- A COP30 marca transição do regime climático de negociações sobre regras para implementação operacional de compromissos, exigindo que setores como mineração traduzam metas em planos com cronogramas e financiamento dedicado.
- A mineração alcançou maior presença em uma COP e assinou o Protocolo Global de Circularidade, sinalizando alinhamento com economia circular e posicionando resíduos como matéria-prima secundária em operações.
- O Brasil enfrenta decisão estratégica entre manter-se como exportador de commodities ou avançar para processamento e industrialização de minerais críticos, aproveitando posição geopolítica na transição energética global.
O texto final da COP30 não leva a uma solução final para a dependência dos combustíveis fósseis, como queria o governo brasileiro ao propor o “Mapa do Caminho”. Mas tem avanços para a implementação dos compromissos assumidos em outras COPs. Depois de anos dedicados às negociações sobre regras, metodologias e arranjos institucionais, é possível dizer que Belém inaugurou um ciclo voltado para implementação, financiamento e cooperação entre países, com um texto final intitulado Mutirão Global.
O documento tem destaques como a celebração dos 10 anos do Acordo de Paris, transição da negociação para a execução e “resposta urgente” para manter 1,5 °C ao alcance. Em todos esses pontos, há impactos diretos para setores intensivos em emissões, como petróleo, energia e mineração.
A mineração, especificamente, aparece no campo das metas de mitigação, do financiamento e da adaptação, sendo chamada a avançar em eficiência, rastreabilidade, redução de pegada de carbono e integração com economias de baixo carbono. As referências a comércio internacional, transição tecnológica e reformas do sistema financeiro internacional também influenciam diretamente a cadeia de minerais críticos.
Avanços da mineração na COP30

Durante o próprio evento, alguns avanços ocorreram no setor de mineração, sinalizando que o setor está alinhado à nova fase de implementação proposta pela COP30. Um dos principais foi a assinatura do Protocolo Global de Circularidade. A iniciativa busca criar padrões para medir e comunicar a circularidade nas operações, movimento que ressignifica rejeitos e reposiciona a indústria como fornecedora de insumos reaproveitáveis, e não apenas de minério extraído.
O pacto, apresentado em Belém, reforça a expectativa de que a mineração amplie o uso de resíduos como matéria-prima secundária e incorpore métricas transparentes de desempenho circular.
As negociações também evidenciaram a necessidade de decidir se o Brasil continuará como exportador de commodities ou se assumirá papel ativo na construção da nova geopolítica mineral.
Conforme reportou o Radar Mineração, especialistas presentes na COP30 afirmaram que os minerais críticos deixaram de ser vistos apenas como bens primários e passaram a ocupar posição central na transição energética global, criando um contexto no qual o país tem condições de avançar para etapas de processamento e industrialização, criando valor agregado e reduzindo a dependência externa de cadeias tecnológicas.
Justiça social e resiliência territorial também foram debatidos na conferência, apontando que a mineração do futuro depende de acordos reais com comunidades, de mecanismos de governança local e de processos de licenciamento que contemplem impactos sociais. A avaliação é que a transição energética não pode reproduzir desigualdades históricas.
Além disso, o evento trouxe à tona os desafios de financiamento e competitividade. Afinal, para que a mineração brasileira siga o compromisso com a descarbonização, será necessário ampliar linhas de crédito, atrair parcerias tecnológicas e garantir que a cadeia de minerais críticos opere sob padrões alinhados ao Acordo de Paris.
Novo ciclo do Acordo de Paris
Não só na mineração, a COP30 está sendo considerada como o início de um novo ciclo completo do Acordo de Paris, com NDCs atualizadas e os primeiros relatórios de transparência e estratégias de longo prazo já submetidas. A partir de agora, o texto final da COP30 pontua que o regime climático “transita decisivamente para a fase de implementação”.
Para países e empresas, isso significa menos espaço para compromissos vagos. Ou seja: as metas apresentadas precisam se traduzir em planos operacionais, cronogramas e fundos dedicados. No caso da mineração, essa transição tende a pressionar o setor em três frentes: (1) redução de emissões diretas e indiretas; (2) ampliação de investimentos em energias renováveis e eletrificação de operações e (3) comprovação de que os minerais fornecidos ao mercado global atendem a critérios socioambientais alinhados ao Acordo de Paris.
Além disso, as NDCs devem se alinhar às estratégias de longo prazo e aos planos de desenvolvimento econômico de cada país, incluindo setores industriais e extrativistas.
“Missão Belém” e “Mutirão Global”

De maneira geral, duas iniciativas marcam o texto final da COP30 no Brasil: o Global Implementation Accelerator e a Missão Belém para 1,5 °C. Ambos propõem plataformas de cooperação para acelerar a execução das NDCs e apoiar países com assistência técnica e integração internacional, envolvendo governos, empresas e sociedade civil. Na prática, funcionam como mecanismos de pressão contínua e cooperação estruturada, inclusive para setores industriais com relevância climática.
A mineração será parte desse movimento, tanto pelo peso das emissões quanto pela importância estratégica para a transição energética. Dessa forma, países com grandes reservas de minerais críticos como Brasil, Chile, Peru, África do Sul e Indonésia, tendem a ser chamados a propor avanços simultâneos em competitividade e descarbonização nas próximas COPs.

