BELO HORIZONTE. Para a descarbonização do setor mineral avançar é preciso unir indústrias, consolidar uma visão compartilhada e estruturar coalizões estratégicas. Essa foi a principal conclusão do painel “Articulação multissetorial para promoção da descarbonização no setor mineral”, realizado na última quinta-feira (27), durante a Exposibram 2026.
O debate apontou que a transição energética e a redução de emissões na atividade extrativa não avançam de forma isolada. Ganham tração por meio de uma agenda de cooperação intersetorial, o que exige conexões efetivas entre a mineração, o governo e outras cadeias produtivas.

A gerente de Sustentabilidade do Ibram e moderadora do painel, Claudia Franco de Salles Dias, afirmou que as empresas empenhadas em reduzir emissões precisam entender que elas “não se resumem às suas atividades específicas, mas a um jogo de setores envolvidos”.

A gerente-geral de Mudanças Climáticas e Descarbonização da Vale, Vivian Mac Knight, complementou o argumento. Segundo ela, as metas corporativas ajudam a ganhar maturidade e previsibilidade no portfólio de emissões, mas os gargalos mais complexos exigem soluções conjuntas. “Quais são as soluções dentro de uma visão compartilhada que podem ser usadas por vários setores?”, questionou. Vivian apontou as coalizões como forma de acelerar respostas comuns, entre elas o uso de biocombustíveis como alavanca de transição. “A descarbonização ganha força com uma agenda de colaboração”, disse.

O diretor de Sustentabilidade para as Américas na dss+, Matthew John Govier, lembrou que o ciclo minerário é longo, de cerca de 16 anos entre a descoberta da mina e a produção. Por isso, quem investe em mineração aposta em um mercado futuro. “O que dá para saber é que poluir vai ficar cada vez mais caro, portanto é preciso manter vivas oportunidades que podem ser economicamente viáveis no futuro. Ou seja: inovação”, afirmou Govier.
Capacitação é gargalo imediato
Coalizões e tecnologias não se sustentam sem profissionais qualificados para operar a transição. O superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI (Confederação Nacional da Indústria), Davi Bomtempo, colocou a qualificação profissional entre as prioridades imediatas do setor produtivo.

A carência técnica foi exemplificada pelo coordenador-geral de Regulação da Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono, do Ministério da Fazenda, Henrique Paiva de Paula. Ele afirmou que a pasta está focada em criar capacidade institucional e governança para regulamentar o mercado de carbono no país, mas destacou um gargalo humano imediato.
“Falamos muito em capacitação, em pessoas, este foco é muito relevante. Um exemplo: a área de verificação. Temos verificadores, apenas 18 no Brasil. Este é um gargalo e precisamos capacitar gente para isso”, disse Paula.
Financiamento e custo de capital
O terceiro desafio discutido no painel é a viabilidade econômica da transição, já que a implementação de tecnologias limpas exige alto volume de capital. Bomtempo foi direto ao afirmar que “a agenda de baixo carbono custa caro”.
O executivo da CNI apontou as barreiras financeiras locais como entrave ao avanço das metas de descarbonização. “Como acessar esse financiamento? As taxas de juros no Brasil são muito altas e isso dificulta o acesso”, disse.
Segundo Paula, o governo federal tem trabalhado em mecanismos de atração de recursos, como a taxonomia sustentável e o programa Eco Invest Brasil. “Temos o Eco Invest, que é o instrumento de financiamento que enfrenta o desafio do custo de descarbonização, onde a mineração entrou no terceiro e no quinto leilão”, afirmou o coordenador-geral.
A integração entre finanças públicas e atividade mineral aparece, assim, como caminho para mitigar riscos e viabilizar a descarbonização em condições competitivas.