Locomotiva de trem transportando minerais críticos em rota estratégica no Brasil, reforçando os novos corredores de mineração com rotas inéditas.
Foto: Vale

Brasil consolida novos corredores da mineração com rotas inéditas para minerais críticos

Descentralização, inovação e economia circular impulsionam a transformação estrutural do setor

Por Por Hélvio Macellane*, 3 min de leitura

Publicado em 07/01/2026 | Atualizado em 09/01/2026

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  • Brasil consolidou 56 projetos de mineração com R$ 45,8 bilhões em investimentos, focando em rotas inéditas de processamento de minerais críticos para transição energética e economia circular.
  • O Nordeste concentrou 41% dos investimentos totais, com a Bahia liderando como terceiro maior estado em faturamento mineral, evidenciando descentralização geográfica do setor.
  • O gargalo permanece no refino e processamento intermediário, controlado principalmente pela China, exigindo políticas industriais de longo prazo para garantir soberania tecnológica brasileira.
Resumo revisado pela redação.

O ano de 2025 marcou um ponto de virada para a mineração brasileira. O país consolidou novos corredores estratégicos voltados para a transição energética, a descarbonização e a economia circular. A chamada pública, lançada pelo BNDES e pela Financiadora de Estudos e Projetos do Governo Federal (Finep) no primeiro semestre, não apenas selecionou 56 projetos, com previsão de investimentos de R$ 45,8 bilhões, como também revelou uma nova configuração do setor mineral nacional.

“As empresas demonstraram forte interesse em desenvolver rotas de processamento mineral inéditas no país e desafiadoras do ponto de vista tecnológico”, afirmou Henrique Vasquez, gerente do Departamento de Indústria de Base e Extrativas Sustentáveis da Finep, em entrevista para o Radar Mineração. Essa tendência confirma que 2025 foi o ano em que o Brasil deixou de ser apenas um grande produtor de minerais para se tornar protagonista na inovação tecnológica aplicada à mineração.

Descentralização e novos polos

A descentralização dos investimentos é outro marco. Regiões tradicionalmente menos associadas à mineração ganharam protagonismo. O Nordeste, por exemplo, concentrou 41% do volume total investido em 13 projetos, superando expectativas e consolidando-se como corredor emergente. “O destaque atual do Nordeste na mineração, com a Bahia liderando a região e sendo o terceiro maior estado do país em faturamento no setor mineral, é explicado por dois fatores principais: a riqueza geológica de minerais estratégicos e o investimento contínuo em pesquisa e inovação”, destacou Vasquez.

Esse movimento é sustentado por políticas da Finep para ampliar a capilaridade dos recursos. “Temos aprimorado e reforçado as operações descentralizadas, com a utilização de parceiros regionais, de modo a entregar capilaridade na chegada dos recursos aos estados brasileiros e suas diferentes realidades no ambiente de inovação”, explicou.

Minerais críticos e soberania tecnológica

Entre os minerais contemplados estão lítio, grafita, terras raras, níquel, cobre, silício, titânio e elementos do grupo da platina — insumos essenciais para tecnologias de baixo carbono, como baterias, painéis solares e turbinas eólicas. “O Brasil se destaca pelas reservas e pela extração de importantes minerais críticos para essa transição”, reforçou Vasquez.

Apesar do avanço, o gargalo permanece na etapa intermediária. “Nosso grande desafio está na fase intermediária de refino e processamento desses minerais, setor em que poucos países, especialmente a China, detêm um controle quase hegemônico”, alertou. Para ele, políticas industriais de longo prazo e investimentos consistentes em ciência e tecnologia são fundamentais para internalizar essa etapa e garantir soberania tecnológica.

Economia circular e mineração urbana

Outro destaque da chamada foi o incentivo à economia circular. “Ficou explícita a nossa procura por soluções para recuperação de resíduos de equipamentos elétricos e eletrônicos (REEE), de baterias, células fotovoltaicas ou aerogeradores – a dita ‘mineração urbana’. Além disso, estes devem ser direcionados para a fabricação de materiais ou componentes que contribuam para a transição energética e descarbonização”, concluiu Vasquez.

Esse movimento reforça a valorização de resíduos como insumos estratégicos para a indústria de baixo carbono. A recuperação de metais presentes em baterias e painéis solares, por exemplo, reduz a pressão sobre a extração primária e contribui para a redução das emissões associadas ao transporte e ao processamento de minerais. Além disso, iniciativas de reciclagem avançada estão sendo integradas às cadeias produtivas, criando modelos de negócio e empregos qualificados.

Glossário da Mineração

Minerais críticos

São elementos químicos essenciais para setores estratégicos como defesa, energia renovável, tecnologia e transição energética, com oferta limitada ou concentrada geograficamente. Incluem terras raras, lítio, cobalto, grafita e nióbio, entre outros. São fundamentais para fabricação de baterias, painéis solares, chips e outras tecnologias avançadas, apresentando alta relevância econômica e geopolítica.

