- Brasil consolidou 56 projetos de mineração com R$ 45,8 bilhões em investimentos, focando em rotas inéditas de processamento de minerais críticos para transição energética e economia circular.
- O Nordeste concentrou 41% dos investimentos totais, com a Bahia liderando como terceiro maior estado em faturamento mineral, evidenciando descentralização geográfica do setor.
- O gargalo permanece no refino e processamento intermediário, controlado principalmente pela China, exigindo políticas industriais de longo prazo para garantir soberania tecnológica brasileira.
O ano de 2025 marcou um ponto de virada para a mineração brasileira. O país consolidou novos corredores estratégicos voltados para a transição energética, a descarbonização e a economia circular. A chamada pública, lançada pelo BNDES e pela Financiadora de Estudos e Projetos do Governo Federal (Finep) no primeiro semestre, não apenas selecionou 56 projetos, com previsão de investimentos de R$ 45,8 bilhões, como também revelou uma nova configuração do setor mineral nacional.
“As empresas demonstraram forte interesse em desenvolver rotas de processamento mineral inéditas no país e desafiadoras do ponto de vista tecnológico”, afirmou Henrique Vasquez, gerente do Departamento de Indústria de Base e Extrativas Sustentáveis da Finep, em entrevista para o Radar Mineração. Essa tendência confirma que 2025 foi o ano em que o Brasil deixou de ser apenas um grande produtor de minerais para se tornar protagonista na inovação tecnológica aplicada à mineração.
Descentralização e novos polos
A descentralização dos investimentos é outro marco. Regiões tradicionalmente menos associadas à mineração ganharam protagonismo. O Nordeste, por exemplo, concentrou 41% do volume total investido em 13 projetos, superando expectativas e consolidando-se como corredor emergente. “O destaque atual do Nordeste na mineração, com a Bahia liderando a região e sendo o terceiro maior estado do país em faturamento no setor mineral, é explicado por dois fatores principais: a riqueza geológica de minerais estratégicos e o investimento contínuo em pesquisa e inovação”, destacou Vasquez.
Esse movimento é sustentado por políticas da Finep para ampliar a capilaridade dos recursos. “Temos aprimorado e reforçado as operações descentralizadas, com a utilização de parceiros regionais, de modo a entregar capilaridade na chegada dos recursos aos estados brasileiros e suas diferentes realidades no ambiente de inovação”, explicou.
Minerais críticos e soberania tecnológica
Entre os minerais contemplados estão lítio, grafita, terras raras, níquel, cobre, silício, titânio e elementos do grupo da platina — insumos essenciais para tecnologias de baixo carbono, como baterias, painéis solares e turbinas eólicas. “O Brasil se destaca pelas reservas e pela extração de importantes minerais críticos para essa transição”, reforçou Vasquez.
Apesar do avanço, o gargalo permanece na etapa intermediária. “Nosso grande desafio está na fase intermediária de refino e processamento desses minerais, setor em que poucos países, especialmente a China, detêm um controle quase hegemônico”, alertou. Para ele, políticas industriais de longo prazo e investimentos consistentes em ciência e tecnologia são fundamentais para internalizar essa etapa e garantir soberania tecnológica.
Economia circular e mineração urbana
Outro destaque da chamada foi o incentivo à economia circular. “Ficou explícita a nossa procura por soluções para recuperação de resíduos de equipamentos elétricos e eletrônicos (REEE), de baterias, células fotovoltaicas ou aerogeradores – a dita ‘mineração urbana’. Além disso, estes devem ser direcionados para a fabricação de materiais ou componentes que contribuam para a transição energética e descarbonização”, concluiu Vasquez.
Esse movimento reforça a valorização de resíduos como insumos estratégicos para a indústria de baixo carbono. A recuperação de metais presentes em baterias e painéis solares, por exemplo, reduz a pressão sobre a extração primária e contribui para a redução das emissões associadas ao transporte e ao processamento de minerais. Além disso, iniciativas de reciclagem avançada estão sendo integradas às cadeias produtivas, criando modelos de negócio e empregos qualificados.
Glossário da Mineração
Minerais críticos
São elementos químicos essenciais para setores estratégicos como defesa, energia renovável, tecnologia e transição energética, com oferta limitada ou concentrada geograficamente. Incluem terras raras, lítio, cobalto, grafita e nióbio, entre outros. São fundamentais para fabricação de baterias, painéis solares, chips e outras tecnologias avançadas, apresentando alta relevância econômica e geopolítica.
Descarbonização
Processo de redução progressiva das emissões de gases de efeito estufa, especialmente CO₂, visando a alcançar neutralidade de carbono. Na mineração, envolve eletrificação de frotas, substituição de combustíveis fósseis por energias renováveis, eficiência energética, uso de tecnologias de captura de carbono e otimização de processos industriais.
Economia circular
Modelo produtivo que prioriza o reaproveitamento de materiais, a reciclagem de resíduos e a redução da extração de novos recursos. Na mineração, envolve reprocessamento de rejeitos, uso de resíduos em construção civil (coprodutos) e reaproveitamento de água. A economia circular aumenta a eficiência e reduz impactos ambientais e sociais.
Perspectivas e Tendências para os próximos anos
Outro estudo do Ibram projeta que os investimentos totais no setor mineral devem atingir US$ 68,4 bilhões entre 2025 e 2029, representando um aumento de 6,6 % em relação ao ciclo anterior. Deste montante, cerca de 28,7% (US$ 19,6 bilhões) serão destinados ao minério de ferro. No entanto, o destaque está na diversificação. Há forte expansão em projetos ligados a rotas de minerais críticos, com destaque para terras raras e ouro – com crescimento projetado de 49% e 39%, respectivamente.
Ainda de acordo com análise de mercado publicada pela Research and Markets, o segmento de sistemas de geologia e planejamento de minas no Brasil deve crescer 8,9% ao ano, alcançando aproximadamente US$ 2,5 bilhões até 2033, impulsionado pela digitalização e automação das operações.
Por fim, observa-se uma tendência crescente de iniciativas voltadas à economia circular no setor mineral. O Brasil é hoje o segundo maior gerador de resíduos nas Américas, com mais de 2,4 milhões de toneladas anuais – 15% a mais do que em 2020 – e já conta com centenas de organizações atuando na cadeia de valor da mineração urbana, segundo levantamento do CETEM.
* Especial para o Radar Mineração