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Clara palestra e Seminário sobre a Amazônia, Curitiba, abril de 1971.
Foto: Projeto Clara Pandolfo / Divulgação

Clara Pandolfo, a cientista que pensou a Amazônia como política pública

Pioneira na ciência amazônica, a paraense contribuiu para a mineração na Amazônia e defendeu o manejo sustentável da floresta 

Por Hélvio Macellane *, 5 min de leitura

Publicado em 10/11/2025 | Atualizado em 12/11/2025

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  • Clara Pandolfo foi a primeira química da Amazônia e pioneira em formular políticas públicas de desenvolvimento sustentável regional, atuando como diretora de Recursos Naturais da Sudam por mais de duas décadas.
  • Seu estudo de 1954 mapeou 30 minerais amazônicos e serviu como base para o financiamento do mapeamento aéreo de Carajás, além de ter proposto o uso de satélites para monitoramento ambiental, originando o Prodes.
  • Clara antecipou debates centrais da sustentabilidade ao defender o manejo florestal sustentável e as Florestas de Rendimento, conceitos que influenciaram a Lei de Gestão de Florestas Públicas de 2006.
Resumo revisado pela redação.

Em uma época em que mulheres sequer tinham direito ao voto, Clara Pandolfo ousou sonhar com a ciência. Nascida em Belém em 1912, foi a única mulher entre nove alunos da antiga Escola de Chimica Industrial do Pará, aos 17 anos. Desde então, sua trajetória se entrelaçou com a história da ciência na Amazônia, marcada por pioneirismo, resistência e visão estratégica. Clara foi a primeira química da região Norte e uma das cinco primeiras do Brasil.

Seu legado, por décadas invisibilizado, começa a ser resgatado por um projeto que inclui livro, Minidocumentário “A Cientista da Amazônia”, site e ciclo de palestras. “Clara Pandolfo foi uma das cientistas mais importantes da história da Amazônia. Ela idealizou o manejo florestal sustentável décadas antes de sua implementação e teve a ideia de usar satélites para detecção de desmatamento”, conta o jornalista e historiador Murilo Fiuza de Melo, autor da biografia da cientista, em entrevista ao Radar Mineração.

Clara não apenas rompeu barreiras de gênero, como também de território. Fez ciência a partir da Amazônia, viveu e morreu na floresta, e dedicou sua vida à pesquisa, ao ensino e à formulação de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento sustentável da região. Atuou por mais de duas décadas como diretora do Departamento de Recursos Naturais da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), onde defendeu o uso racional dos recursos minerais e florestais, enfrentando embates políticos e institucionais durante o regime militar. “Quem mais conhece a região são as pessoas que moram nela”, dizia.

O estudo que antecipou Carajás

Primeiro estudo de Clara Martins Pandolfo sobre recursos minerais da Região Amazônica, que abriu caminho para sua contratação na agência regional de desenvolvimento.
Foto: Projeto Clara Pandolfo / Divulgação

Em 1954, Clara Pandolfo apresentou à Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA) um estudo que mudaria a história da mineração brasileira. Intitulado “Recursos Minerais da Região Amazônica”, o trabalho de 77 páginas mapeou 30 minerais com potencial econômico, incluindo terras raras, nióbio, titânio, ferro e manganês. Fiuza conta que Clara pesquisou durante seis meses em diversas fontes. 

“Certamente, o estudo sobre as potenciais jazidas minerais realizadas por Clara Pandolfo na Amazônia serviram como ponto de partida para que a SPVEA viesse a financiar o mapeamento aéreo de Carajás, feito pelo antigo DNPM (hoje, ANM) no início dos anos 1960. Mais tarde, essas imagens caíram nas mãos do geólogo Breno Augusto dos Santos, que identificou a hematita na região. Foi a última descoberta romântica da mineração, como costuma dizer Breno”, conta Fiuza.

Laboratórios e satélites

Clara Pandolfo em um laboratório antigo, com bancada cheia de instrumentos científicos e estantes com frascos
Foto: Projeto Clara Pandolfo / Divulgação

Clara Pandolfo acreditava que o conhecimento técnico era a chave para o desenvolvimento regional. Na Sudam e na Universidade Federal do Pará, criou laboratórios de análise espectral e tecnologia mineral, com equipamentos capazes de identificar até 80 elementos químicos em uma única amostra geológica.

Dentro da própria Sudam, montou dois importantes laboratórios: o de Sensoriamento Remoto e o de Tecnologia Mineral. Também na Sudam, como diretora de Recursos Naturais, tinha como uma de suas obrigações estimular e promover a investigação dos recursos naturais da região e o desenvolvimento da tecnologia necessária para assegurar sua melhor utilização.

