Mina do Pico: retomadora em operação no pátio do TFA, descarregando material a granel sobre correias e trilhos, com pilhas de minério e céu azul
Retomadora em operação no pátio do TFA ( Terminal Ferroviário de Andaimes) (Foto: Leo Lopes)

Dez fatos para entender a cadeia de suprimentos de terras raras

Concentração da produção e do refino em poucos países cria vulnerabilidades que vão além da mineração e alcançam a química industrial

Por Nelson Valencio, 4 min de leitura

Publicado em 01/07/2026

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Apesar da importância das terras raras, a infraestrutura global que sustenta a extração e o processamento desses minerais está concentrada em poucos países. O maior gargalo, segundo especialistas, reside na separação química e no refino. O Radar Mineração preparou este miniguia, disposto em dez tópicos que explicam a complexidade da cadeia de suprimentos do segmento.

O texto a seguir tem base em dois materiais: o levantamento Where refineries could actually break, da Rare Earth Exchanges, e a análise Rare earth supply bottlenecks set to persist in 2026, da S&P Global.

  1. Dependência da China

O suprimento de terras raras tornou-se um dos principais focos de tensão geopolítica, caracterizada pelo domínio de um único país e pelos esforços contínuos de outras nações para diversificar suas fontes de abastecimento. 

A dependência global em relação à China não é apenas uma questão de reservas naturais, mas de uma infraestrutura industrial construída ao longo de décadas. 

Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), a China foi responsável por 61% de toda a oferta global de mineração de terras raras e por 91% da capacidade global de refino e processamento desses elementos em 2024. Esse controle permite que o país dite as regras do mercado global.

  1. Gargalo severo nas terras raras pesadas

Dentro do universo das terras raras, a maior pressão encontra-se nas terras raras pesadas (HREEs), que inclui elementos como o térbio e o disprósio. Eles são fundamentais para a fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho, capazes de operar em altas temperaturas. Por isso, se tornaram vitais para robótica, componentes aeroespaciais, defesa e data centers de inteligência artificial. 

Ímãs menos potentes, como os usados em refrigeradores, dependem de terras raras leves (como neodímio e lantânio) e não sofrem a mesma pressão. Especialistas afirmam que o mercado fora da China enfrentará gargalos substanciais de HREEs ao longo de 2026 e 2027, já que as capacidades alternativas de fornecimento ainda estão em construção.

  1. Controles de exportação

Em abril de 2025, a China implementou um rigoroso regime de licenciamento para limitar exportações destinadas a setores militares e de alta tecnologia. Embora algumas restrições tenham sido relaxadas em julho de 2025, o início de 2026 foi marcado por novos controles severos visando itens de “uso duplo” — produtos aplicáveis tanto no setor civil quanto no militar — com foco especial no Japão. 

Os dados alfandegários mostram que, embora as exportações totais de ímãs tenham se recuperado em dezembro de 2025, os volumes de compostos vitais e controlados caíram para níveis abaixo das médias históricas, reduzindo o fornecimento de materiais cruciais.

  1. Papel do Japão na fabricação de ímãs

O impacto das restrições chinesas é global porque atinge diretamente o Japão, um elo crítico na cadeia de valor. O país é responsável por cerca de 15% da fabricação global de ligas e ímãs permanentes de terras raras avançadas, ocupando a segunda posição mundial, atrás apenas da própria China. 

Se o Japão for incapaz de importar os elementos necessários, o choque afetará todas as empresas da cadeia de suprimentos global. O país é um dos poucos com capacidade para produzir esses ímãs de alta tecnologia fora do território chinês, tornando-o um alvo estratégico nas restrições comerciais.

  1. Disparidade de custos

Competir com a China em custos é quase impossível no cenário atual. Os compostos refinados de terras raras produzidos no país chegam a ser de cinco a seis vezes mais baratos do que os produzidos no Ocidente. 

Para viabilizar a produção alternativa, a indústria pressiona pela criação de novos índices de referência de preços na Europa e na América do Norte. Esses novos índices refletiriam nas curvas de custo para materiais produzidos fora da China e estabeleceriam os preços de incentivo necessários para desenvolver novos projetos de mineração e fabricação no Ocidente. 

Sem essa disposição para pagar prêmios por um fornecimento seguro e qualificado, a dependência tende a persistir.

  1. Refino é o coração do processo

A etapa mais crítica da cadeia de valor das terras raras não é retirar o minério do solo, mas sim o refiná-lo. A verdadeira fragilidade do setor encontra-se dentro das plantas de extração por solvente (SX), onde 17 elementos quimicamente muito semelhantes precisam ser separados. Esse processo não requer apenas infraestrutura pesada, como também envolve centenas de estágios individuais e delicados de separação. 

A extração por solvente é um sistema inteiramente dependente de reagentes, onde qualquer alteração nos ácidos, extratantes (compostos químicos usados em processos de extração) e sais pode desestabilizar todo o fluxo de trabalho, afetando a pureza do produto, os resíduos e a viabilidade econômica.

