A transição energética, a eletrificação da economia e o avanço da digitalização estão abrindo uma janela para o Brasil transformar sua riqueza mineral em uma nova frente de crescimento econômico. Para isso, porém, o país terá de acelerar projetos, ampliar o conhecimento geológico, investir em infraestrutura e criar condições para que os recursos extraídos no país alimentem cadeias produtivas de maior valor agregado.
O tema foi debatido nesta terça-feira (18), em Brasília, durante o Fórum Destravando o Potencial da Mineração no Brasil, que reuniu representantes da Vale, do BNDES e do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). No evento, a Vale apresentou a proposta que deu nome ao encontro, desenvolvida em parceria com a Accenture.
Para o presidente da Vale, Gustavo Pimenta, a escala dessa oportunidade exige que o Brasil volte a pensar grande.
As grandes macrotendências do mundo, como digitalização e carros elétricos, vão demandar um enorme crescimento do potencial e da oferta dos minerais críticos. E a gente olha para o Brasil e vê um potencial muito grande nisso”
Segundo ele, isto explica por quê a mineração pode assumir um papel mais relevante no desenvolvimento econômico brasileiro. “A mineração tem um potencial muito grande de gerar crescimento econômico, gerar melhoria na condição de vida dos brasileiros, ajudar a resolver o equilíbrio fiscal, reduzir taxa de juros e aumentar o PIB potencial.”
Minerais críticos colocam Brasil diante de nova corrida global
O pano de fundo é uma mudança estrutural na demanda mundial por matérias-primas. Veículos elétricos, redes de energia, armazenamento em baterias, data centers e outras tecnologias ligadas à transição energética e à economia digital exigem volumes crescentes de minerais.
Nesse cenário, o Brasil reúne reservas, conhecimento técnico e uma indústria estabelecida, mas ainda precisa transformar essas vantagens em produção e desenvolvimento de novas cadeias.
Pimenta chamou atenção para a diferença entre o peso da mineração na economia brasileira e em outros grandes países mineradores.
“Se a gente olhar o PIB australiano, 14% vem da mineração. Vamos ao Chile, não muito distante, e a contribuição da mineração ao PIB é de 12%. A nossa é de 4%. Temos, portanto, um potencial de expansão muito grande do ponto de vista de novos projetos.”
O presidente da Vale defendeu, nesse contexto, a retomada de grandes empreendimentos minerais: “A gente precisa voltar a abraçar os megaprojetos no Brasil. Temos oportunidades na casa de 20 bilhões de dólares e precisamos fazê-las, pois temos conhecimento técnico para isso.”
Para Pimenta, infraestrutura já instalada, como ferrovias e portos, pode reduzir algumas das barreiras enfrentadas por novos projetos minerais.
“Você tem que ser muito resiliente. E tem que ter todo um processo de apoio para o desenvolvimento desses projetos, que são complexos. O fato de já termos uma infraestrutura instalada, dá ao Brasil, e à Vale, uma enorme vantagem competitiva.”
O desafio também é de tempo. Segundo Pimeta, projetos de mineração podem levar cerca de 15 anos entre a exploração e a entrada em operação.
BNDES quer ampliar financiamento à mineração
O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, afirmou que o banco pretende reconstruir uma relação estratégica com o setor mineral e com a Vale.
“O Banco está em um momento de expansão, de investimento, de crédito e de reconstruir pontes estratégicas. Uma delas é com a Vale”, disse.
Mercadante defendeu que o país utilize sua base mineral não apenas para ampliar exportações, como também para desenvolver novas cadeias industriais.
Minério não é só importante para o balanço comercial. É uma vantagem competitiva para agregar valor, industrializar o país e avançar em uma neoindustrialização.”
O presidente do BNDES citou que especialmente cobre, lítio e terras raras merecem atenção. No caso do cobre, ele destacou a distância entre as reservas brasileiras e a participação do país na produção.
“Nós temos 8,7% dessa reserva e estamos produzindo 1,7%. Então, nós temos que entrar [mais] em cobre. E temos que olhar terras raras.”
