BELO HORIZONTE – O Centro de Tecnologia Mineral (Cetem) e o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) lançaram recentemente o estudo “Estratégias para a Estruturação das Cadeias de Valor dos Minerais Críticos e Estratégicos no Brasil”, e aproveitaram a Exposibram 2026 para detalhar o trabalho. No geral, ele define oito cadeias prioritárias e apresenta uma metodologia para orientar políticas públicas conforme o nível de desenvolvimento e a relevância estratégica de cada mineral.
Alumínio (bauxita), cobre, elementos de terras raras, fosfato, grafita, lítio, nióbio e potássio estão entre as cadeias selecionadas. O estudo também apresenta medidas para ampliar a transformação mineral, a industrialização e a agregação de valor no país.
A proposta considera a característica brasileira de possuir cadeias minerais consolidadas, mas também dependente do exterior em etapas de processamento de minerais estratégicos.
O estudo cita como exemplos a posição dominante do país em nióbio, ferro e grafita e, em sentido oposto, a dependência de produtos refinados de terras raras.
Amaro Pereira, da Coppe/UFRJ, é um dos autores do estudo e apresentou na Exposibram estimativa de demanda de até 3 bilhões de toneladas de minerais críticos. Entre os minerais com maior perspectiva de crescimento, ele cita aumento de cinco vezes para o lítio, duas vezes para grafita e níquel, 1,6 vez para terras raras e uma vez para cobre.
Pereira também destacou que a transição energética já está incorporada a diferentes programas do governo: “O Brasil está atento e, na formulação das políticas públicas, tem sempre contemplada a transição energética”, afirmou.
O especialista citou o Novo PAC, o Plano de Transformação Ecológica, a Nova Indústria Brasil, o Plano Nacional de Transição Energética e o Plano Clima como modelos de políticas públicas que recebem investimentos significativos envolvendo a transição energética.
Metodologia própria
Uma das principais entregas do estudo é o Índice para Estratégia e Densidade Mineral (IEDM). A ferramenta cruza a Densidade Produtiva (DP), que mede o desenvolvimento da base produtiva brasileira, com a Relevância Estratégica (RE), relacionada à importância do mineral para reduzir vulnerabilidades nacionais. O índice é calculado pela média geométrica dos dois componentes: IEDM = √(DP × RE).
A Densidade Produtiva considera escala produtiva, estrutura concorrencial, integração da cadeia e robustez operacional. A Relevância Estratégica reúne criticidade do mineral, potencial estratégico nacional, importância para a transição energética e potencial tecnológico.
A metodologia resulta em quatro grupos: Críticos Prioritários, Estratégicos Emergentes, Dotação Nacional Consolidada e Monitoramento. A classificação permite diferenciar os minerais que precisam de políticas para formação de capacidade produtiva daqueles que já contam com uma base instalada e precisam avançar em consolidação, expansão ou internacionalização.
Na aplicação do índice, potássio, fosfato e grupo da platina aparecem como críticos prioritários. Cobre, nióbio, níquel e magnesita são classificados como estratégicos prioritários. Lítio, silício, terras raras e grafita aparecem como estratégicos emergentes. Ferro, alumínio e ouro estão entre as cadeias de dotação produtiva consolidada, enquanto urânio, molibdênio, tântalo e vanádio ficam em monitoramento.
Três frentes de política pública
As propostas do estudo são organizadas em três frentes: estratégica, tática e operacional. A divisão estabelece ações de longo, médio e curto prazo para estruturar as cadeias.
No eixo estratégico, o estudo propõe a elaboração da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), relacionada aos Projetos de Lei nº 2.780/2024 e nº 4.443/2025. Também recomenda alinhar a política mineral às metas da Nova Indústria Brasil (NIB) e elaborar planos de industrialização específicos para as cadeias prioritárias.
Entre as medidas estão ainda planos de desenvolvimento sustentável, zoneamento territorial para prevenção e mitigação de conflitos, revisão do Plano Nacional de Mineração (PNM), definição de responsabilidades entre governo, empresas e academia e mecanismos para atrair indústrias para diferentes etapas das cadeias de valor.
O eixo tático prevê a criação de uma Estratégia Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, com metas e prazos de industrialização. O documento também propõe princípios para uma Diplomacia Mineral, mecanismos de precificação de minerais verdes e uma plataforma para mineração urbana.
A lista inclui medidas mais específicas, como harmonização das regulamentações que incidem sobre as cadeias, planejamento coordenado de infraestrutura e uso da Lei do Bem para ampliar os investimentos empresariais em pesquisa e inovação.
Também estão previstas a implementação do Certificado Mineral de Baixo Carbono (CMBC) e a ampliação de linhas de financiamento por meio de Finep e BNDES, incluindo o FIP Minerais Estratégicos. O estudo recomenda ainda revisar periodicamente a lista de minerais críticos e estratégicos, estruturar um plano de financiamento e criar mecanismos de formação de demanda.
No eixo operacional, as medidas são voltadas à redução de vulnerabilidades específicas de cada cadeia, com ações em infraestrutura, transporte, energia, água e riscos socioambientais. O pacote inclui investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação, incentivos econômicos, digitalização, formação de mão de obra e proteção de territórios e saberes tradicionais.
Adensamento da cadeia
O adensamento das cadeias de valor é estratégica e considerada em quatro etapas: upstream, que reúne lavra e beneficiamento; midstream, com refino, metalurgia e produção de compostos intermediários; downstream, voltado à manufatura avançada; e recovery, relacionado à reciclagem e à economia circular.
O midstream é o principal gargalo brasileiro, especialmente pela capacidade limitada de refino químico e separação. A consequência é a exportação de minério sem a captura de etapas de maior valor agregado. O estudo estima que os empregos associados aos elos de maior valor da cadeia podem ser de dez a 20 vezes superiores aos da extração.
Para Júlio Nery, do Ibram, o debate sobre minerais críticos precisa estar associado a uma discussão mais ampla sobre a indústria brasileira. Ele resgatou uma afirmação de Wilson Brumer, ex-presidente do conselho do Ibram, de que o Brasil precisa de um “projeto de país, e não projetos de governos”.
Nery avalia que a indústria perdeu força no Brasil e que a retomada da atividade industrial é importante também para o mercado de trabalho. “A indústria é a base para ter bons empregos, salários, para demandar mão de obra de melhor qualidade e incentivar outros setores”, afirmou.
Nesse contexto, ele defende o avanço da industrialização tanto na mineração quanto em outras cadeias produtivas. “Precisamos avançar na cadeia de minerais críticos e estratégicos, sim. Na cadeia de agricultura, também. Temos de começar a refletir e ver o que estamos devendo em atração de indústria no país”, disse.
O estudo do Cetem com o Ibram utiliza as terras raras como exemplo dessa diferença entre dotação mineral e capacidade industrial. O Brasil possui grandes reservas, mas ainda tem exploração e beneficiamento incipientes e depende de produtos refinados importados para aplicações industriais.
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