- A mineração brasileira pode reduzir 90% de suas emissões de carbono até 2050 e contribuir significativamente para a descarbonização global, conforme estudo da Coalizão Minerais Essenciais entregue à COP30.
- O setor pode diminuir até 110 milhões de toneladas de CO₂ equivalente na cadeia de minério de ferro através de pelotas e briquetes para aço de baixo carbono, além de viabilizar redução de 1,6 a 2 gigatoneladas de CO₂ globalmente com minerais para transição energética.
- A realização desse potencial depende de habilitadores sistêmicos como precificação de carbono entre US$160–200/tCO₂, regulação de mercados de carbono, padrões internacionais de hidrogênio de baixa emissão e alinhamento de taxonomias verdes para atrair investimento.
A mineração tem potencial para reduzir em 90% suas próprias emissões de carbono e contribuir para a diminuição das emissões totais do Brasil até 2050. Os dados fazem parte do estudo da Coalizão Minerais Essenciais, entregue ao presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago. A iniciativa reúne 14 entidades e empresas do setor e é liderada pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), a Vale e o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram),
Essa estimativa é composta pelo seguinte cálculo: redução de até 80% das emissões e neutralização de cerca de 14% até 2050. Entre as alavancas para chegar a estes resultados, estão:
- Eficiência energética ao longo da cadeia de valor.
- Substituição de combustíveis fósseis para geração de calor por fontes com menor teor de carbono.
- Eletrificação de frotas e equipamentos.
- Aumento do uso de fontes renováveis de energia.
- Recuperação de áreas degradadas para reduzir e compensar emissões líquidas.
Em uma outra frente, que analisou as contribuições da mineração brasileira para reduzir as emissões da cadeia global de minério de ferro, o estudo concluiu que é possível diminuir em até 110 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (MtCO₂e) em 2050, por meio da produção pelotas e briquetes, que são insumos para o aço de baixo carbono. O volume equivale de sete a oito vezes as emissões da mineração em 2022 (13 MtCO₂e).
A projeção é que, em 2035, o Brasil disponibilize cerca de 45 milhões de toneladas (Mton) de insumos, volume capaz de viabilizar a produção de aproximadamente 35 Mton de aço por meio de rotas de redução direta. Considerando a produção desse mesmo volume por rota integrada tradicional, as emissões associadas chegariam a cerca de 80 MtCO₂e. Com base no mix estimado — 90% da produção via gás natural e 10% via hidrogênio —, as emissões seriam de 45 MtCO₂e, o que representa uma redução global de 35 MtCO₂e.
O potencial para 2050 é ainda maior. A expectativa é de que o fornecimento brasileiro chegue a 50 milhões de toneladas de insumos desse tipo, permitindo a produção de cerca de 40 milhões de toneladas em escala global, por meio de rotas inteiramente baseadas em hidrogênio de baixo carbono.
Nesse cenário, enquanto a rota tradicional de produção acarretaria emissões próximas de 90 MtCO₂e, a utilização exclusiva da tecnologia com hidrogênio reduziria esse número para 10 MtCO₂e, o que implicaria menos 80 MtCO₂e nas emissões globais, aproximadamente.
Já na produção de minerais para a transição energética, o setor pode contribuir para a redução de 1,6 a 2 Gt CO₂ nas emissões globais em 2050, com insumos para:
- eletrificação da frota global de veículos;
- expansão de geração solar e eólica e
- sistemas de armazenamento e redes de distribuição elétrica.
Raul Jungmann, presidente do Ibram, destacou que é a primeira vez que a mineração faz parte de uma COP, com o setor defendendo, de forma estruturada, como poderá reduzir 90% de suas emissões locais até 2050. Em artigo para o Correio Braziliense, Jungmann lembrou que não se trata apenas de um compromisso setorial, mas da capacidade da mineração brasileira em contribuir de forma efetiva para os objetivos climáticos do país.
Apesar da forte participação da iniciativa privada, a Coalizão envolve outras áreas da sociedade, como a academia e o governo, como destacou Marina Grossi, presidente do Cebds.
Em entrevista à Agência Estado, ela explicou que a Coalizão pretende atuar a partir da articulação do setor mineral como agente relevante na descarbonização e transição energética. A iniciativa dará tração ao movimento de implementação das ações, sempre com o alinhamento dos setores público e privado.
