O Sohar Max é um Valemax, navio de transporte de minério da Vale. Ilustrando o conceito de descarbonização na mineração
Foto: Vale/ Divulgação

Das cavas ao mar, descarbonização impõe novo padrão de competitividade na mineração

Com avanços em inventário e adoção de inovações em transporte e captura de CO₂e, o setor mineral redefine sua operação em direção a uma economia sustentável

Por Redação, 6 min de leitura

Publicado em 30/03/2026

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  • A mineração brasileira redefine sua competitividade mediante inovações em transporte marítimo, energia renovável e captura de carbono, respondendo por apenas 0,55% das emissões nacionais com metas de neutralidade entre 2030 e 2040.
  • Navios especializados como o Valemax e tecnologias como velas rotativas, lubrificação a ar e biocombustíveis reduzem emissões em até 12% por embarcação, enquanto o mercado regulado de carbono brasileiro obriga empresas acima de 10 mil toneladas de CO₂ equivalente a compensar suas emissões.
  • O setor mineral brasileiro opera com 85% de energia renovável na produção, três vezes acima da média mundial, posicionando-se estrategicamente na oferta de minerais críticos para a transição energética global, como cobre, níquel, lítio e cobalto.
Resumo revisado pela redação.

Como uma das primeiras etapas de cadeias produtivas, a mineração busca reduzir emissões de gases de efeito estufa (GEE). Impulsionada por investidores, reguladores e sociedade, as empresas do setor têm adotado inovações que reposicionam a atividade em direção à competitividade de baixo carbono. Essa trajetória não se restringe à operação direta das minas. Da medição e rastreamento de emissões ao transporte rodoviário, ferroviário e marítimo, passando por soluções de captura e uso de carbono e pelo avanço de legislações, como o mercado regulado de carbono no Brasil, o setor desenha um novo padrão de atuação. O resultado é uma cadeia produtiva que busca eficiência e sustentabilidade, conciliando a extração de minerais com compromissos climáticos globais.

De acordo com o Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Setor Mineral 2024, do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), a indústria mineral responde por apenas 0,55% das emissões totais do Brasil – cerca de 12,77 milhões de toneladas de CO₂e equivalente. Embora o índice seja relativamente baixo em comparação a outras atividades, o setor mineral estabeleceu metas ambiciosas para alcançar a neutralidade de carbono entre 2030 e 2040.

Nova régua de competitividade

O cenário internacional impõe um novo ritmo. Se a mineração busca eficiência em terra, é no transporte marítimo que a agenda ganha maior visibilidade, já que rotas de exportação de minério de ferro, cobre e bauxita respondem por uma parcela significativa das emissões associadas à atividade. O setor marítimo, como um todo, é responsável por cerca de 3% das emissões globais de GEE e já é alvo de metas rígidas estabelecidas pela Organização Marítima Internacional (IMO), que prevê a neutralidade climática até 2050. 

Na logística marítima, os navios Valemax, da Vale, por exemplo, são os maiores transportadores de minério em operação no mundo. Cada embarcação tem capacidade de até 400 mil toneladas, o dobro de um graneleiro convencional. No trajeto entre Vitória e os principais portos chineses, a viagem dura, em média, 45 dias, mas o uso do Valemax permite concentrar o volume equivalente a duas viagens em uma única operação, otimizando a emissão de gases de efeito estufa. 

A estimativa anual é de ganho de até 6% em eficiência de propulsão e redução de cerca de 3 mil toneladas de CO2 equivalente por navio. Parte dessa eficiência vem da incorporação de tecnologia. Algumas unidades do Valemax operam com cinco velas rotativas de 35 metros de altura, que utilizam o efeito Magnus para auxiliar a propulsão e aliviar a carga do motor principal (leia mais detalhes nesta reportagem especial). 

Em navios como o Sea Victoria, o sistema de lubrificação a ar utiliza microbolhas sob o casco para reduzir o atrito com a água, reduzindo entre 5% e 12% o consumo de combustível, com potencial de evitar 3,4 mil toneladas anuais de CO₂e equivalente por embarcação. O setor também avança com o uso de metanol verde e biocombustíveis, já adotados pela Maersk e testados no Brasil em embarcações movidas a biodiesel e etanol. O cargueiro Laura Maersk, por exemplo, emite cerca de 100 toneladas a menos de CO₂e por dia em comparação com navios de mesmo porte. 

As soluções para a descarbonização marítima buscam atender regras de impacto global, como o Green Deal, da União Europeia, que estabeleceu padrões de emissões para cadeias de fornecimento, exigindo relatórios detalhados e impondo taxas sobre produtos intensivos em carbono, como aço e alumínio. Mais recentemente, o pacote Omnibus, também europeu, abriu a possibilidade de flexibilizar prazos e regras, em resposta às pressões por competitividade.

Medindo para reduzir: inventários e escopos

No Brasil, a aprovação da Lei 15.042/2024 criou o mercado regulado de carbono, formalizando regras para quantificação, auditoria e comercialização de créditos. O mecanismo obriga empresas que emitem acima de 10 mil toneladas de CO₂ equivalente por ano a compensar suas emissões por meio da compra de créditos. No caso da mineração, isso significa que iniciativas como reflorestamento, uso de energias renováveis e recuperação de áreas degradadas podem não apenas reduzir a pegada ambiental, mas também gerar receitas adicionais.

