Eduardo Orban, o novo CEO da Mineração Morro do Ipê, estima que a companhia atinja um volume de 5 milhões de toneladas em produtos de alto valor agregado de minério de ferro até o fim deste ano. Esse volume inclui pellet feed e sinter feed, inclusive a partir de reaproveitamento de rejeitos.
Em conversa com o Radar Mineração, o executivo destaca pontos estratégicos da companhia para entregar essa produção com qualidade, combinando ainda iniciativas de mineração circular que podem ser replicadas na indústria mineral.

Antes do cargo atual – ocupado há dois meses e meio – Orban esteve oito anos na Mineração Taboca, parte deles também como CEO. Além disso, teve passagens pela Vale, Rio Tinto-Alcan, MMX, Anglo American e CSN Mineração, além de experiência internacional em consultoria voltada à melhoria de resultados.
Acompanhe os principais trechos da entrevista.
Pode nos falar sobre sua experiência anterior à Morro do Ipê?
Comecei na Vale, em Carajás, onde atuei por quatro anos com minério de ferro. Depois, fui para o exterior atuar na Rio Tinto-Alcan e passei uma temporada na França e na Austrália, trabalhando com bauxita. Voltei ao Brasil para o projeto Minas-Rio, da MMX e depois Anglo American. Fiquei lá por quatro anos, novamente com minério de ferro. Em seguida fui para a CSN Mineração, na Casa de Pedra, onde fiquei por mais quatro anos. Saí da mineração por um tempo para atuar em uma consultoria australiana chamada Partners in Performance, focada em melhoria de resultados, onde realizei projetos no setor, inclusive retornando a Carajás.
Depois teve a sua trajetória na Taboca?
Exato. Depois disso, passei oito anos na Mineração Taboca, que tem um modelo verticalizado e produz estanho metálico e ligas de ferro-nióbio e ferro-tântalo. São mercados de nicho e de alto valor agregado. Fui presidente da Taboca nos últimos dois anos e ajudei a concluir a venda do ativo para um grupo estatal chinês. Agora, há cerca de dois meses e meio, juntei-me à Morro do Ipê. É um retorno ao minério de ferro. Pode-se falar muito sobre minerais críticos e estratégicos, mas para o Brasil, nada é mais crítico e estratégico do que o minério de ferro, tanto pelos nossos volumes e representatividade, quanto pela riqueza e vida útil das nossas reservas.
Como você enxerga a operação da Morro do Ipê hoje, considerando expansão, tendências de produtos com maior valor agregado e sustentabilidade?
A Morro do Ipê possui ativos entre os municípios de Brumadinho, Igarapé e São Joaquim de Bicas (MG). A nossa mina em si não possui um teor de minério de ferro naturalmente alto, mas o nosso produto final é de altíssima qualidade: hoje produzimos um pellet feed com 65% de teor de ferro e baixos teores de contaminantes. Busca-se muito a mineração verde, o que significa maximizar os teores e minimizar contaminantes, pois isso exige menos redutores e aumenta a produtividade dos altos-fornos, demandando menos emissão de carbono na siderurgia. Acredito que, no longo prazo, o mercado será carbono neutro muito mais por compensação do que por não emissão, mas a nossa parte é entregar um produto que beneficie a cadeia produtiva.
Também há a questão de rejeitos…
Sim. Outro ponto fundamental em que estamos muito avançados é a disposição de rejeitos. Hoje, 100% da destinação dos nossos resíduos é feita via empilhamento a seco (dry stacking). Nós não fazemos mais uso de barragens. As três barragens que possuímos já estão em processo de descomissionamento. O empilhamento a seco é um processo de menor risco.
A Agência Nacional de Mineração (ANM) já está se organizando para trazer a mesma governança e boas práticas de gestão de barragens para as pilhas, exigindo engenheiro de registro e controles geotécnicos, porque as pilhas também têm riscos. Porém, a zona de influência em caso de acidente é infinitamente menor. Tudo isso, aliado à digitalização para otimizar insumos e energia, traz uma pegada muito mais verde para a operação.
Vocês já têm bastante experiência com empilhamento a seco. Costumam trocar essa expertise com outras mineradoras?
Trocamos. Quando eu estava na Taboca, começamos um projeto de empilhamento a seco e sempre tivemos muito próximos da ANM já pensando em avanços no modelo de governança para as pilhas tal qual já temos para barragens. Na Morro do Ipê, nós frequentemente recebemos visitantes. No próximo mês, por exemplo, receberemos uma comitiva da ArcelorMittal com profissionais internacionais interessados em ver como estamos tratando o empilhamento a seco. No entanto, acredito que a mineração no Brasil ainda não é tão unida quanto deveria. O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) tem feito um trabalho muito bom para aproximar a indústria e os executivos, mas ainda temos um espaço enorme para colaborar. Acredito que existe pouca tecnologia no setor que demande medo de “roubo de propriedade intelectual” e ganharíamos muito com essa aproximação.
Ainda sobre rejeitos, está no radar da Morro do Ipê o reaproveitamento deles para produção de minério de ferro?
