Caixa plástica com lixo eletrônico para descarte correto contendo notebook, celular, secador de cabelo e extensões elétricas.
Foto: Pixel-Shot/ Shutterstock

Descarte adequado de eletroeletrônicos ainda é desafio para a mineração urbana

Apenas 3% dos eletroeletrônicos descartados no Brasil são encaminhados para reciclagem; falta conhecimento sobre como e onde reciclar os equipamentos

Por Redação, 5 min de leitura

Publicado em 04/05/2026

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  • Brasil recicla apenas 3% de seus 2,4 milhões de toneladas anuais de lixo eletrônico, desperdiçando ouro, prata, cobre, lítio e cobalto que poderiam ser recuperados pela mineração urbana.
  • A mineração urbana depende de logística reversa estruturada, pontos de coleta acessíveis e mudança de comportamento do consumidor, conforme previsto na Política Nacional de Resíduos Sólidos.
  • Universidades e empresas como Tupy expandem iniciativas de reciclagem de eletroeletrônicos e baterias, recuperando minerais estratégicos e reduzindo a necessidade de mineração convencional para a transição energética.
Resumo revisado pela redação.

A evolução tecnológica e o lançamento de novos aparelhos no mercado ampliam a quantidade de eletroeletrônicos subutilizados, que podem ser verdadeiros tesouros esquecidos nas gavetas, como mostrou a reportagem publicada pelo Radar Mineração em março. De acordo com o Monitor Global de Resíduos Eletrônicos, da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2022 o Brasil gerou cerca de 2,4 milhões de toneladas de lixo eletrônico e apenas 3% receberam destinação adequada. 

No cenário global, foram produzidas 62 milhões de toneladas em 2022, com previsão de atingir 82 milhões até 2030.Além do impacto ambiental, a baixa taxa de reciclagem impede o aproveitamento de materiais como ouro, prata, cobre, lítio e cobalto. Mas o avanço da chamada mineração urbana – processo de recuperação desses minerais a partir dos eletroeletrônicos descartados corretamente – depende, entre outros fatores, da ampliação da coleta, da disseminação de informações sobre descarte e da mudança de comportamento do consumidor.

O que é lixo eletrônico?

O termo costuma ser associado a dispositivos como celulares, notebooks, computadores, baterias e componentes destes equipamentos. Mas há uma gama bem maior de produtos que se enquadram na definição, como geladeiras, freezers, micro-ondas, cafeteiras, torradeiras, ventiladores, controles remotos e cabos, fones de ouvido, chapinhas e secadores de cabelo, escova de dentes elétrica e brinquedos infantis.

Como e onde descartar corretamente?

Prefeitura de Manaus e Abree realizam drive-thru de eletroeletrônico e eletrodomésticos pós-consumo
Prefeitura de Manaus e Abree realizam drive-thru de eletroeletrônico e eletrodomésticos pós-consumo. (Foto: Prefeitura de Manaus)

Diversas cidades contam com pontos de recebimento de eletroeletrônicos e eletrodomésticos. O sistema funciona por meio da logística reversa, na qual fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes são responsáveis pela destinação adequada dos produtos. Essa responsabilidade compartilhada está prevista na Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010). 

A Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos (Abree), que reúne mais de 50 empresas, representando 170 marcas que coletam e desmontam produtos para reaproveitar materiais, disponibiliza em sua página um mapa interativo onde o interessado pode consultar, por meio do CEP, os pontos de coleta mais próximos. 

A Abree também recomenda alguns cuidados antes do descarte:

  • excluir dados pessoais dos dispositivos;
  • separar os itens de outros tipos de resíduos;
  • evitar desmontagem, devido à presença de substâncias potencialmente tóxicas.

Universidades ampliam iniciativas de coleta

Centro de Descarte e Reúso de Resíduos de Informática
Foto: CEDIR

Além dos pontos listados pela Associação, existem outras iniciativas, como a do Centro de Descarte e Reúso de Resíduos de Informática (Cedir), da Universidade de São Paulo (USP). Uma equipe técnica do programa avalia se o equipamento ainda pode ser utilizado e, em caso positivo, envia para reparo e depois encaminha para projetos sociais. 

