Quatro pessoas estão sentadas em torno de uma mesa de conferência, cada uma com microfones e garrafas de água, participando de um painel de discussão na Conferência de Bonn. As placas de identificação à frente delas exibem as inscrições “PRESIDENTE DA COP” e “SECRETÁRIO”. O fundo está suavemente iluminado.
Na Conferência de Bonn, Ana Toni, CEO da COP30, e André Corrêa do Lago, Presidente da COP30 (à direita) ao lado de representantes internacionais para questões climáticas (Foto: UN Climate Change | Lara Murillo)

Brasil lidera avanço para o fim dos combustíveis fósseis em Conferência de Bonn

Encontro marcado por falta de consenso entre países teve protagonismo brasileiro e agenda positiva para a mineração 

Por Mariana Sgarioni, 2 min de leitura

Publicado em 23/06/2026

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A Conferência de Bonn sobre Mudanças Climáticas (SB64), encerrada na semana passada, na Alemanha, terminou com uma série de frustrações para quem acompanha a agenda climática internacional. Financiamento, adaptação, mitigação e cooperação entre países ficaram marcados por impasses que agora serão transferidos para a COP31, na Turquia.

Porém, o encontro mais importante que prepara o terreno para a COP trouxe um aspecto interessante para a mineração: houve avanço concreto no desenvolvimento do chamado “Mapa do Caminho”. O termo ganhou destaque no cenário internacional após a Conferência do Clima de Belém (COP30), proposta pelo Brasil para eliminar gradualmente o uso de combustíveis fósseis.

Agora, em Bonn, o movimento foi liderado pelo presidente da COP30, o embaixador André Corrêa do Lago, em um processo que reuniu contribuições de 115 países e 247 atores não estatais. Isto deve resultar em um documento estratégico para orientar governos, empresas e investidores nos próximos anos.

O próprio embaixador declarou, em entrevista na Alemanha, que considerou a adesão “acima da esperada para uma iniciativa de apenas seis meses, uma vez que a crise geopolítica internacional escancarou a vulnerabilidade dos combustíveis fósseis”.

Segundo ele, o Mapa do Caminho não será um mecanismo engessado em que todos os países deverão cumprir normas rígidas. A proposta é que ele sirva como uma ferramenta adaptável às circunstâncias de cada país, com foco nos obstáculos concretos à transição, como: dependência fiscal do petróleo, acesso a financiamento, desenvolvimento industrial e proteção de trabalhadores e comunidades. 

Ponto positivo para a mineração

Para a mineração, esta evolução do “Mapa do Caminho” em Bonn reforça a agenda de substituição gradual de combustíveis fósseis por fontes renováveis de energia, o que exigirá uma expansão sem precedentes da produção de minerais críticos, como cobre, lítio, níquel, grafite, manganês e terras raras. Como se sabe, esses insumos são indispensáveis para baterias, veículos elétricos, parques eólicos, sistemas de armazenamento de energia e redes de transmissão.

Ao mesmo tempo, o documento poderá influenciar critérios internacionais de financiamento, padrões de sustentabilidade e exigências de rastreabilidade das cadeias produtivas. Em outras palavras: não basta produzir os minerais necessários para a transição energética. A pressão global é para que essa produção aconteça com menos emissões, gestão responsável da água, proteção da biodiversidade e mais transparência socioambiental.

Mapa interativo do Rm mostra a geopolítica dos minerais críticos

Falta de consenso em Bonn

Enquanto o Brasil comemorava o avanço do “Mapa do Caminho”, o encontro na Alemanha foi marcado pela falta de consenso entre países e um retrocesso histórico contra a ciência. “Uma verdadeira decepção para quem acompanha esta agenda”, como apontou Claudio Angelo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima. Foram bloqueadas, por exemplo, negociações sobre financiamento climático para mitigação e adaptação. Tudo adiado para a COP31.

