Fernando Landgraf, professor da USP
Fernando Landgraf (Foto: Divulgação/ Instituto de Estudos Avançados/ USP)

Capital nacional é o “grande ausente” na cadeia brasileira de terras raras, afirma professor da USP

Com custo de 300 a 500 milhões de dólares, grupos econômicos brasileiros teriam condições de assumir projetos de plantas de refino

Por Nelson Valencio, 3 min de leitura

Publicado em 19/08/2026

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Especialista em terras raras, o professor Fernando Landgraf, da Universidade de São Paulo (USP), argumenta ao Radar Mineração que a ausência de capital privado nacional é um dos gargalos para o desenvolvimento de uma cadeia de valor genuinamente brasileira. “É o que especialistas chamam de o grande ausente”, resume.

Ex-coordenador do INCT Terras Raras entre 2018 e 2025 – a rede de pesquisa nacional sobre esse grupo de minerais – Landgraf também foi presidente do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), envolvido com estudos de terras raras no país.

Para ele, apesar de o investimento necessário para uma planta de refino nacional para fabricação de ímãs permanentes não ser considerado absurdo para os padrões do setor – custa entre US$ 300 milhões e US$ 500 milhões – o empresariado brasileiro não tem se mobilizado para investir nesse mercado.

As iniciativas do governo federal para mitigar riscos e incentivar os investidores locais, incluindo os esforços do BNDES, são passos importantes nessa busca, mas ainda insuficientes para atrair o capital nacional também, segundo Landgraf.

“O grande desafio para viabilizar esses aportes não é apenas o montante financeiro, mas sim o risco associado às incertezas sobre como a demanda por esses elementos, caso do óxido de neodímio, vai evoluir internacionalmente nos próximos anos”, argumenta.

EUA quer construir cadeia de terras raras

Enquanto os empresários locais não mostram uma mobilização maior, o pesquisador da USP lembra que o Brasil se destaca por ser um dos únicos países do mundo que não possui uma legislação ou mecanismo governamental para avaliar e vetar a aquisição de empresas estratégicas nacionais por capital estrangeiro.

Isso significa que os ativos e projetos brasileiros de terras raras estão expostos a aquisições integrais por players internacionais.

Unidade de processamento da Serra Verde, em Minaçu (GO), especializada na extração e beneficiamento de terras raras.
Unidade de processamento da mineradora Serra Verde, em Minaçu (GO), especializada na extração e beneficiamento de terras raras | Foto: Divulgação/ Serra Verde

Landgraf compara que tanto os Estados Unidos como Canadá e Austrália possuem mecanismos de proteção de seus ativos estratégicos.

O especialista lembra ainda que o mercado global de terras raras está passando por uma reconstrução estrutural profunda. As mudanças buscam contrabalançar o controle da China, que atualmente faz a mineração de cerca de 60% das terras raras e domina entre 90% e 92% do refino global. Os chineses responderiam ainda por 95% da fabricação dos ímãs permanentes.

Para contrapor essa dependência, o governo americano tem investido em todas as etapas dessa cadeia, desde a mineração até a fabricação de imãs, passando pelo refino. “Estão provocando uma reorganização desse mercado no mundo”, sintetiza.

Nessa reorganização, o Brasil desponta como um parceiro estratégico, mas com abordagens distintas por parte dos Estados Unidos e da Europa.

Para Landgraf, o foco americano tem sido garantir o fornecimento de recursos. Um exemplo é a injeção de capital na empresa USA Rare Earths, que adquiriu o controle da mineradora Serra Verde, em Goiás, mantendo o grupo Denham Capital como operador.

Acordo com sul-coreanos para projeto fluminense 

O pesquisador avalia que a parceria com os americanos não prevê a instalação de plantas de separação química (refino) em território brasileiro, diferente das sinalizações dos países europeus. 

Segundo ele, a Europa tem avançado mais lentamente, mas busca integrar a cadeia por meio de múltiplos acordos de compra garantida (offtake) com promessas de minerações futuras no Brasil.

“O diferencial europeu é que eles têm demonstrado interesse em parcerias que incluam o refino e a separação dos minerais no próprio Brasil”, diz.

Dos projetos atuais, o país possui apenas uma mineradora operacional, a citada Serra Verde, localizada em Goiás e sob controle acionário americano, enquanto outras iniciativas avançadas estão em fase de licenciamento, com estimativa de iniciar a produção em 2028.

Embora o foco de exploração desses projetos sejam os depósitos de argilas iônicas, Landgraf lembra que existe a possibilidade de ativação de empreendimentos com depósitos cristalinos, em especial uma operação com monazita no estado do Rio de Janeiro, que estaria na mira de um acordo entre a INB (Indústria Nucleares do Brasil) e um grupo sul-coreano.