Reflorestamento na floresta mista através da plantação de árvores jovens
Foto: Dietrich Leppert/ Shutterstock

A convergência entre regulação, mercado e inovação tecnológica estabelece um novo padrão e, operar com baixa emissão de carbono deixou de ser apenas uma questão de imagem: tornou-se critério de acesso a capital, mercados e contratos globais.

O ponto de partida para a descarbonização está no diagnóstico. O Programa Brasileiro do GHG Protocol, coordenado pelo FGVces, registrou em 2025 um crescimento recorde: 1,3 mil inventários de emissões, envolvendo 673 organizações. Isto significa aumento de 25% em relação ao ano anterior. No setor mineral, ao menos 16 organizações já publicaram inventários até 2025.

No retrato geral do programa, incluindo as 673 organizações de setores variados, o Escopo 1 respondeu por 88% das emissões setoriais, ou 11,29 milhões de toneladas de CO₂ equivalente. Isto se refere às emissões diretas da operação, majoritariamente relacionadas ao uso de diesel em caminhões e equipamentos. 

O Escopo 2, ligado à aquisição de energia elétrica, somou 1,47 milhão de toneladas. Já o Escopo 3, de caráter indireto – envolvendo principalmente a cadeia de fornecedores -, representou 762 milhões de toneladas de CO₂ equivalente..

A gestão do Escopo 3 é considerada a fronteira mais difícil, pois envolve fornecedores e clientes. Para melhorar o controle e acelerar a descarbonização nesse perímetro, desde 2020 a Vale mantém parceria com o Carbon Disclosure Project, estimulando fornecedores a reportar suas emissões. O engajamento saltou de 55% para 98%, com a adesão de 575 empresas e o reporte de 350 milhões de toneladas de CO₂. Além disso, a mineradora já firmou acordos com mais de 50 clientes para desenvolver soluções conjuntas, como o briquete de minério de ferro e aglomerantes, capazes de reduzir em até 10% as emissões da indústria siderúrgica.

Sustentabilidade em terra: caminhões elétricos e concreto ecológico

Caminhão 100% elétrico da Vale.
Foto: Vale/ Divulgação

A Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) desenvolve um concreto asfáltico ecológico que incorpora resíduos do processamento de minério de ferro. O material substitui até 50% do cimento utilizado na mistura de concreto compactado a rolo de uma rodovia. A proposta é que mineradoras também utilizem a tecnologia em suas vias internas, reduzindo custos e emissões de forma integrada.

Outras frentes incluem a eletrificação. Na mina de Carajás (PA), por exemplo, a Vale utiliza caminhões fora de estrada Caterpillar 793F, com capacidade de até 320 toneladas para o transporte interno de minério. No mesmo complexo, o Sistema Norte da Vale opera em modelo truckless – em que correias transportadoras dispensam a necessidade de veículos -, reduzindo em cerca de 70% o consumo de diesel e em 50% as emissões de CO₂ associadas ao transporte.

Captura e uso de carbono: CCS, CCUS e BECCS

O horizonte tecnológico inclui ainda soluções de captura de carbono. Durante workshop do Ministério de Minas e Energia em 2025, foi apresentado o estudo The Low-Carbon Future of Brazil, elaborado pela USP e pela Universidade de Amsterdam, mostrando que tecnologias como CCS (Captura e Armazenamento de Carbono), CCUS (Captura, Utilização e Armazenamento de Carbono) e BECCS (Bioenergia com Captura e Armazenamento de Carbono) poderiam reduzir em mais de 80% as emissões em operações e regiões diversas.

A CCS Brasil estima que o país tem condições técnicas de capturar até 190 milhões de toneladas de CO₂ por ano, movimentando entre US$ 14 bilhões e US$ 20 bilhões em receitas, dependendo do valor do crédito de carbono.

Já existem iniciativas em curso, inclusive na mineração. A Vale testa hidrogênio verde em processos de redução de minério, enquanto a Gerdau pesquisa CCUS em plantas siderúrgicas, por exemplo. Já a Nexa Resources se comprometeu a operar 100% de suas unidades no Brasil com energia renovável.

Preservação de florestas e uso do território

Mina do Pico em Itabirito da Vale
Mina do Pico – Itabirito (Foto: Vale/ Léo Lopes)

A mineração também enfrenta o desafio da localização em áreas ambientalmente sensíveis e, por isso, o Plano Nacional de Mineração 2050 propõe caminhos de conciliação entre atividade mineral e preservação de florestas.

Entre as diretrizes estão o planejamento estratégico que considera a biodiversidade desde a fase de projeto. O uso de tecnologias de prospecção menos invasivas e a adoção do conceito Design for Closure, que prevê o uso futuro da área minerada já na concepção da mina, também estão no rol de propostas.

