João Leal, gestor de Política Climática do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds)
João Leal (Divulgação/ Arte)

Descarbonizar a mineração exige preço de carbono, tecnologia e financiamento, diz Cebds

Gestor de Política Climática do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável, João Leal detalha condições necessárias para descarbonização e desafios para o setor

Por Redação, 6 min de leitura

Publicado em 07/11/2025

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  • A descarbonização da mineração brasileira requer cinco condições fundamentais: precificação de carbono, investimento em tecnologias limpas, infraestrutura adequada, instrumentos financeiros verdes e demanda garantida por produtos de baixo carbono.
  • O setor mineral pode reduzir emissões em até 90% até 2050 através de biocombustíveis, eletrificação de frotas, energia renovável e eficiência operacional, com investimentos estimados entre R$ 77 bilhões e R$ 94 bilhões em tecnologias de baixo carbono.
  • O Brasil possui vantagem competitiva em minerais críticos para a transição energética global, como lítio e níquel, posicionando o país como protagonista na oferta de insumos essenciais para baterias, veículos elétricos e energias renováveis.
Resumo revisado pela redação.

Em outubro, o setor mineral entregou ao presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, o estudo da Coalizão Minerais Essenciais, mostrando os caminhos para a descarbonização do segmento. Entre eles, conforme ressalta João Leal, gestor de Política Climática do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), estão o avanço do debate sobre mercado de carbono, precificação e desenvolvimento de novas tecnologias, bem como incentivos financeiros e regulação do mercado. 

“O estudo amplia a visibilidade das iniciativas sustentáveis da mineração brasileira e, na COP, o objetivo é levar esses estudos a uma audiência internacional mais ampla”, disse o executivo, em entrevista ao Radar Mineração.

O Cebds, ao lado da Vale e do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), foi responsável por coordenar a elaboração do documento, o qual aponta que o setor tem potencial para reduzir suas emissões em até 90% até 2050. “Precisamos unir liderança empresarial, ciência e cooperação multissetorial para transformar desafios em oportunidades”, afirma Leal. 

Segundo ele, durante a COP30, o foco é divulgar os avanços do setor em sustentabilidade, contribuir com a agenda de negociações climáticas e fortalecer a articulação com o setor público brasileiro e com parceiros globais. “A expectativa é posicionar o setor mineral como um ator relevante na transição para uma economia de baixo carbono, promovendo sua internacionalização e atraindo investimentos sustentáveis”, destaca. Confira a entrevista na íntegra. 

Quais os principais pontos da Coalizão Minerais Essenciais? 

O trabalho foi conduzido ao longo de meses, em workshops e análises técnicas, para consolidar as recomendações entregues à presidência da COP30 e ao governo federal.

A Coalizão analisou três grandes frentes de contribuição do setor mineral. A primeira é a redução das emissões diretas da mineração brasileira, mostrando que é viável cortar até um terço das emissões do setor até 2035.

A segunda é a cadeia global do ferro, na qual o Brasil pode ser decisivo ao oferecer insumos de baixo carbono, ajudando a siderurgia mundial a avançar em seu processo de descarbonização. 

E a terceira é a expansão de minerais críticos, como o lítio, níquel, nióbio e terras raras, metais fundamentais para baterias, veículos elétricos, energia solar e eólica. Esses minerais podem colocar o Brasil como protagonista na oferta global de insumos essenciais para a transição energética.

O relatório entregue ao presidente da COP30 apresenta uma meta ambiciosa de redução de 90% das emissões do setor de mineração até 2050. Como as empresas podem começar a se preparar para isso?

Pessoa entregando um relatório em uma mesa de escritório, com uma pessoa entregando o documento.
Foto: SuperOhMo / Shutterstock

As principais alavancas para isso são uso de biocombustíveis, eletrificação de frotas, expansão do uso de energia renovável, ganhos de eficiência e recuperação de áreas para neutralizar emissões residuais. 

Alguns pontos, como atingir parâmetros científicos que contabilizem as remoções, estão fora do alcance das empresas. Mas existem ações concretas que podem ser feitas, como o uso de diesel verde, a eletrificação de veículos ou de processos para a extração de minas. Promover alavancas inovadoras com menos emissões, como o desenvolvimento de novos briquetes pela Vale, é essencial para descarbonizar todas as etapas da cadeia de valor.  Para catalisar esta transição, as empresas precisam de incentivos financeiros e regulatórios. 

Como os eixos definidos pela Coalizão se conectam às metas de redução de emissões da mineração brasileira?

Lembrando que os três eixos são redução das emissões diretas das atividades da mineração, a descarbonização da cadeia de valor do ferro e a expansão de minerais críticos. Enquanto este último eixo está conectado ao papel que os minerais extraídos no Brasil podem ter na busca global pela descarbonização, os outros dois estão mais ligados às emissões da própria cadeia de valor.  A maior parte das emissões do setor de minérios não está nos Escopos 1 (emissões diretas das atividades) ou 2 (relacionadas com o Transporte). Estão no Escopo 3 (emissões promovidas por empresas da cadeia de valor). 