Os itens sem recuperação são encaminhados para a segunda etapa, a de categorização. Nela, os equipamentos são pesados, desmontados, descaracterizados e separados por tipo antes de serem encaminhados para reciclagem adequada. Desde 2009, a unidade já recebeu mais de 120 toneladas de materiais. O modelo foi replicado em Piracicaba, no campus Luiz de Queiroz (Cedir/Ciagri). 

No Rio de Janeiro, o Parque Tecnológico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) também tem um programa semelhante, em parceria com as empresas Circoola (que faz a coleta gratuitamente) e Repense (que realiza a logística reversa e reciclagem dos resíduos).

Indústria Fox é destaque em economia circular e remanufatura

Um exemplo de atuação da cadeia de recuperação de resíduos minerais vem a Indústria Fox, que desde a sua fundação, há 15 anos, já reciclou mais de 850 mil equipamentos. A empresa atua nos segmentos de logística reversa, reciclagem de eletroeletrônicos e rastreabilidade de resíduos, recuperando metais estratégicos presentes em equipamentos eletrônicos que são reinseridos em cadeias produtivas com rastreabilidade, qualidade e eficiência industrial.

Marcelo Souza - CEO da Indústria Fox
Marcelo Souza, CEO da Indústria Fox. (Foto: Divulgação/ Arquivo pessoal)

Segundo Marcelo Souza, CEO da organização, “a economia circular transforma a maneira como as empresas lidam com recursos, convertendo resíduos em valor, otimizando cadeias produtivas e promovendo consumo sustentável junto aos clientes. Esse modelo econômico permite reduzir riscos, gerar valor a partir de materiais antes considerados resíduos e promover impactos positivos para a sociedade”.

Entre as iniciativas de impactos social e ambiental promovidas ou apoiadas pela Fox, destacam-se o EletroSolidário, em parceria com a LBV e APAEs, que promove o descarte responsável de eletrônicos e inclusão social, por meio de parcerias que transformam os resídios em recursos para populações carentes, e o TudoBônus, marketplace brasileiro de eletrodomésticos remanufaturados, que comercializa produtos recondicionados, incentivando o consumo sustentável e o fechamento do ciclo de recursos.

Reciclagem de baterias traz novas perspectivas para recuperação de minérios

Além dos eletroeletrônicos de uso doméstico, a mineração urbana vem ganhando relevância também em uma segunda escala: a reciclagem de baterias de maior porte, como as utilizadas em veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia. Embora tenham origem distinta, essas iniciativas partem do mesmo princípio — a recuperação de minerais estratégicos a partir de resíduos — e ampliam o debate sobre segurança de suprimento, sustentabilidade e transição energética.

Vale destacar que o descarte incorreto de baterias é prejudicial ao meio ambiente, mas a boa notícia é que a reciclagem possibilita a recuperação de diversos materiais, como lítio, níquel e cobalto. 

Escavadeira amarela utiliza eletroímã para movimentar sucata metálica em um pátio de reciclagem tupy
Foto: Tupy

Uma das iniciativas recentes para isso veio da Tupy, que anunciou, em 16 de abril, o início das operações de sua planta-piloto para reciclagem de baterias, instalada no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), da Universidade de São Paulo. O projeto, que recebeu cerca de R$ 45 milhões em investimentos, marca um avanço estratégico da companhia na área de sustentabilidade e economia circular aplicada ao setor energético.

O projeto, criado em parceria com o Laboratório Larex, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, com apoio da Finep, tem capacidade para processar até 400 toneladas de baterias por ano — volume equivalente a quase mil veículos elétricos. A operação utiliza um modelo estruturado de logística reversa, com baterias provenientes de três frentes principais: empresas de eletrônicos, companhias ligadas à mobilidade elétrica — como montadoras e fabricantes de baterias — e operadores de sistemas de armazenamento de energia. A meta é aumentar a capacidade de reciclagem até 2028, com a entrega de um projeto para 10.000 toneladas anuais. 

André Ferraresi, diretor de tecnologia e inovação da Tupy.
André Ferraresi, diretor de tecnologia e inovação da Tupy. (Foto: Associação Brasileira de Engenharia Automotiva)

“A reciclagem tem um papel-chave de descarbonização, diminuindo necessidade de mineração e com isso também maior independência produtiva”, disse André Ferraresi, diretor de tecnologia e inovação da empresa, durante evento promovido pela Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA) em São Paulo. 