A governança é outro ponto crítico. A “licença social para operar” depende de diálogo transparente com comunidades e de contrapartidas socioambientais, integrando critérios ESG ao longo de todo o ciclo do empreendimento.

O retrato do setor e a oportunidade global

Os dados mais recentes mostram que a mineração brasileira responde por apenas 0,55% das emissões nacionais. As empresas também avançaram em transparência: se em 2023 cerca de 75% não divulgavam seus inventários de emissões, em 2025 esse número caiu para apenas 25%. Além disso, o Brasil se destaca pelo uso de energia elétrica renovável em sua produção mineral, que já corresponde a 85% da matriz utilizada pelo setor, um índice três vezes superior à média mundial, de 27%.

Além disso, o país ocupa posição estratégica na oferta de minerais críticos para a transição energética, como cobre, níquel, lítio e cobalto. Esses minerais são indispensáveis para a produção de turbinas eólicas, baterias de veículos elétricos, painéis solares e sistemas de armazenamento de energia.

Dúvidas mais comuns

A descarbonização na mineração refere-se à redução de emissões de gases de efeito estufa em todas as etapas da atividade, desde a extração até o transporte. É importante porque a mineração é uma das primeiras etapas de cadeias produtivas globais e está sendo impulsionada por investidores, reguladores e sociedade para alcançar competitividade de baixo carbono. Operar com baixa emissão de carbono deixou de ser apenas questão de imagem e tornou-se critério de acesso a capital, mercados e contratos globais.

De acordo com o Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Setor Mineral 2024, do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), a indústria mineral responde por apenas 0,55% das emissões totais do Brasil, equivalente a cerca de 12,77 milhões de toneladas de CO₂e. Embora o índice seja relativamente baixo em comparação a outras atividades, o setor mineral estabeleceu metas ambiciosas para alcançar a neutralidade de carbono entre 2030 e 2040.

As soluções incluem: transição para energias renováveis (85% da matriz de energia elétrica do setor mineral brasileiro já é renovável), eletrificação de veículos e equipamentos, captura e armazenamento de carbono (CCS, CCUS e BECCS), uso de biocombustíveis e metanol verde no transporte marítimo, otimização de rotas e embarcações, e implementação de tecnologias como velas rotativas e sistemas de lubrificação a ar em navios. Além disso, o uso de concreto ecológico e sistemas truckless reduzem emissões em operações terrestres.

O transporte marítimo é crucial na descarbonização porque rotas de exportação de minério de ferro, cobre e bauxita respondem por uma parcela significativa das emissões. Navios como o Valemax, com capacidade de até 400 mil toneladas, concentram o volume equivalente a duas viagens em uma única operação, reduzindo cerca de 3 mil toneladas de CO₂ equivalente por navio anualmente. Tecnologias como velas rotativas de 35 metros, sistemas de lubrificação a ar e o uso de metanol verde e biocombustíveis reduzem ainda mais as emissões no transporte marítimo.

A Lei 15.042/2024 criou o mercado regulado de carbono no Brasil, formalizando regras para quantificação, auditoria e comercialização de créditos. O mecanismo obriga empresas que emitem acima de 10 mil toneladas de CO₂ equivalente por ano a compensar suas emissões por meio da compra de créditos. Para a mineração, isso significa que iniciativas como reflorestamento, uso de energias renováveis e recuperação de áreas degradadas podem não apenas reduzir a pegada ambiental, mas também gerar receitas adicionais através da venda de créditos de carbono.

A medição segue o GHG Protocol com três escopos: Escopo 1 (emissões diretas da operação, principalmente diesel em caminhões e equipamentos) respondeu por 88% das emissões setoriais; Escopo 2 (aquisição de energia elétrica) somou 1,47 milhão de toneladas; e Escopo 3 (emissões indiretas da cadeia de fornecedores e clientes) representou 762 milhões de toneladas. O Escopo 3 é considerado a fronteira mais difícil, mas a Vale aumentou o engajamento de fornecedores de 55% para 98%, com 575 empresas reportando 350 milhões de toneladas de CO₂.

O Brasil possui vantagens estratégicas significativas: 85% da matriz de energia elétrica do setor mineral já é renovável, um índice três vezes superior à média mundial de 27%. Além disso, o país ocupa posição estratégica na oferta de minerais críticos para a transição energética, como cobre, níquel, lítio e cobalto, indispensáveis para turbinas eólicas, baterias de veículos elétricos, painéis solares e sistemas de armazenamento de energia. A transparência também melhorou: em 2025, apenas 25% das empresas não divulgam seus inventários de emissões, contra 75% em 2023.

Tecnologias como CCS (Captura e Armazenamento de Carbono), CCUS (Captura, Utilização e Armazenamento de Carbono) e BECCS (Bioenergia com Captura e Armazenamento de Carbono) poderiam reduzir em mais de 80% as emissões em operações diversas. O Brasil tem condições técnicas de capturar até 190 milhões de toneladas de CO₂ por ano, movimentando entre US$ 14 bilhões e US$ 20 bilhões em receitas. Empresas como Vale já testam hidrogênio verde em processos de redução de minério, enquanto a Gerdau pesquisa CCUS em plantas siderúrgicas.