Conseguir promover mecanismos para a descarbonização da siderurgia brasileira, em especial a adoção de processos de eletrificação para substituir insumos industriais com mais emissões de carbono, ajudaria a reduzir as emissões ao longo da cadeia de valor dos minerais extraídos. 

Glossário da Mineração

Escopo 1

Emissões diretas de gases de efeito estufa (GEE) provenientes de fontes controladas pela empresa. Na mineração, incluem combustão em equipamentos móveis (caminhões, escavadeiras), explosivos, geradores a diesel, caldeiras e processos industriais próprios. São as emissões sob controle direto da operação, mensuradas para inventários de carbono e metas climáticas.

Escopo 2

Emissões indiretas de gases de efeito estufa (GEE) provenientes da geração de energia elétrica, calor ou vapor adquiridos e consumidos pela empresa. Refere-se principalmente às emissões da eletricidade comprada da rede para operar equipamentos fixos, beneficiamento, iluminação e sistemas auxiliares. Dependem da matriz energética do fornecedor.

Escopo 3

Emissões indiretas de gases de efeito estufa (GEE) na cadeia de valor, fora do controle direto da empresa. Na mineração, incluem transporte terceirizado de minério, emissões de fornecedores, processamento do produto pelos clientes (uso do aço ou alumínio), viagens corporativas e logística upstream e downstream. Representam a maior parte das emissões totais.

Descarbonização

Processo de redução progressiva das emissões de gases de efeito estufa, especialmente CO₂, visando a alcançar neutralidade de carbono. Na mineração, envolve eletrificação de frotas, substituição de combustíveis fósseis por energias renováveis, eficiência energética, uso de tecnologias de captura de carbono e otimização de processos industriais.

Existem desafios para alcançar essa proposta? Poderia detalhá-los e explicar como o estudo sugere superar as barreiras?

Para que esse potencial se torne realidade, a Coalizão aponta cinco condições fundamentais, que vão além do setor mineral e exigem colaboração com toda a cadeia de valor, financiadores e setor público. A primeira delas diz respeito ao cenário regulatório-econômico. É preciso ter incentivos econômicos e precificação de carbono que viabilizem a descarbonização, além de regulação que permita a expansão sustentável da produção mineral e de cadeias de processamento. 

O investimento em tecnologias críticas com maturidade técnica e viabilidade econômica, considerando precificação de carbono, e em infraestrutura (rede de logística, energia e armazenamento com capilaridade e capacidade suficientes) são outras duas condições consideradas essenciais.

A Coalizão também aponta a necessidade de instrumentos financeiros verdes e taxonomias sustentáveis para reduzir riscos e ampliar o acesso à capital. E, por fim, cita como quinta condição o Green premium e cadeia de valor, um ecossistema integrado com previsibilidade de demanda por produtos de baixo carbono e mecanismos de rastreabilidade.

A Coalizão aponta o Brasil como um dos países com maior potencial para apoiar a transição global por meio da oferta de minerais críticos. Como podemos transformar essa vantagem geológica em vantagem competitiva sustentável?

O Brasil tem uma grande diversidade mineralógica que precisa ser mapeada para que se haja mais precisão de como explorá-la, de forma a promover o desenvolvimento sustentável do país, saciar em parte a demanda por novos minerais advinda da necessidade da descarbonização global e respeitar os direitos humanos dos povos locais no território brasileiro. 

Nos últimos meses, o Brasil tem desenvolvido políticas públicas para ter maior clareza sobre a questão dos minerais, em parte por demandas históricas da mineração brasileira, em parte por conta da dimensão central que os minerais nacionais têm ocupado nas discussões com os Estados Unidos e o aumento de tarifas realizado pelo presidente Trump. Políticas públicas neste sentido incluem a  Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), atualmente em fase de consulta pública e em tramitação na Câmara. 

Como o setor pretende se inserir na transformação das rotas siderúrgicas mundiais, com maior uso de hidrogênio e biocombustíveis?

Em comparação com grandes produtores de aço mundiais, como a China, uma das principais vantagens competitivas do aço brasileiro é sua baixa emissão de carbono. Para que esta vantagem seja reconhecida e se traduza em mais investimentos, a Coalizão reforça a importância dos habilitadores internacionais, como padrões globais de contabilidade de carbono e mecanismos de cooperação. 

De um ponto de vista prático, a introdução de biocombustíveis no setor é uma maneira acessível e já possível operacionalmente para ajudar a descarbonização da mineração brasileira. O hidrogênio verde, por sua vez, é uma tecnologia que ainda não atingiu seu processo de maturidade comercial. O Brasil já conta com células capazes de produzir o hidrogênio verde, mas o país carece de quantidade de produção e de estimativas mais precisas sobre a demanda nacional e global para conseguir impulsionar este mercado. Quando o fizer, no entanto, o Brasil estará bem posicionado para transformar sua experiência com energias limpas e baratas em uma vantagem competitiva para a exportação de hidrogênio e o uso do combustível por indústrias no país. 

Há estimativas de investimento ou parcerias em curso para essas tecnologias dentro da Coalizão?