Ela foi também uma das primeiras vozes a propor o uso de satélites para monitoramento ambiental. Em 1973, firmou um convênio com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) para testar imagens do satélite ERTS (hoje Landsat) no nordeste do Mato Grosso. O estudo, coordenado por Antonio Tardin, deu origem ao Prodes, programa de referência mundial no controle de desmatamento.

“Clara Pandolfo viabilizou o sensoriamento por satélite no Brasil e deu justificativa mais que plausível para que o país entrasse nesse programa espacial. Teve uma visão extraordinária”, afirmou Tardin, citado na pesquisa de Fiuza. Fiel à crença de que o desenvolvimento da Amazônia dependia do conhecimento técnico e científico produzido na própria região, Clara foi pioneira no uso da tecnologia para o monitoramento ambiental.

Legado sustentável

Capa de livro de 1978 sobre a floresta amazônica brasileira com enfoque econômico-ecológico, escrito por Clara Pandolfo, destacando a importância da preservação ambiental.
Foto: Projeto Clara Pandolfo / Divulgação

Muito antes de o termo “sustentabilidade” se popularizar, Clara Pandolfo já defendia o manejo florestal sustentável como alternativa ao extrativismo predatório. Propôs o conceito de Florestas de Rendimento, precursor das atuais Florestas Nacionais, e influenciou diretamente a Lei de Gestão de Florestas Públicas, sancionada em 2006. “A única ocupação econômica que não destrói a cobertura florestal é a exploração florestal organizada, que permite a utilização desses recursos indefinidamente”, afirmou Clara em 1972.

Ela também foi pioneira ao unir economia e ecologia em projetos públicos, propondo o zoneamento ecológico-econômico da Amazônia e defendendo a capacitação de técnicos locais. “Não basta o manejo, você precisa capacitar e gerar renda para as pessoas que estão ali”, dizia.

Hoje, com a COP30 começando, o legado de Clara Pandolfo ganha nova relevância. Sua trajetória inspira o debate sobre desenvolvimento sustentável, ciência feita na Amazônia e protagonismo feminino na construção de políticas públicas. “Clara Pandolfo é um ponto de prova para motivar e inspirar novas gerações de estudantes na busca pelo conhecimento”, complementa Fiuza.

Saiba mais como foi o processo de pesquisa sobre Clara Pandolfo, com Murilo Fiuza.

Qual foi o maior desafio ao escrever sobre Clara Pandolfo?

Os projetos da Clara eram para ser meu primeiro livro. Ela faleceu em 2009, e eu estive com ela nos Natais de 2006 e 2008. Quando falava da Amazônia, os olhos dela brilhavam. Depois que ela morreu, encontrei em seu apartamento estantes cheias de livros e pastas coloridas com toda a vida dela organizada. Ali estava o livro. Escrevi cinco capítulos em 2010, mas só retomei o projeto em 2023, com a COP30 se aproximando.

O que mais te surpreendeu na trajetória dela?

A capacidade de pensar a Amazônia como um todo. Ela dizia que o grande recurso da Amazônia era sua vocação florestal. Defendia o manejo sustentável, o uso de satélites para monitoramento, a capacitação de técnicos locais. Foi pioneira em unir economia e ecologia em políticas públicas. E tudo isso sendo mulher, na Amazônia, nos anos 1950.

Qual o legado mais atual de Clara Pandolfo?

Ela antecipou debates que hoje são centrais na COP30. Seu estudo de 1954 mapeou 30 minerais e influenciou a descoberta de Carajás. Mas ela também propôs as Florestas de Rendimento, que inspiraram a Lei de Gestão de Florestas Públicas. Clara mostrou que é possível fazer ciência na Amazônia, com visão estratégica e compromisso social.

O projeto que resgata a trajetória de Clara Pandolfo — com livro, minidocumentário, site e ciclo de palestras — é uma realização do Ministério da Cultura, conta com patrocínio master da Vale, por meio da Lei Rouanet, e apoio da Wyden/Instituto YDUQS. O projeto está alinhado a iniciativas do Ministério da Cultura voltadas à valorização da memória científica e ao protagonismo feminino na Amazônia.

Encontros durante a COP30

Durante a COP30, o escritor Murilo Fiuza realizará quatro encontros dedicados à divulgação do legado de Clara Pandolfo — uma trajetória marcada por inspiração e impacto.

