. Segundo o ministério, a proposta é reduzir assimetrias de informação e ampliar a previsibilidade para investidores internacionais interessados no mercado brasileiro.
“O Brasil reúne condições para liderar a nova economia de baixo carbono. Somos detentores de reservas estratégicas para a transição energética global e estamos construindo um ambiente mais seguro, transparente e competitivo para a atração de investimentos. O Guia é um instrumento de conexão entre o potencial mineral brasileiro e oportunidades de parceria com o mundo”, disse o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira ao Estadão.
Para o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), o evento foi importante especialmente por criar alternativas de financiamentos para as junior companies, que, historicamente, têm acesso restrito a instrumentos de capital e isso prejudica o avanço de projetos no país.
Em uma mesa redonda com líderes do setor no dia 2 de março, o diretor de Assuntos Institucionais e presidente interino da entidade, Pablo Cesário, defendeu maior conexão entre os mercados de capitais do Brasil e do Canadá, apontado como referência global no financiamento à atividade mineral. Para o Ibram, a diversificação das fontes de recursos contribui para fortalecer a cadeia produtiva, apoiar a pesquisa mineral e sustentar o papel do Brasil no fornecimento de minerais ligados à transição energética e à inovação tecnológica.
Projetos de alto risco e busca por financiamento
Reportagem da Agência Infra informou que 24 das 33 empresas da delegação apresentaram projetos em fase de exploração mineral, sobretudo nas áreas de terras raras, grafite, lítio, níquel, zinco e cobre.
A maioria era composta por junior companies interessadas em captar recursos para avançar da fase de pesquisa à implantação.
A estratégia foi dar visibilidade a ativos ainda em estágio inicial e aproximá-los de fundos e investidores habituados ao risco característico da mineração, em um momento de reorganização das cadeias globais e aumento da demanda por insumos da economia de baixo carbono.
A Agência Broadcast destacou que o Canadá se consolidou como principal hub financeiro da mineração porque boa parte das empresas de exploração e mineração do mundo capta recursos em Toronto, onde estão a Toronto Stock Exchange e a TSX Venture Exchange, bolsas reconhecidas por concentrar 40% a 50% das empresas de mineração listadas em bolsa no mundo, além de analistas especializados e investidores habituados ao risco típico da atividade mineral.
Nesse ambiente, o PDAC funcionou como uma vitrine global na qual projetos e capital se encontraram, reforçando a importância estratégica da presença brasileira no evento.
Participação regional e expectativa de aportes
A participação brasileira também incluiu iniciativas estaduais. Segundo o Jornal Opção, Goiás levou propostas de exploração de ouro, terras raras, titânio e fosfato. “O PDAC é uma feira de projetos, é uma coisa incrível. O mundo inteiro traz projetos de mineração em várias etapas de conhecimento. Nem todos na fase de risco, buscando atrair investimentos, parceiros para tocar os projetos em sociedade. Tem várias ferramentas, inclusive via bolsa de valores. O Canadá tem um ambiente extremamente moderno e desenvolvido para fomentar investimento em mineração. É o país que mais desenvolveu essas ferramentas. Toronto é o centro mundial de entidades investidoras em mineração”, disse o presidente do Sindicato da Indústria da Mineração do Estado de Goiás e Distrito Federal (Minde), Luiz Antônio Vessani.
Segundo ele, o evento é interessante porque, literalmente, recebe gente do mundo inteiro, incluindo países como Mongólia, Chipre, Grécia, Bolívia e Brasil. “E abre uma feirinha como se estivesse vendendo pastel mesmo. Abre seu estandezinho, mostra seu mapa, leva suas amostras, seus resultados, e fica aguardando os investidores que ficam passeando nos corredores olhando, estudando, assuntando e conversando, quiçá fazendo negócios”, descreveu Vessani.
A expectativa goiana foi de captar ao menos US$ 10 milhões ainda neste ano para exploração e pesquisa, com possibilidade de investimentos mais robustos caso os projetos avancem.
Comunicação de valor e diálogo com mercado e sociedade
Em palestra na abertura do PDAC 2026, o CEO da Vale, Gustavo Pimenta, destacou que, diante do papel da mineração na nova economia, o setor precisa aprimorar seus canais de informação e interlocução com os diversos stakeholders, incluindo investidores e comunidades.

Pimenta destacou a importância de uma agenda de interlocução com os agentes econômicos e a sociedade, para esclarecer a centralidade da mineração no desenvolvimento. “Não há IA sem mineração. Não há transição energética sem mineração. Não basta dizer que somos essenciais. Precisamos mostrar que geramos valor real para a sociedade. Se hoje vivemos mais e melhor, isso está diretamente ligado aos minerais. Olhando para o futuro, a necessidade desses recursos será ainda maior”, defendeu o executivo, acrescentando outras entregas de benefícios pelo setor. É o caso da operação em Carajás, onde a mineração protege a floresta.
Em entrevista à CNN Brasil, Pimenta destacou o papel do cobre na eletrificação da economia e afirmou que “existe hoje uma percepção e reconhecimento de que pode faltar cobre”. “A Vale quer assumir o papel de poder ofertar esse cobre”, disse.
Nesse sentido, a companhia anunciou investimentos de US$ 3,5 bilhões até 2030 para expandir a produção do metal em Carajás. Com isso, a expectativa é dobrar até 2035 o volume de cobre produzido na região. “Não há transição energética sem mineração”, lembrou.