Navio de carga atracado em um porto industrial, com guindastes amarelos descarregando ou carregando materiais no navio em meio a tensões geopolíticas; água e outros navios são visíveis ao fundo.
Terminal Marítimo de Ponta da Madeira (Foto: Divulgação / Vale)

Custos da mineração oscilam com tensões geopolíticas, mas setor mostra resiliência

Conflitos armados, gargalos logísticos e volatilidade energética elevam despesas no curto prazo, demandando inovação e diversificação de rotas

Por Redação, 4 min de leitura

Publicado em 29/05/2026

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A intensificação de tensões geopolíticas globais tem imposto novos desafios à indústria mineral. Conflitos armados, como o que ocorre atualmente entre Irã, Israel e Estados Unidos, sanções econômicas e restrições logísticas pressionam custos operacionais, especialmente em cadeias altamente dependentes de energia, transporte marítimo e insumos essenciais. Ainda assim, análises recentes de consultorias globais, como a EY e a S&P Global Market Intelligence, indicam que o setor tem respondido com ajustes estruturais, com foco em estratégias de diversificação.

O estudo da EY aponta que o ambiente geoestratégico atual é marcado por maior fragmentação econômica e reorganização de cadeias produtivas. Segundo o relatório da consultoria, a mineração, que é a base de diversas cadeias industriais, passa a operar sob maior incerteza, com impactos diretos sobre custos de produção e investimento. O estudo aponta, além da guerra no Irã, possíveis consequências decorrentes das relações entre EUA e China e a nova estratégia de relações exteriores do Canadá, acelerando novas parcerias com Japão, China, Índia e Austrália.

Energia, frete e insumos trazem pressões de curto prazo 

Já a S&P Global Market Intelligence mostra que a inflação global e a volatilidade nos preços de energia continuam sendo fatores centrais para o aumento dos custos de mineração. 

Os preços dos combustíveis, de eletricidade e de explosivos (itens essenciais para a operação de minas) sofreram oscilações relevantes em meio às instabilidades geopolíticas, desde o ano passado. 

O transporte marítimo também se tornou um problema para o segmento, principalmente em razão dos episódios de tensão em rotas estratégicas, como o Estreito de Hormuz. Esses movimentos elevaram os custos de frete e de seguros, afetando diretamente commodities como minério de ferro

Navio cargueiro navega em águas calmas, passando pelo Estreito de Ormuz, com estrutura industrial e paisagem de montanhas ao fundo sob céu nublado.
Transporte marítimo também eleva os custos do  segmento, principalmente em razão dos episódios de tensão em rotas estratégicas, como o Estreito de Hormuz (Foto: Somkanae sawatdinak / Shutterstock)

Em cenários de interrupção parcial ou risco elevado, mineradoras precisam redirecionar cargas, ampliar estoques ou renegociar contratos logísticos, com impacto nos custos de curto prazo, segundo a S&P Global Market. Novamente, o conflito no Irã ilustra esse movimento. Após semanas de restrições e queda acentuada no tráfego marítimo, o país anunciou, em abril, a reabertura do Estreito de Hormuz durante uma trégua no Líbano. 

No entanto, o alívio foi seguido por novas limitações. A manutenção de bloqueios navais e tensões entre potências levou à reversão da medida em poucos dias, com novas restrições ao fluxo de navios e ausência de retomada consistente do tráfego. Mesmo com a prorrogação do cessar-fogo em algumas frentes do conflito, o bloqueio parcial no estreito permanece afetando o fluxo de petróleo e derivados, mantendo elevado o risco logístico global. 

A combinação de trégua diplomática com restrições operacionais demonstra a dificuldade de normalização rápida das cadeias de suprimento. Esse tipo de dinâmica — abertura pontual seguida de novas restrições — tende a gerar alívios temporários nos custos de frete e seguros, mas não elimina a volatilidade estrutural, aponta a S&P Global Market Intelligence. Afinal, o histórico recente demonstra que rotas críticas podem ser rapidamente comprometidas por eventos geopolíticos, exigindo respostas ágeis das empresas.

Além disso, sanções comerciais e restrições à exportação de determinados países têm afetado a disponibilidade de insumos e equipamentos, pressionando prazos e preços. A cadeia de suprimentos, antes estruturada com foco em eficiência, passa a incorporar critérios de segurança e redundância.

Setor investe em eficiência e redesenho operacional

Apesar das pressões, o setor mineral tem demonstrado capacidade de adaptação. A mesma conjuntura que eleva custos também acelera transformações estruturais, com foco em eficiência operacional e resiliência. Uma das respostas mais evidentes é a diversificação de rotas logísticas. Mineradoras têm buscado diversificar destinos de exportação, realinhar rotas comerciais e ampliar a base de fornecedores, reduzindo a dependência de regiões sujeitas a conflitos, segundo análises da EY e da S&P Global. 

Outro movimento relevante é a intensificação da digitalização e automação. Tecnologias de monitoramento em tempo real, manutenção preditiva e otimização de processos permitem reduzir desperdícios e aumentar a produtividade, compensando parte das pressões inflacionárias. Paralelamente, há maior disciplina na alocação de capital, com priorização de projetos mais eficientes e de menor risco geopolítico.

Transição energética pode ajudar na redução de custos

A volatilidade nos preços de energia incentiva mineradoras a adotar estratégias para reduzir exposição a custos variáveis, incluindo maior previsibilidade contratual e revisão de suas fontes energéticas. Em alguns casos, projetos de geração própria de energia solar e eólica, além de contratos de longo prazo (PPAs), ganham espaço como forma de mitigar riscos de preço e garantir previsibilidade de custos.

Esse movimento também dialoga com metas ambientais e pressões de investidores por práticas ESG, criando um duplo benefício: redução de emissões e maior controle sobre despesas energéticas.

No caso de insumos, empresas buscam contratos de fornecimento mais flexíveis e parcerias estratégicas, além de investir em reciclagem e reaproveitamento de materiais sempre que possível.

A análise da S&P Global Market Intelligence destaca que a entrada de novos projetos em regiões alternativas contribui para redesenhar a oferta global de minerais. Países com menor exposição a conflitos ou com ambiente regulatório mais estável passam a atrair investimentos, ainda que, em alguns casos, com custos iniciais mais elevados.

Perspectivas

Essa diversificação geográfica tende a reduzir riscos sistêmicos no longo prazo, mesmo que implique aumento de custos no curto prazo, devido à necessidade de desenvolvimento de infraestrutura e capacitação local.

A tendência, segundo as análises consultadas, é que a volatilidade de custos persista no curto prazo, especialmente em função de conflitos regionais e reconfiguração de cadeias globais. Episódios recentes mostram que mesmo acordos diplomáticos — como as iniciativas de cessar-fogo na região do Irã — não garantem normalização imediata das rotas logísticas, sobretudo em pontos críticos como o Estreito de Hormuz.