Agenda de eventos da Clara Pandolfo na COP30, destacando datas e locais em Queima, Brasil, com detalhes sobre palestras e atividades ambientais.
Foto: Projeto Clara Pandolfo / Divulgação

Serviço

Site oficial do projeto: https://www.clarapandolfo.online
Livro em PDF: clarapandolfo.online/wp-content/uploads/2025/08/Clara-Pandolfo_completo.pdf
Instagram: @_clarapandolfo
Twitter/X: @ClaraPandolfoo
YouTube: Clara Pandolfo (@ClaraPandolfo)
Facebook: Clara Pandolfo
TikTok: clara.pandolfo

* Especial para o Radar Mineração.

Dúvidas mais comuns

Clara Pandolfo foi a primeira química da região Norte do Brasil e uma das cinco primeiras do país. Nascida em Belém em 1912, foi a única mulher entre nove alunos da Escola de Chimica Industrial do Pará aos 17 anos. Sua trajetória foi marcada por pioneirismo na ciência amazônica, atuando por mais de duas décadas como diretora do Departamento de Recursos Naturais da Sudam, onde defendeu o uso racional dos recursos minerais e florestais, além de formular políticas públicas voltadas ao desenvolvimento sustentável da região.

Em 1954, Clara Pandolfo apresentou à SPVEA o estudo 'Recursos Minerais da Região Amazônica', um trabalho de 77 páginas que mapeou 30 minerais com potencial econômico, incluindo terras raras, nióbio, titânio, ferro e manganês. Este estudo serviu como ponto de partida para que a SPVEA financiasse o mapeamento aéreo de Carajás no início dos anos 1960, levando à descoberta de hematita na região e marcando uma das últimas descobertas românticas da mineração brasileira.

Clara Pandolfo foi uma das primeiras vozes a propor o uso de satélites para monitoramento ambiental. Em 1973, firmou um convênio com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) para testar imagens do satélite ERTS (hoje Landsat) no nordeste do Mato Grosso. Este estudo, coordenado por Antonio Tardin, deu origem ao Prodes, programa de referência mundial no controle de desmatamento, consolidando sua visão extraordinária sobre o uso da tecnologia para proteção ambiental.

Clara Pandolfo criou laboratórios de análise espectral e tecnologia mineral na Sudam e na Universidade Federal do Pará, com equipamentos capazes de identificar até 80 elementos químicos em uma única amostra geológica. Dentro da Sudam, montou dois laboratórios importantes: o de Sensoriamento Remoto e o de Tecnologia Mineral. Seu objetivo era garantir que o conhecimento técnico necessário para o desenvolvimento regional fosse produzido na própria Amazônia.

Muito antes do termo 'sustentabilidade' se popularizar, Clara Pandolfo defendia o manejo florestal sustentável como alternativa ao extrativismo predatório. Propôs o conceito de Florestas de Rendimento, precursor das atuais Florestas Nacionais, afirmando que 'a única ocupação econômica que não destrói a cobertura florestal é a exploração florestal organizada, que permite a utilização desses recursos indefinidamente'. Ela também foi pioneira ao unir economia e ecologia em projetos públicos, propondo o zoneamento ecológico-econômico da Amazônia.

Clara Pandolfo influenciou diretamente a Lei de Gestão de Florestas Públicas, sancionada em 2006, através de sua proposta do conceito de Florestas de Rendimento. Além disso, ela defendia a capacitação de técnicos locais e a geração de renda para as pessoas que vivem na Amazônia, compreendendo que não bastava apenas o manejo florestal, mas era necessário capacitar e gerar oportunidades econômicas para as comunidades locais.

Clara Pandolfo enfrentou embates políticos e institucionais durante o regime militar, quando atuava como diretora do Departamento de Recursos Naturais da Sudam. Seu maior desafio foi defender o uso racional dos recursos minerais e florestais em um contexto político adverso, mantendo sua visão estratégica de desenvolvimento sustentável enquanto rompia barreiras de gênero e de território, fazendo ciência a partir da Amazônia em uma época em que mulheres tinham direitos limitados.

O legado de Clara Pandolfo ganha nova relevância com a COP30, inspirando debates sobre desenvolvimento sustentável, ciência feita na Amazônia e protagonismo feminino na construção de políticas públicas. Seu estudo de 1954 sobre minerais amazônicos influenciou a descoberta de Carajás, enquanto suas propostas sobre manejo florestal sustentável e monitoramento por satélite anteciparam debates centrais contemporâneos. Um projeto de resgate de sua trajetória, incluindo livro, minidocumentário, site e ciclo de palestras, busca inspirar novas gerações de estudantes na busca pelo conhecimento científico.