A crescente disputa pelo acesso à água tornou-se um dos principais desafios para a mineração global. Um levantamento recente do Conselho Internacional de Mineração e Metais (ICMM, na sigla em inglês) mostra que 65,7% das instalações de mineração e metalurgia no mundo estão expostas a elevados níveis de pelo menos um indicador de risco hídrico.
O cenário preocupa porque a expansão da produção de minerais críticos, fundamentais para a transição energética, dependerá cada vez mais de um recurso natural que é finito, compartilhado e pressionado por múltiplos usos.
O estudo, denominado Global Mining and Metals Water Dataset, reúne informações de cerca de 12 mil instalações, entre minas, refinarias, fundições e plantas de processamento, e cruza esses dados com indicadores globais de risco hídrico desenvolvidos pelo Instituto de Recursos Mundiais (World Resources Institute) e pelo WWF. O objetivo é identificar como fatores como escassez, seca, inundações e variabilidade no abastecimento podem afetar a produção mineral.
Segundo o ICMM, o principal risco identificado não é apenas a disponibilidade física de água, mas a competição crescente entre a mineração, outras atividades industriais e o abastecimento das populações.
Recurso estratégico e limitado
A água desempenha papel essencial em praticamente todas as etapas da atividade mineral. Ao mesmo tempo, trata-se de um recurso fundamental de sobrevivência, cuja disponibilidade vem sendo pressionada pelo aumento da demanda, pela poluição e pelos efeitos das mudanças climáticas.
Essa realidade coloca a mineração diante do um desafio crescente de compartilhar o mesmo recurso utilizado para abastecimento humano, agricultura, indústria e geração de energia.
O relatório ressalta que, à medida que aumenta a demanda por minerais necessários para sistemas de energia limpa, cresce também a necessidade de planejamento integrado do uso da água e do território, conciliando interesses econômicos e sociais.
Entre as principais conclusões do estudo estão:
- 65,7% das instalações de mineração e metalurgia apresentam elevado risco em pelo menos um indicador hídrico;
- 38,2% estão localizadas em bacias com estresse hídrico alto ou extremamente alto, ou em áreas áridas onde a disponibilidade de água é muito limitada;
- 27,4% enfrentam elevado risco de esgotamento dos recursos hídricos;
- 27% estão sujeitas a alto risco de seca;
- 14% apresentam elevada exposição a inundações;
- 16,2% convivem com grande variabilidade anual no abastecimento de água;
- 4,9% das operações sofrem simultaneamente três ou mais tipos de risco hídrico.
Segundo o mapeamento, esses riscos variam conforme a localização geográfica e o tipo de mineral produzido. Enquanto algumas operações enfrentam competição permanente pelo uso da água, outras convivem principalmente com secas, enchentes ou oscilações significativas na disponibilidade hídrica.
Minerais críticos
O relatório destaca que boa parte das operações ligadas à produção de minerais considerados estratégicos para a transição energética está localizada justamente em regiões de elevada vulnerabilidade hídrica.
No Chile, maior produtor mundial de cobre e um dos principais detentores de reservas de lítio, 85,8% das instalações enfrentam simultaneamente elevado estresse hídrico e grande variabilidade no abastecimento de água.
Na África e no Oriente Médio, 80,7% das instalações apresentam alto risco de seca. Já na Oceania, 74% convivem com forte variabilidade anual na disponibilidade hídrica.
Segundo o ICMM, esses fatores podem limitar a expansão futura da produção caso não sejam incorporados ao planejamento da atividade mineral.
“Nossa pesquisa mostra que a água já é uma questão material para o setor de mineração e metais. Se a exposição ao risco hídrico não for melhor compreendida e gerenciada em toda a economia, corremos o risco de nos depararmos, sem perceber, com um grande obstáculo à transição energética”, afirmou Emma Gagen, diretora de Dados e Pesquisa do ICMM.
Planejamento
A diretora global dos Programas de Alimentos, Terra e Água do Instituto de Recursos Mundiais (WRI), Crystal Davis, avalia que a expansão da mineração de minerais críticos exige informações públicas e confiáveis para orientar decisões.

“Com o aumento global da mineração de minerais críticos impulsionado pela transição energética, os países buscam atender essa demanda promovendo uma mineração responsável. Isso começa com o acesso compartilhado a dados confiáveis sobre onde os riscos hídricos são maiores”, observa.
Para o ICMM, a água deverá se consolidar como um dos principais fatores estratégicos para o crescimento da mineração nas próximas décadas.
O estudo conclui que enfrentar esse desafio exigirá planejamento integrado, cooperação entre governos, empresas, investidores e cadeias produtivas, além da adoção de práticas permanentes de gestão responsável dos recursos hídricos para garantir a expansão sustentável da produção mineral.