Dúvidas mais comuns

Lixo eletrônico refere-se a eletroeletrônicos descartados, incluindo celulares, notebooks, computadores, baterias e componentes destes equipamentos. Mas a definição é bem mais ampla e abrange também geladeiras, freezers, micro-ondas, cafeteiras, torradeiras, ventiladores, controles remotos, cabos, fones de ouvido, chapinhas, secadores de cabelo, escovas de dentes elétricas e brinquedos infantis. Qualquer dispositivo que funcione com eletricidade e seja descartado pode ser considerado lixo eletrônico.

De acordo com o Monitor Global de Resíduos Eletrônicos da ONU, em 2022 o Brasil gerou cerca de 2,4 milhões de toneladas de lixo eletrônico, mas apenas 3% receberam destinação adequada. Globalmente, foram produzidas 62 milhões de toneladas em 2022, com previsão de atingir 82 milhões até 2030. Essa baixa taxa de reciclagem impede o aproveitamento de materiais valiosos como ouro, prata, cobre, lítio e cobalto.

O processo de reciclagem envolve várias etapas: desmontagem dos aparelhos (manualmente ou por máquinas especializadas), separação dos materiais por tipo, processamento dos materiais recuperados, transformação em novos produtos e recuperação de metais preciosos. Instituições como o Cedir da USP seguem um modelo onde equipamentos são avaliados para possível reparo e reuso, e os itens sem recuperação são categorizados, pesados, desmontados e separados antes de serem encaminhados para reciclagem adequada.

Diversas cidades contam com pontos de recebimento de eletroeletrônicos através da logística reversa, onde fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes são responsáveis pela destinação adequada. A Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos (Abree) disponibiliza um mapa interativo onde é possível consultar os pontos de coleta mais próximos pelo CEP. Também existem iniciativas em universidades como o Cedir da USP e programas em parceria com empresas especializadas. Antes do descarte, recomenda-se excluir dados pessoais dos dispositivos, separar os itens de outros resíduos e evitar desmontagem devido à presença de substâncias potencialmente tóxicas.

Mineração urbana é o processo de recuperação de minerais estratégicos como ouro, prata, cobre, lítio e cobalto a partir de eletroeletrônicos descartados corretamente. Sua importância está em aproveitar materiais valiosos que seriam perdidos, reduzindo a necessidade de mineração tradicional, diminuindo impactos ambientais e promovendo maior independência produtiva. O avanço da mineração urbana depende da ampliação da coleta, disseminação de informações sobre descarte e mudança de comportamento do consumidor.

Do lixo eletrônico é possível recuperar diversos materiais valiosos, incluindo metais preciosos como ouro, prata e cobre, além de elementos estratégicos como lítio e cobalto. Equipamentos de computação, telecomunicações, televisores, monitores, telas, lâmpadas LED e painéis solares contêm esses materiais. A recuperação desses elementos permite sua reinserção em cadeias produtivas com rastreabilidade, qualidade e eficiência industrial, transformando resíduos em valor.

Universidades como a USP, através do Cedir (Centro de Descarte e Reúso de Resíduos de Informática), avaliam se equipamentos podem ser reparados e reutilizados em projetos sociais, ou os encaminham para reciclagem adequada. Desde 2009, o Cedir recebeu mais de 120 toneladas de materiais. O modelo foi replicado em Piracicaba no campus Luiz de Queiroz. A UFRJ também possui um programa semelhante através do Parque Tecnológico em parceria com empresas especializadas em coleta e logística reversa.

A reciclagem de baterias, especialmente as de veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia, permite a recuperação de minerais estratégicos como lítio, níquel e cobalto. Iniciativas como a planta-piloto da Tupy no IPT da USP, com capacidade para processar 400 toneladas de baterias por ano, demonstram avanços nessa área. A reciclagem tem papel-chave na descarbonização, diminuindo a necessidade de mineração tradicional e promovendo maior independência produtiva, além de contribuir para a transição energética sustentável.