Não está apenas no radar. É uma realidade. Como mencionei, temos três barragens antigas em descomissionamento. O minério contido em duas delas está sendo processado, transformado em produto e comercializado. É o conceito de circularidade na prática e isso ajuda a reduzir o volume de resíduos no ambiente. Isso faz total sentido financeiramente.
O valor do minério de ferro subiu muito nas últimas décadas: quando entrei na Vale, a tonelada custava pouco mais de US$ 10. Hoje, está entre US$ 100 e US$ 110, e já tivemos picos de mais de US$ 200. Esse aumento de preço e o barateamento da tecnologia tornaram economicamente viável reprocessar aquele material antigo, cujo teor não justificava a produção no passado. Todo mundo sai ganhando: a empresa gera receita e, ao mesmo tempo, diminui o passivo ambiental total.
Como estão os planos de expansão da Morro do Ipê?

Hoje já produzimos cerca de 3,5 milhões de toneladas de pellet feed. Somando o advento desse minério proveniente do descomissionamento das barragens, devemos adicionar cerca de 1,3 milhão de toneladas de sinter feed em 2026. Ou seja, já estamos encostando em 5 milhões de toneladas, no total. Estamos aprofundando os estudos em alguns projetos. Isso porque teremos uma transição em breve: sairemos do minério friável e passaremos a lavrar minério compacto. Estamos revisitando as opções para garantir o melhor equilíbrio de capex (despesa de capital) e preparando a planta desde já para essa transição, de forma que, quando operarmos 100% com minério compacto, as intervenções financeiras sejam menores. Até o final de 2027, teremos um plano muito robusto sobre o futuro da Morro do Ipê.
Ao revisitar esses projetos, vocês estão avaliando novas tecnologias de processamento e, também, o consumo energético?
Sem dúvida. O processo de cominuição, que inclui britagem e moagem, consome muita energia. No lugar da tradicional britagem primária, secundária, terciária e quaternária, estamos estudando alternativas que ainda são pouco difundidas no Brasil, como o uso de moinho SAG ou prensa de rolos, muito comuns na Austrália e Canadá.
Sobre energia limpa, estamos conversando com provedores de matrizes renováveis, como a solar. Ainda não definimos se seremos investidores de geração própria, mas é certo que avaliaremos as opções de fornecimento para melhorar a medição da nossa pegada de carbono (escopo 2 do GHG Protocol). Além disso, modernizar motores e equipamentos antigos já traz enormes ganhos de eficiência.
Vale destacar um ponto que nos dá muito orgulho: a Morro do Ipê recircula e reaproveita mais de 90% da água utilizada em seus processos. Isso reduz significativamente a captação de água nova e economiza muita energia, pois gastamos menos com bombeando de água de locais distantes.
Para encerrarmos, quais temas macro a mineração deveria discutir mais abertamente com a sociedade?
Precisamos estar mais abertos a ouvir e falar. A mineração é tão essencial que basta imaginar que um mundo sem minerais significaria voltarmos à idade da pedra: sem carros, celulares, casas ou aviões. Porém, a sociedade está distante das cadeias produtivas. O consumidor compra um iPhone ou uma geladeira e associa aquilo à marca final. Ele não faz ideia de que o minério de ferro ou outros minerais presentes nesse dispositivo vieram de operações como as nossas. Essa distância contribui para o estigma de que a “mineração é vilã”. Existe também uma confusão enorme entre a mineração industrial e o garimpo ilegal, que atrapalha a nossa imagem.
Além disso, o setor precisa evoluir na forma como comunicamos o nosso papel. O maior desafio da mineração hoje é romper esse paradigma com transparência, diálogo e mostrando, de forma clara, os impactos positivos que a atividade gera para a sociedade e para o desenvolvimento dos territórios. Só assim a mineração deixará de ser vista apenas pelos seus desafios e passará a ser reconhecida e desejada pela sociedade como uma atividade essencial para a qualidade de vida, a transição energética e o desenvolvimento econômico.
Glossário de termos usados nesta matéria
Pellet feed
Pellet feed é um minério de ferro formado por partículas muito finas que passam por um processo de aglomeração para a produção de pelotas usadas na siderurgia. O material tem maior concentração de ferro e menor teor de impurezas, o que contribui para a redução de emissões de carbono na produção de aço.
Teor de minério
Concentração do mineral ou elemento de interesse presente no minério bruto. Expresso geralmente em porcentagem ou gramas por tonelada, determina a viabilidade econômica da lavra. Teores mais altos reduzem custos de processamento e aumentam rentabilidade. Varia conforme tipo de minério e é fundamental para cálculo de reservas e planejamento da mina.
Descaracterização de barragem
É exigido por lei para barragens construídas pelo método a montante. Visa a eliminar definitivamente a função de contenção de uma barragem de rejeitos ou resíduos, removendo ou estabilizando o material armazenado e eliminando riscos. Exige projeto técnico detalhado, monitoramento rigoroso durante execução, aprovação pela ANM e órgãos ambientais, além de manutenção pós-descaracterização para garantir estabilidade de longo prazo e eliminação definitiva do risco à população e meio ambiente.