Mercadante também defendeu que a estratégia vá além da extração dos minerais e avance sobre etapas industriais da transição energética.
“Nós não temos que produzir só minerais. Nós precisamos produzir também as baterias [por exemplo]. É isso que vai gerar valor agregado.”
Segundo ele, há demanda concreta por financiamento. Em uma chamada do BNDES, foram selecionados 56 projetos, com demanda de crédito de R$ 57 bilhões. Doze estavam em estágio avançado de negociação, somando R$ 9 bilhões.
“Há muito projeto de qualidade para os principais minerais críticos. Então, eu estou otimista em relação a essa agenda”, disse Mercadante.
Minério de alto teor ganha valor com descarbonização do aço
Além dos minerais críticos, o minério de ferro de alto teor aparece como uma vantagem estratégica brasileira em um cenário de descarbonização da siderurgia. Mercadante afirmou que esse produto pode ajudar o Brasil a se reposicionar diante das mudanças no mercado mundial.
“O que eu acho que do minério de ferro é a alternativa do Brasil? É o minério de ferro de alto teor. É isso que nós vamos nos reposicionar. Só nós temos esse minério disponível em volume, com impacto em descarbonização da siderurgia em 50%.”
Pimenta, da Vale, também destacou a qualidade das reservas brasileiras, especialmente em Carajás (PA), e a capacidade logística construída pela Vale.
“A gente, na Vale, principalmente em Carajás, tem a possibilidade de produzir minério de altíssimo teor. Então nós somos o corretor do sistema. Efetivamente, a Vale hoje corrige o minério de ferro do mundo.”
Segundo ele, essa posição é sustentada por uma estrutura que inclui minas, ferrovias, portos, centros de blendagem, concentração e pelotização, além do desenvolvimento de produtos como briquetes.
“O minério de ferro sem logística não vale nada. O grande desafio da indústria pelo mundo é o desenvolvimento dessas cadeias logísticas eficientes”, disse Pimenta.
A descarbonização da siderurgia deve aumentar a integração entre mineradoras e clientes, acrescentou o presidente da Vale. Hoje, lembrou, a indústria siderúrgica responde por entre 8% e 9% das emissões globais.
“A gente vê um futuro onde o aço vai ser verde. Isso vai ser no seu tempo, mas vamos chegar lá.”
Licenciamento e competitividade
Se existe uma janela de oportunidade, existe também uma corrida contra o relógio.
Rodolfo Eschenbach, CEO da Accenture, apontou o licenciamento como uma das questões mais urgentes para que o país consiga colocar novos projetos em operação a tempo de atender à expansão da demanda mundial.
O licenciamento rigoroso e rápido é a coisa mais fundamental. Porque a gente está falando das demandas de carros elétricos já em 2030-2035. É pouco tempo.”
Para Eschenbach, experiências de países como Austrália, Canadá e Chile mostram a importância da coordenação entre poder público e iniciativa privada nessa empreitada.
Pablo Cesário, presidente do Ibram, também defendeu um processo rigoroso, mas com regras claras, recursos adequados e maior velocidade.
“O que a gente precisa é fazer mais rápido, colocar mais recursos, garantir padronização”, disse. Mais adiante, reforçou: “Não tem nenhuma vírgula de flexibilização [solicitada pelo setor sobre licenciamento ambiental], mas tem que ser claro, tem que ser rápido, tem que ter os recursos.”
Apenas 28% do território tem mapeamento geológico
Outro gargalo é o conhecimento sobre o próprio subsolo brasileiro. Cesário afirmou que apenas 28% do território está mapeado geologicamente, proporção muito inferior à observada em economias minerais como Austrália e Canadá, cujos índices superam 90%.
O presidente do Ibram concluiu que o Brasil precisa discutir novas formas de financiar a produção de conhecimento geológico, tradicionalmente realizada pelo estado:
A pergunta que nós temos agora é: ‘como ter uma institucionalidade que permita ao Brasil e ao setor privado investir também em conhecimento geológico e, assim, gerar prosperidade para as pessoas?”
* Especial para o Radar Mineração.