Em uma jogada quase de xadrez, o embaixador André Corrêa do Lago conseguiu correr por fora para seguir em frente com o documento brasileiro mesmo em meio a este fogo cruzado. "Este mapa do caminho será sobre a implementação de uma decisão já tomada, e ela pode vir de muitas formas: indivíduos, empresas, grupos de países", disse ele em coletiva de imprensa em Bonn. "A grande vantagem da implementação é que temos muito mais liberdade para implementar do que para negociar. A negociação exige consenso; a implementação não exige consenso", completou.

De todo modo, o que ficou pendente em Bonn seguirá para a COP31. Mas, para a mineração, a discussão já começa a mudar de patamar, a tal ponto que a questão não é mais se haverá demanda por minerais da transição energética, mas sim quais países e empresas estarão preparados para fornecê-los dentro dos padrões ambientais e climáticos desenhados nas negociações internacionais.

Dúvidas mais comuns

O Mapa do Caminho é um documento estratégico desenvolvido pelo Brasil para orientar a eliminação gradual de combustíveis fósseis. Proposto na Conferência do Clima de Belém (COP30) e avançado na Conferência de Bonn (SB64), o documento reúne contribuições de 115 países e 247 atores não estatais. Diferentemente de mecanismos rígidos, o Mapa funciona como uma ferramenta adaptável às circunstâncias de cada país, considerando obstáculos concretos como dependência fiscal do petróleo, acesso a financiamento, desenvolvimento industrial e proteção de trabalhadores.

A transição energética de combustíveis fósseis para fontes renováveis exigirá uma expansão sem precedentes da produção de minerais críticos como cobre, lítio, níquel, grafite, manganês e terras raras. Esses insumos são indispensáveis para baterias, veículos elétricos, parques eólicos, sistemas de armazenamento de energia e redes de transmissão. Para a mineração, isso representa uma oportunidade significativa, mas também impõe pressão global para que a produção aconteça com menos emissões, gestão responsável da água, proteção da biodiversidade e maior transparência socioambiental.

Combustíveis de transição energética incluem o etanol, biodiesel, biogás e hidrogênio verde, que apresentam características de neutralidade ou baixa intensidade de carbono. Esses combustíveis servem como ponte entre o uso atual de combustíveis fósseis e a adoção completa de fontes renováveis de energia, permitindo uma transição gradual e menos disruptiva para a economia global.

Os três principais combustíveis fósseis usados em larga escala são o carvão mineral, o petróleo e o gás natural. Esses combustíveis não renováveis, juntamente com o betume e o xisto, fornecem aproximadamente 80% da energia consumida no mundo inteiro, apesar de seus impactos ambientais significativos.

O embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, utilizou uma estratégia de implementação em vez de negociação. Como a implementação de decisões já tomadas não exige consenso entre todos os países, foi possível prosseguir com o documento mesmo durante os impasses sobre financiamento climático e adaptação. Essa abordagem permitiu que o Brasil mantivesse o avanço da agenda de transição energética enquanto outras negociações ficavam bloqueadas.

O Mapa do Caminho reconhece que a transição energética enfrenta obstáculos concretos específicos de cada país, incluindo dependência fiscal do petróleo, acesso limitado a financiamento, necessidade de desenvolvimento industrial e proteção de trabalhadores e comunidades afetadas. O documento propõe soluções adaptáveis que considerem essas realidades locais, em vez de impor normas rígidas uniformes a todos os países.

Após Bonn, a discussão sobre mineração mudou de patamar: a questão não é mais se haverá demanda por minerais da transição energética, mas sim quais países e empresas estarão preparados para fornecê-los dentro dos padrões ambientais e climáticos estabelecidos nas negociações internacionais. Isso significa que a competitividade futura dependerá da capacidade de produzir minerais críticos com sustentabilidade comprovada.

A Conferência de Bonn foi marcada por falta de consenso entre países e retrocessos em várias frentes, com bloqueios em negociações sobre financiamento climático para mitigação e adaptação. Porém, o aspecto positivo foi o avanço concreto do Mapa do Caminho brasileiro para eliminação gradual de combustíveis fósseis, que será implementado com contribuições de 115 países e 247 atores não estatais, servindo como base para discussões futuras na COP31.