Vista aérea de tanques de reservação de água de reúso na unidade de Tubarão, solução que fortalece a segurança hídrica e aumenta a eficiência da gestão da água na operação
Tanques de reservação de água de reúso na unidade de Tubarão, solução que fortalece a segurança hídrica e aumenta a eficiência da gestão da água na operação (Foto: Ricardo Teles/ Vale)

Disponibilidade de água é desafio para a mineração, aponta ICMM

Conselho Internacional de Mineração e Metais mapeia que mais de 60% de instalações de mineração e metalurgia do mundo estão expostas a altos níveis de indicadores de risco hídrico

Por Mariana Sgarioni, 3 min de leitura

Publicado em 03/08/2026 | Atualizado em 04/08/2026

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A crescente disputa pelo acesso à água tornou-se um dos principais desafios para a mineração global. Um levantamento recente do Conselho Internacional de Mineração e Metais (ICMM, na sigla em inglês) mostra que 65,7% das instalações de mineração e metalurgia no mundo estão expostas a elevados níveis de pelo menos um indicador de risco hídrico. 

O cenário preocupa porque a expansão da produção de minerais críticos, fundamentais para a transição energética, dependerá cada vez mais de um recurso natural que é finito, compartilhado e pressionado por múltiplos usos.

O estudo, denominado Global Mining and Metals Water Dataset, reúne informações de cerca de 12 mil instalações, entre minas, refinarias, fundições e plantas de processamento, e cruza esses dados com indicadores globais de risco hídrico desenvolvidos pelo Instituto de Recursos Mundiais (World Resources Institute) e pelo WWF. O objetivo é identificar como fatores como escassez, seca, inundações e variabilidade no abastecimento podem afetar a produção mineral.

Segundo o ICMM, o principal risco identificado não é apenas a disponibilidade física de água, mas a competição crescente entre a mineração, outras atividades industriais e o abastecimento das populações.

Recurso estratégico e limitado

A água desempenha papel essencial em praticamente todas as etapas da atividade mineral. Ao mesmo tempo, trata-se de um recurso fundamental de sobrevivência, cuja disponibilidade vem sendo pressionada pelo aumento da demanda, pela poluição e pelos efeitos das mudanças climáticas.

Essa realidade coloca a mineração diante do um desafio crescente de compartilhar o mesmo recurso utilizado para abastecimento humano, agricultura, indústria e geração de energia.

O relatório ressalta que, à medida que aumenta a demanda por minerais necessários para sistemas de energia limpa, cresce também a necessidade de planejamento integrado do uso da água e do território, conciliando interesses econômicos e sociais.

Entre as principais conclusões do estudo estão:

  • 65,7% das instalações de mineração e metalurgia apresentam elevado risco em pelo menos um indicador hídrico;
  • 38,2% estão localizadas em bacias com estresse hídrico alto ou extremamente alto, ou em áreas áridas onde a disponibilidade de água é muito limitada;
  • 27,4% enfrentam elevado risco de esgotamento dos recursos hídricos;
  • 27% estão sujeitas a alto risco de seca;
  • 14% apresentam elevada exposição a inundações;
  • 16,2% convivem com grande variabilidade anual no abastecimento de água;
  • 4,9% das operações sofrem simultaneamente três ou mais tipos de risco hídrico.

Segundo o mapeamento, esses riscos variam conforme a localização geográfica e o tipo de mineral produzido. Enquanto algumas operações enfrentam competição permanente pelo uso da água, outras convivem principalmente com secas, enchentes ou oscilações significativas na disponibilidade hídrica.

Minerais críticos

O relatório destaca que boa parte das operações ligadas à produção de minerais considerados estratégicos para a transição energética está localizada justamente em regiões de elevada vulnerabilidade hídrica.

No Chile, maior produtor mundial de cobre e um dos principais detentores de reservas de lítio, 85,8% das instalações enfrentam simultaneamente elevado estresse hídrico e grande variabilidade no abastecimento de água.

Na África e no Oriente Médio, 80,7% das instalações apresentam alto risco de seca. Já na Oceania, 74% convivem com forte variabilidade anual na disponibilidade hídrica.

Segundo o ICMM, esses fatores podem limitar a expansão futura da produção caso não sejam incorporados ao planejamento da atividade mineral.

“Nossa pesquisa mostra que a água já é uma questão material para o setor de mineração e metais. Se a exposição ao risco hídrico não for melhor compreendida e gerenciada em toda a economia, corremos o risco de nos depararmos, sem perceber, com um grande obstáculo à transição energética”, afirmou Emma Gagen, diretora de Dados e Pesquisa do ICMM.

Planejamento 

A diretora global dos Programas de Alimentos, Terra e Água do Instituto de Recursos Mundiais (WRI), Crystal Davis, avalia que a expansão da mineração de minerais críticos exige informações públicas e confiáveis para orientar decisões.

Crystal Davis, diretora global dos Programas de Alimentos, Terra e Água do WRI
Crystal Davis (Foto: G20 Global Land Initiative)

“Com o aumento global da mineração de minerais críticos impulsionado pela transição energética, os países buscam atender essa demanda promovendo uma mineração responsável. Isso começa com o acesso compartilhado a dados confiáveis sobre onde os riscos hídricos são maiores”, observa.

Para o ICMM, a água deverá se consolidar como um dos principais fatores estratégicos para o crescimento da mineração nas próximas décadas. 

O estudo conclui que enfrentar esse desafio exigirá planejamento integrado, cooperação entre governos, empresas, investidores e cadeias produtivas, além da adoção de práticas permanentes de gestão responsável dos recursos hídricos para garantir a expansão sustentável da produção mineral.