Descarbonização

Processo de redução progressiva das emissões de gases de efeito estufa, especialmente CO₂, visando a alcançar neutralidade de carbono. Na mineração, envolve eletrificação de frotas, substituição de combustíveis fósseis por energias renováveis, eficiência energética, uso de tecnologias de captura de carbono e otimização de processos industriais.

Economia circular

Modelo produtivo que prioriza o reaproveitamento de materiais, a reciclagem de resíduos e a redução da extração de novos recursos. Na mineração, envolve reprocessamento de rejeitos, uso de resíduos em construção civil (coprodutos) e reaproveitamento de água. A economia circular aumenta a eficiência e reduz impactos ambientais e sociais.

Perspectivas e Tendências para os próximos anos

Outro estudo do Ibram projeta que os investimentos totais no setor mineral devem atingir US$ 68,4 bilhões entre 2025 e 2029, representando um aumento de 6,6 % em relação ao ciclo anterior. Deste montante, cerca de 28,7% (US$ 19,6 bilhões) serão destinados ao minério de ferro. No entanto, o destaque está na diversificação. Há forte expansão em projetos ligados a rotas de minerais críticos, com destaque para terras raras e ouro – com crescimento projetado de 49% e 39%, respectivamente.

Ainda de acordo com análise de mercado publicada pela Research and Markets, o segmento de sistemas de geologia e planejamento de minas no Brasil deve crescer 8,9% ao ano, alcançando aproximadamente US$ 2,5 bilhões até 2033, impulsionado pela digitalização e automação das operações.

Por fim, observa-se uma tendência crescente de iniciativas voltadas à economia circular no setor mineral. O Brasil é hoje o segundo maior gerador de resíduos nas Américas, com mais de 2,4 milhões de toneladas anuais – 15% a mais do que em 2020 – e já conta com centenas de organizações atuando na cadeia de valor da mineração urbana, segundo levantamento do CETEM.

* Especial para o Radar Mineração

Dúvidas mais comuns

Minerais críticos são insumos essenciais para tecnologias de baixo carbono, como lítio, grafita, terras raras, níquel, cobre, silício, titânio e elementos do grupo da platina. Esses minerais são fundamentais para a fabricação de baterias, painéis solares e turbinas eólicas. O Brasil se destaca pelas suas reservas geológicas significativas e pela extração desses minerais, posicionando-se como protagonista na transição energética global.

A chamada pública lançada no primeiro semestre de 2025 selecionou 56 projetos com previsão de investimentos de R$ 45,8 bilhões, marcando um ponto de virada para o setor. Os projetos demonstraram forte interesse em desenvolver rotas de processamento mineral inéditas e tecnologicamente desafiadoras no país, consolidando novos corredores estratégicos voltados para a transição energética, descarbonização e economia circular.

O Nordeste concentrou 41% do volume total investido em 13 projetos selecionados, superando expectativas. A Bahia lidera a região como o terceiro maior estado do país em faturamento no setor mineral, impulsionada pela riqueza geológica de minerais estratégicos e investimento contínuo em pesquisa e inovação. Esse movimento foi sustentado por políticas da Finep para ampliar a capilaridade dos recursos através de operações descentralizadas e parcerias regionais.

O grande desafio está na fase intermediária de refino e processamento dos minerais críticos, setor em que poucos países, especialmente a China, detêm controle quase hegemônico. Para internalizar essa etapa e garantir soberania tecnológica, o Brasil necessita de políticas industriais de longo prazo e investimentos consistentes em ciência e tecnologia.

Mineração urbana refere-se à recuperação de resíduos de equipamentos elétricos e eletrônicos (REEE), baterias, células fotovoltaicas e aerogeradores, direcionando-os para a fabricação de materiais e componentes que contribuem para a transição energética. Essa prática reduz a pressão sobre a extração primária, diminui emissões associadas ao transporte e processamento de minerais, e cria modelos de negócio e empregos qualificados.

Estudos do Ibram projetam investimentos totais de US$ 68,4 bilhões no setor mineral entre 2025 e 2029, representando um aumento de 6,6% em relação ao ciclo anterior. Cerca de 28,7% (US$ 19,6 bilhões) serão destinados ao minério de ferro, enquanto há forte expansão em minerais críticos, com crescimento projetado de 49% para terras raras e 39% para ouro.

O segmento de sistemas de geologia e planejamento de minas no Brasil deve crescer 8,9% ao ano, alcançando aproximadamente US$ 2,5 bilhões até 2033. Esse crescimento é impulsionado pela digitalização e automação das operações, que aumentam a eficiência, precisão e sustentabilidade das atividades de mineração.

O Brasil é o segundo maior gerador de resíduos nas Américas, com mais de 2,4 milhões de toneladas anuais – 15% a mais do que em 2020. Centenas de organizações atuam na cadeia de valor da mineração urbana, recuperando metais presentes em baterias e painéis solares, criando uma economia circular que valoriza resíduos como insumos estratégicos para a indústria de baixo carbono.