BELO HORIZONTE – As mudanças climáticas são uma realidade e os eventos extremos estão se agravando com o decorrer do tempo. A questão hídrica, no entanto, é a que mais deve afetar o setor de mineração nos próximos anos. Esta foi uma das conclusões do painel “Eventos Extremos: Gerenciamento dos Riscos Climáticos em Mineração”, que reuniu especialistas técnicos na tarde desta terça-feira, na Exposibram 2026.
Com mediação de Alan Vaz Lopes, Superintendente da Superintendência de Regulação de Serviços Hídricos e Segurança de Barragens (SRB) da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), participaram da mesa Carlos Eduardo Morelli Tucci, Sócio-Diretor Rhama Consultoria Ambiental e Professor Emérito da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul); Fernando Antonio Medeiros Marinho, Professor Associado da USP; Mário Cicareli Pinheiro, Diretor da H20 Hidroinformática e Recursos Hídricos e Nathan Debortoli, Gerente de Riscos Climáticos e Adaptação na Ausenco.

“O clima vem mudando ao longo dos séculos. Estamos neste momento em outro patamar de ocorrências, com chuvas de maior intensidade, curta duração, e, por outro lado, períodos secos prolongados. Isso representa chuvas mais fortes no sul do Brasil e redução de chuva no norte do país. Portanto, um projeto de mineração precisa ter um plano sobre a disponibilidade hídrica ao mesmo tempo em que fala de segurança das estruturas” — Carlos Eduardo Morelli Tucci
O professor Fernando Antonio Medeiros Marinho lembrou que os maciços sofrem tanto infiltração de água como a evaporação.

“A chuva máxima é preocupante, mas ela não está sozinha. O clima altera o estado hidromecânico de uma estrutura que pode mobilizar os mecanismos de estabilização. A hidrologia aqui é fundamental. A intensidade e a perenidade da chuva precisam ser entendidas, ou seja, o regime hídrico. Estudar para onde a água vai por dentro” — Fernando Antonio Medeiros Marinho
A instabilidade dos regimes hídricos faz com que a mineração enfrente diversas barreiras. Secas severas e chuvas intensas alteram a vazão dos rios, geram insegurança no balanço hídrico e elevam o risco de conflitos pelo uso da água, paralisando novos processos de licenciamento e a emissão de outorgas.
A prioridade é a água para a população
Mário Cicareli Pinheiro chamou a atenção para esta questão das outorgas e da insegurança jurídica com relação ao uso da água.

“Em caso de seca, a prioridade é o abastecimento da população e não a indústria. Portanto, temos aqui um desafio. Porém, o setor tem procurado internalizar estes problemas por meio de estudos e revisão dos estudos de chuvas e precipitações, segurança hidráulica de suas estruturas, um esquema de governança próprio para avaliar a segurança de rejeitos dentro dos aspectos das mudanças climáticas” — Mário Cicareli Pinheiro
Nathan Debortoli traçou uma linha do tempo apontando o aumento de estudos sobre eventos extremos na mineração a partir de 2020 e apontou alguns caminhos que vêm sendo utilizados na mitigação de riscos, como as chamadas Soluções Baseadas na Natureza (SbN). Entre elas, manter e restaurar florestas perto de áreas mineradas, que funcionam como uma infraestrutura natural que retém água e protege o solo contra erosões — as raízes das árvores seguram o solo e evitam deslizamentos em encostas de mineração.

“A adaptação preventiva deve ser internalizada, pois diminui custos. Investir na mitigação de riscos climáticos custa significativamente menos para a mineração do que arcar com as paradas operacionais e as reparações financeiras e ambientais após um desastre. Estes custos podem chegar a bilhões de reais” — Nathan Debortoli