  1. Dependência de extratantes

No centro das refinarias, certos produtos químicos agem como a lógica do processo. Extratantes específicos, conhecidos industrialmente como D2EHPA (P204) e HEHEHP (P507), são fundamentais para a separação comercial das terras raras. Eles não são insumos comuns, que podem ser trocados ou substituídos facilmente. Tentar usar substâncias alternativas arrisca a instabilidade do processo ao longo das centenas de estágios de extração. A disponibilidade global de outros produtos químicos não se traduz em confiabilidade industrial, pois o gargalo real está na qualificação desses compostos para uso contínuo.

  1. Vulnerabilidade sistêmica

Além dos extratantes avançados, a cadeia de refino depende maciçamente de produtos químicos considerados básicos ou a granel, onde a China também detém um monopólio prático devido à escala. Por exemplo, o ácido oxálico é usado em estágios de precipitação ao longo dos fluxos de refino, e a China exportou cerca de 298 milhões de quilos desse produto em 2023. Da mesma forma, o cloreto de amônio, vital para o controle de impurezas, registrou exportações chinesas de aproximadamente 966 milhões de quilos no mesmo ano. A concentração das exportações globais em torno dessas substâncias de baixo custo cria uma vulnerabilidade imensa, muito além das operações de mineração.

  1. Química como instrumento geopolítico

Os governos entenderam que controlar a química é controlar o mercado. Em outubro de 2025, os mecanismos de exportação da China foram expandidos para incluir explicitamente extratantes e reagentes de flotação, indicando diretamente o P204 e o P507. Quando o governo nomeia moléculas específicas em controles de exportação, a química deixa de ser apenas teoria técnica e passa a ser alavancagem administrativa e operacional. 

A eficácia desse controle é tão aguda que a União Europeia teve de criar um canal dedicado com a China para priorizar aprovações de licenciamento para suas indústrias, o que constituiu uma admissão clara de que o licenciamento de produtos químicos se tornou uma variável crítica da cadeia de suprimentos.

  1. Desafio de reconstruir um ecossistema químico

Não basta abrir novas minas de terras raras — é preciso reconstruir ecossistemas químicos inteiros. Atualmente, mais de 90% da capacidade de refino continua controlada por um punhado de países, primariamente a China, e os projetos ocidentais de processamento intermediário permanecem em estágios incipientes. 

Para reduzir essa dependência, seria importante aumentar a produção local de extratantes e reagentes, com estoques estratégicos dimensionados para mitigar riscos de instabilidade, e adotar processos de licenciamento mais rápidos para fábricas de produtos químicos e gestão de resíduos.

Dúvidas mais comuns

A China controla 61% da oferta global de mineração de terras raras e 91% da capacidade global de refino e processamento. Esse domínio não se deve apenas às reservas naturais, mas a uma infraestrutura industrial construída ao longo de décadas, que permite ao país ditar as regras do mercado global e manter custos de produção significativamente mais baixos que o Ocidente.

Terras raras pesadas (HREEs) incluem elementos como térbio e disprósio, fundamentais para fabricar ímãs permanentes de alto desempenho capazes de operar em altas temperaturas. São vitais para robótica, componentes aeroespaciais, defesa e data centers de inteligência artificial, enfrentando gargalos severos de fornecimento fora da China em 2026 e 2027.

O refino é o coração do processo, não a extração do minério. A verdadeira fragilidade reside nas plantas de extração por solvente (SX), onde 17 elementos quimicamente semelhantes precisam ser separados através de centenas de estágios delicados. Qualquer alteração nos ácidos, extratantes e sais pode desestabilizar todo o fluxo de trabalho e afetar a pureza do produto.

Extratantes específicos, como D2EHPA (P204) e HEHEHP (P507), são produtos químicos fundamentais para a separação comercial das terras raras. Não são insumos comuns que podem ser facilmente substituídos; tentar usar substâncias alternativas arrisca a instabilidade do processo ao longo das centenas de estágios de extração, tornando-os críticos para toda a cadeia.

Em outubro de 2025, a China expandiu seus mecanismos de exportação para incluir explicitamente extratantes e reagentes de flotação, nomeando diretamente o P204 e P507. Quando governos nomeiam moléculas específicas em controles de exportação, a química deixa de ser apenas teoria técnica e passa a ser alavancagem administrativa e operacional, como demonstrado pela União Europeia ao criar um canal dedicado com a China para priorizar aprovações de licenciamento.

O Japão é responsável por cerca de 15% da fabricação global de ligas e ímãs permanentes de terras raras avançadas, ocupando a segunda posição mundial. Se o país for incapaz de importar os elementos necessários devido às restrições chinesas, o choque afetará todas as empresas da cadeia de suprimentos global, tornando-o um alvo estratégico nas restrições comerciais.

Os compostos refinados de terras raras produzidos na China chegam a ser de cinco a seis vezes mais baratos que os produzidos no Ocidente. Para viabilizar a produção alternativa, a indústria pressiona pela criação de novos índices de referência de preços na Europa e América do Norte que estabeleçam os prêmios necessários para desenvolver novos projetos de mineração e fabricação fora da China.

Não basta abrir novas minas — é preciso reconstruir ecossistemas químicos inteiros. Mais de 90% da capacidade de refino continua controlada pela China, e os projetos ocidentais de processamento intermediário permanecem em estágios incipientes. Seria necessário aumentar a produção local de extratantes e reagentes, criar estoques estratégicos e adotar processos de licenciamento mais rápidos para fábricas de produtos químicos e gestão de resíduos.