Na mesma reportagem, a vice-presidente de Sustentabilidade da Vale, Grazielle Parenti, lembrou que a regulação do mercado de carbono é fundamental para que a mineração atinja a potencialidade descrita no relatório da Coalizão. Para ela, é necessário um mercado mundial de carbono que valorize os produtos de baixa pegada, como é o minério de ferro brasileiro.
| Contribuição na Cadeia do Ferro | Potencial de Redução em 2050 | Descrição |
| Insumos para Aço de Baixo Carbono | ~80 MtCO2e (globalmente) | Expansão da produção de pelotas e briquetes DR-grade, essenciais para migrar da rota siderúrgica tradicional para rotas de redução direta (DRI) a gás natural e, futuramente, a hidrogênio. |
| Navegação de Longo Curso | 15 a 25 MtCO2e | Adoção de combustíveis sustentáveis, inovação tecnológica e maior eficiência na exportação de minério brasileiro. |
| Pelotização | 4 a 5 MtCO2e | Utilizando biocarbono, biocombustíveis, PPAs solares e eólicos, hidrogênio de baixo carbono e inovação em tecnologia e processos. |
| Transporte Ferroviário | 1 a 2 MtCO2e | Redução de emissões logísticas por meio de eficiência operacional, biocombustíveis e eletrificação parcial |
Minerais de transição energética
Um dos destaques do relatório da Coalizão é mostrar como o Brasil está estrategicamente posicionado para apoiar a transição energética global. Nesse caso, a participação do país seria na expansão da produção de minerais essenciais para a criação da economia de baixo carbono.
Como a transição depende do crescimento acelerado da demanda por minerais necessários para baterias, mobilidade elétrica, geração renovável e infraestrutura associada, o Brasil pode se tornar um dos principais fornecedores globais nessa área. Isso pode gerar uma redução de até 300 MtCO2e por ano, o equivalente às emissões de São Paulo e Minas Gerais somadas em 2023.
As vantagens da mineração local incluem a diversidade geológica (uma das maiores do mundo), a existência de um setor mineral desenvolvido e uma matriz elétrica renovável que favorece projetos com menor intensidade de carbono.
De acordo com o relatório, a expansão da produção de 13 minerais selecionados, incluindo bauxita, manganês, cobre, zinco, silício, nióbio, níquel, grafite, vanádio, lítio, tântalo, terras raras e cobalto, pode viabilizar a produção de tecnologias limpas em escala global.
Mineração contribuindo para a redução global de emissões

Em números, a produção brasileira desses minerais pode viabilizar tecnologias que têm o potencial de evitar a emissão global de 1,6 a 2,0 gigatoneladas de CO2 equivalente (GtCO2e) por ano em 2050. Essa contribuição representa de 7% a 9% das emissões globais passíveis de mitigação por meio da expansão de tecnologias como veículos elétricos e fontes de energia solar e eólica.
Desafios das metas da Coalizão
Na avaliação da Coalizão, apesar de promissor, o potencial de descarbonização da mineração brasileira depende de um conjunto de habilitadores sistêmicos, entre os quais:
- Criar sistemas que permitam calcular e registrar as emissões de carbono de cada produto, destacando os diferenciais de baixo carbono — como o uso de biocombustíveis ou de fontes renováveis de energia.
- Garantir que os sistemas brasileiros estejam alinhados com padrões e mecanismos internacionais e de ajustes de fronteira.
- Reconhecer oficialmente no âmbito do GHG Protocol as remoções de CO2 por recuperação de áreas nos inventários corporativos, permitindo que esse tipo de ação seja reconhecido como parte dos esforços de descarbonização das empresas.
- Compatibilizar taxonomias verdes para facilitar a elegibilidade e atrair investimento internacional para projetos de mineração e cadeias produtivas de baixo carbono.
- Estabelecer padrões e certificações para hidrogênio de baixa emissão a fim de acelerar o desenvolvimento de um mercado global.
Por fim, o relatório da Coalizão destaca a necessidade de um alinhamento de incentivos, previsibilidade e agilidade no licenciamento, além da implementação de mecanismos de precificação de carbono.
Segundo o documento, o preço do carbono é considerado essencial para impulsionar a adoção de alavancas de descarbonização, sendo a estimativa da Agência Internacional de Energia (IEA) – de valores entre US$160–200/tCO2 em 2050 – apoiada pela Coalizão.