A Coalizão de Minerais não promoveu um estudo financeiro sobre a necessidade de financiamento para implementar as alavancas. No entanto, há a estimativa de que a eletrificação da frota de caminhões fora de estrada e equipamentos como pás e LHDs e a adoção de soluções power-to-X no Brasil representam uma oportunidade de investimentos da ordem de R$ 77 bilhões a R$ 94 bilhões. Este montante seria capaz de transformar a logística da mineração e atrair capital para tecnologias de baixo carbono.

Como o Cebds equilibra o papel de articulador setorial com a necessidade de resultados concretos em sustentabilidade e métricas de carbono?

O modelo de Coalizões desenvolvido pelo Cebds a pedido da Presidência da COP mostra que é possível unir liderança empresarial, ciência e cooperação multissetorial para transformar desafios em oportunidades, consolidando o Brasil como um ator estratégico da transição energética global. Para que o país consiga atingir os resultados concretos necessários para sua descarbonização, o setor privado e a diplomacia brasileira precisam estar alinhados em suas visões e principais demandas antes da COP sediada em nosso país.  

O preço do carbono foi indicado como determinante para a viabilidade econômica da descarbonização. Há consenso no setor sobre o valor de referência?

Uma planta crescendo entre pilhas de moedas de dinheiro, com um símbolo de CO2 e uma árvore verde ao topo, representando sustentabilidade e redução de carbono.
Foto: Dee karen / Shutterstock

Apesar de algumas estimativas já terem sido usadas pelo mercado e colocadas como valores de referências em estudos de precificação, ainda não há consenso sobre o valor de referência, mas há expectativas de que a recém-formada Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono consiga ajudar na implementação do mercado de carbono no Brasil. Em âmbito internacional, espera-se que o assunto também seja pautado na próxima COP por meio de um mercado comum entre países que já estão com seus mercados em estágio de operacionalização.

Dúvidas mais comuns

A Coalizão Minerais Essenciais é uma iniciativa coordenada pelo Cebds, Vale e Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) que apresenta caminhos para a descarbonização do setor mineral brasileiro. O estudo foi entregue ao presidente da COP30 e demonstra que o setor tem potencial para reduzir suas emissões em até 90% até 2050, posicionando a mineração brasileira como um ator relevante na transição para uma economia de baixo carbono.

Os três eixos são: (1) redução das emissões diretas da mineração brasileira, com potencial de cortar até um terço das emissões até 2035; (2) descarbonização da cadeia global do ferro, oferecendo insumos de baixo carbono para a siderurgia mundial; e (3) expansão de minerais críticos como lítio, níquel, nióbio e terras raras, fundamentais para baterias, veículos elétricos e energias renováveis, posicionando o Brasil como protagonista na transição energética global.

As principais alavancas incluem o uso de biocombustíveis, eletrificação de frotas e processos de extração, expansão do uso de energia renovável, ganhos de eficiência operacional e recuperação de áreas para neutralizar emissões residuais. Ações concretas como diesel verde, eletrificação de veículos e desenvolvimento de novos briquetes são essenciais para descarbonizar todas as etapas da cadeia de valor da mineração.

A Coalizão aponta cinco condições essenciais: (1) cenário regulatório-econômico com incentivos econômicos e precificação de carbono; (2) investimento em tecnologias críticas e infraestrutura de logística, energia e armazenamento; (3) instrumentos financeiros verdes e taxonomias sustentáveis para reduzir riscos; (4) green premium e cadeia de valor com previsibilidade de demanda por produtos de baixo carbono; e (5) mecanismos de rastreabilidade integrados no ecossistema.

O Brasil possui grande diversidade mineralógica que precisa ser mapeada com precisão para exploração sustentável. A implementação da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), em tramitação na Câmara, é fundamental. Além disso, o país deve respeitar os direitos humanos das comunidades locais, atender à demanda global por novos minerais e estabelecer padrões globais de contabilidade de carbono para que sua vantagem competitiva em aço de baixa emissão seja reconhecida internacionalmente.

O preço de carbono é determinante para viabilizar economicamente a descarbonização da mineração, pois torna as tecnologias limpas competitivas. Embora ainda não haja consenso sobre um valor de referência, espera-se que a recém-formada Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono implemente o mercado de carbono no Brasil. Internacionalmente, busca-se estabelecer um mercado comum entre países para harmonizar a precificação.

Estima-se que a eletrificação da frota de caminhões fora de estrada, equipamentos como pás e LHDs, e a adoção de soluções power-to-X no Brasil representam uma oportunidade de investimentos entre R$ 77 bilhões e R$ 94 bilhões. Este montante seria capaz de transformar a logística da mineração e atrair capital para tecnologias de baixo carbono, catalisando a transição sustentável do setor.

O hidrogênio verde é uma tecnologia promissora para substituir insumos industriais com altas emissões de carbono na siderurgia. Embora ainda não tenha atingido maturidade comercial, o Brasil já possui células capazes de produzir hidrogênio verde e está bem posicionado para transformar sua experiência com energias limpas em vantagem competitiva. O país carece de quantidade de produção e estimativas precisas sobre demanda para impulsionar este mercado.