Três pilhas de minerais — cristais brancos, pedaços metálicos e pó avermelhado — estão sobre uma mesa. Pequenas bandeiras do Brasil e da Argentina estão dispostas ao fundo, ligeiramente fora de foco.
Representação visual de amostras de minerais críticos com as bandeiras de Brasil e Argentina em destaque ao fundo (Imagem gerada digitalmente)

Brasil e Argentina: as diferentes estratégias para liderar o fornecimento de minerais críticos no mundo

Com reservas consideradas essenciais para a economia de baixo carbono, os dois países disputam protagonismo global para conquistar capital estrangeiro e preservar o controle sobre ativos estratégicos

Por Mariana Sgarioni, 4 min de leitura

Publicado em 31/07/2026

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Acostumados a disputar protagonismo no futebol, Brasil e Argentina agora dividem o palco dos minerais críticos. Com reservas essenciais para a transição energética e a revolução digital, os dois países buscam ampliar relevância no mercado global, mas seguem caminhos distintos para atrair investimentos e transformar riqueza mineral em desenvolvimento econômico.

Enquanto o governo argentino aposta em um ambiente regulatório voltado à rápida atração de capital estrangeiro para ampliar exportações de commodities minerais, o Brasil busca combinar a expansão da mineração com políticas que incentivem o processamento doméstico e a agregação de valor aos minerais produzidos no país. A diferença entre essas estratégias revela não apenas prioridades econômicas distintas, como também visões de longo prazo sobre soberania industrial e segurança das cadeias de fornecimento.

“Brasil e Argentina não competem pela intensidade do comércio bilateral de minerais, mas pela capacidade de se consolidarem como fornecedores estratégicos para o mercado internacional”, disse Leonardo Alves Corrêa, especialista em Direito Minerário e professor da Faculdade de Direito da UFMG, ao Radar Mineração. “São duas potências geológicas e com modelos diferentes de produção. A disputa é para saber qual desses modelos será mais atrativo aos investidores internacionais”, completou.

Leonardo Alves Corrêa, professor da Faculdade de Direito da UFMG e especialista em direito minerário e ambiental
Leonardo Alves Corrêa, especialista em Direito Minerário e professor da Faculdade de Direito da UFMG (Foto: Divulgação/ Faculdade de Direito da UFMG)

Segundo ele, a principal diferença está na organização institucional e nos objetivos econômicos de cada país. No Brasil, a gestão dos recursos minerais é centralizada pela União, por meio da Agência Nacional de Mineração (ANM). Já na Argentina, a administração é mais descentralizada, cabendo às províncias a gestão dos recursos minerais e das políticas de desenvolvimento do setor.

Janela de oportunidade

Essa distinção se reflete também na estratégia adotada para aproveitar o atual ciclo de demanda por minerais críticos.

Nos últimos anos, o governo argentino intensificou medidas para atrair grandes projetos de mineração, especialmente os voltados ao lítio e ao cobre, considerados os dois principais vetores de crescimento do setor no país.

Entre os instrumentos utilizados está o Regime de Incentivo a Grandes Investimentos (RIGI), que oferece estabilidade fiscal e tributária de longo prazo para grandes empreendimentos, reduzindo riscos para investidores internacionais. Paralelamente, o país vem ampliando sua aproximação com os Estados Unidos na agenda dos minerais críticos, em uma estratégia de inserção mais rápida nas cadeias globais de suprimentos.

As projeções reforçam essa expectativa. Estudos recentes indicam que as exportações minerais argentinas podem saltar de cerca de US$ 6 bilhões, em 2025, para mais de US$ 30 bilhões em 2035, impulsionadas principalmente pela expansão da produção de lítio e cobre.

Brasil busca fortalecer a cadeia industrial

No Brasil, o debate vem se concentrando na construção de uma política mineral capaz de ampliar o processamento doméstico e reduzir a dependência da exportação de produtos de baixo valor agregado.

“O Brasil já é um grande exportador de minério. O desafio agora é avançar na agregação de valor. Não é um processo simples, mas existe uma discussão consolidada sobre fortalecer a cadeia produtiva e ampliar a industrialização dos minerais estratégicos”, observa Corrêa.

Essa visão também aparece nas declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a 68ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul, que aconteceu no final de junho. Ao defender o desenvolvimento de cadeias regionais para minerais críticos, Lula afirmou que incorporar etapas de maior valor agregado representa uma questão de segurança nacional e soberania para os países da região.

Sessão Plenária da 68ª Cúpula de Presidentes do Mercosul, Países Associados e Convidados Especiais
Sessão Plenária da 68ª Cúpula de Presidentes do Mercosul, Países Associados e Convidados Especiais (Foto: Ricardo Stuckert/ PR)

Nesse contexto, o Paraguai apresentou aos países do bloco um “Mapa do Caminho para o Plano de Minerais Críticos do Mercosul”, iniciativa que pretende estruturar uma estratégia regional para exploração, processamento e agregação de valor desses recursos, além de criar um diagnóstico conjunto sobre o potencial mineral dos países membros.

Cooperação em potássio

Apesar das divergências, os dois países têm iniciativas de cooperação em áreas minerais consideradas estratégicas.

Um exemplo é o memorando firmado em dezembro de 2024 para ampliar o fornecimento de potássio argentino ao Brasil. O mineral é fundamental para a produção de fertilizantes, segmento em que o Brasil permanece bastante dependente das importações. A diversificação da oferta, especialmente a partir de um fornecedor regional, reduz riscos logísticos e geopolíticos para o agronegócio brasileiro.

“Não existe uma troca intensa de minerais entre Brasil e Argentina. O que existe são dois grandes polos minerais oferecendo modelos distintos de desenvolvimento. Embora as bases geológicas de cada país sejam naturalmente distintas, a grande diferença na inserção global está na forma como cada um escolheu organizar sua política mineral”, finaliza Corrêa.