- Brasil recicla apenas 3% de seus 2,4 milhões de toneladas anuais de lixo eletrônico, desperdiçando ouro, prata, cobre, lítio e cobalto que poderiam ser recuperados pela mineração urbana.
- A mineração urbana depende de logística reversa estruturada, pontos de coleta acessíveis e mudança de comportamento do consumidor, conforme previsto na Política Nacional de Resíduos Sólidos.
- Universidades e empresas como Tupy expandem iniciativas de reciclagem de eletroeletrônicos e baterias, recuperando minerais estratégicos e reduzindo a necessidade de mineração convencional para a transição energética.
A evolução tecnológica e o lançamento de novos aparelhos no mercado ampliam a quantidade de eletroeletrônicos subutilizados, que podem ser verdadeiros tesouros esquecidos nas gavetas, como mostrou a reportagem publicada pelo Radar Mineração em março. De acordo com o Monitor Global de Resíduos Eletrônicos, da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2022 o Brasil gerou cerca de 2,4 milhões de toneladas de lixo eletrônico e apenas 3% receberam destinação adequada.
No cenário global, foram produzidas 62 milhões de toneladas em 2022, com previsão de atingir 82 milhões até 2030.Além do impacto ambiental, a baixa taxa de reciclagem impede o aproveitamento de materiais como ouro, prata, cobre, lítio e cobalto. Mas o avanço da chamada mineração urbana – processo de recuperação desses minerais a partir dos eletroeletrônicos descartados corretamente – depende, entre outros fatores, da ampliação da coleta, da disseminação de informações sobre descarte e da mudança de comportamento do consumidor.
O que é lixo eletrônico?
O termo costuma ser associado a dispositivos como celulares, notebooks, computadores, baterias e componentes destes equipamentos. Mas há uma gama bem maior de produtos que se enquadram na definição, como geladeiras, freezers, micro-ondas, cafeteiras, torradeiras, ventiladores, controles remotos e cabos, fones de ouvido, chapinhas e secadores de cabelo, escova de dentes elétrica e brinquedos infantis.
Como e onde descartar corretamente?

Diversas cidades contam com pontos de recebimento de eletroeletrônicos e eletrodomésticos. O sistema funciona por meio da logística reversa, na qual fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes são responsáveis pela destinação adequada dos produtos. Essa responsabilidade compartilhada está prevista na Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010).
A Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos (Abree), que reúne mais de 50 empresas, representando 170 marcas que coletam e desmontam produtos para reaproveitar materiais, disponibiliza em sua página um mapa interativo onde o interessado pode consultar, por meio do CEP, os pontos de coleta mais próximos.
A Abree também recomenda alguns cuidados antes do descarte:
- excluir dados pessoais dos dispositivos;
- separar os itens de outros tipos de resíduos;
- evitar desmontagem, devido à presença de substâncias potencialmente tóxicas.
Universidades ampliam iniciativas de coleta

Além dos pontos listados pela Associação, existem outras iniciativas, como a do Centro de Descarte e Reúso de Resíduos de Informática (Cedir), da Universidade de São Paulo (USP). Uma equipe técnica do programa avalia se o equipamento ainda pode ser utilizado e, em caso positivo, envia para reparo e depois encaminha para projetos sociais.
Os itens sem recuperação são encaminhados para a segunda etapa, a de categorização. Nela, os equipamentos são pesados, desmontados, descaracterizados e separados por tipo antes de serem encaminhados para reciclagem adequada. Desde 2009, a unidade já recebeu mais de 120 toneladas de materiais. O modelo foi replicado em Piracicaba, no campus Luiz de Queiroz (Cedir/Ciagri).
No Rio de Janeiro, o Parque Tecnológico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) também tem um programa semelhante, em parceria com as empresas Circoola (que faz a coleta gratuitamente) e Repense (que realiza a logística reversa e reciclagem dos resíduos).
Indústria Fox é destaque em economia circular e remanufatura
Um exemplo de atuação da cadeia de recuperação de resíduos minerais vem a Indústria Fox, que desde a sua fundação, há 15 anos, já reciclou mais de 850 mil equipamentos. A empresa atua nos segmentos de logística reversa, reciclagem de eletroeletrônicos e rastreabilidade de resíduos, recuperando metais estratégicos presentes em equipamentos eletrônicos que são reinseridos em cadeias produtivas com rastreabilidade, qualidade e eficiência industrial.

Segundo Marcelo Souza, CEO da organização, “a economia circular transforma a maneira como as empresas lidam com recursos, convertendo resíduos em valor, otimizando cadeias produtivas e promovendo consumo sustentável junto aos clientes. Esse modelo econômico permite reduzir riscos, gerar valor a partir de materiais antes considerados resíduos e promover impactos positivos para a sociedade”.
Entre as iniciativas de impactos social e ambiental promovidas ou apoiadas pela Fox, destacam-se o EletroSolidário, em parceria com a LBV e APAEs, que promove o descarte responsável de eletrônicos e inclusão social, por meio de parcerias que transformam os resídios em recursos para populações carentes, e o TudoBônus, marketplace brasileiro de eletrodomésticos remanufaturados, que comercializa produtos recondicionados, incentivando o consumo sustentável e o fechamento do ciclo de recursos.
Reciclagem de baterias traz novas perspectivas para recuperação de minérios
Além dos eletroeletrônicos de uso doméstico, a mineração urbana vem ganhando relevância também em uma segunda escala: a reciclagem de baterias de maior porte, como as utilizadas em veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia. Embora tenham origem distinta, essas iniciativas partem do mesmo princípio — a recuperação de minerais estratégicos a partir de resíduos — e ampliam o debate sobre segurança de suprimento, sustentabilidade e transição energética.
Vale destacar que o descarte incorreto de baterias é prejudicial ao meio ambiente, mas a boa notícia é que a reciclagem possibilita a recuperação de diversos materiais, como lítio, níquel e cobalto.

Uma das iniciativas recentes para isso veio da Tupy, que anunciou, em 16 de abril, o início das operações de sua planta-piloto para reciclagem de baterias, instalada no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), da Universidade de São Paulo. O projeto, que recebeu cerca de R$ 45 milhões em investimentos, marca um avanço estratégico da companhia na área de sustentabilidade e economia circular aplicada ao setor energético.
O projeto, criado em parceria com o Laboratório Larex, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, com apoio da Finep, tem capacidade para processar até 400 toneladas de baterias por ano — volume equivalente a quase mil veículos elétricos. A operação utiliza um modelo estruturado de logística reversa, com baterias provenientes de três frentes principais: empresas de eletrônicos, companhias ligadas à mobilidade elétrica — como montadoras e fabricantes de baterias — e operadores de sistemas de armazenamento de energia. A meta é aumentar a capacidade de reciclagem até 2028, com a entrega de um projeto para 10.000 toneladas anuais.

“A reciclagem tem um papel-chave de descarbonização, diminuindo necessidade de mineração e com isso também maior independência produtiva”, disse André Ferraresi, diretor de tecnologia e inovação da empresa, durante evento promovido pela Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA) em São Paulo.