Mineração em Serra Pelada em 1981, com milhares de operários trabalhando na lavra de ouro em uma paisagem de rochas e escadas de acesso.
Serra Pelada 1981 (Foto: Rudi Böhm / Mídia NINJA / Flickr)

Do sonho dourado à perspectiva turística: como está a região de Serra Pelada?

Décadas depois da chamada “corrida do ouro”, local ainda enfrenta os riscos do garimpo ilegal, ao mesmo tempo em que tenta emplacar iniciativas históricas e de visitação

Por Rose Guidoni, 5 min de leitura

Publicado em 10/04/2026

Baixar PDF Copiar link
  • Serra Pelada, maior garimpo a céu aberto do Brasil nos anos 1980, enfrenta ressurgimento do garimpo ilegal desde 2024, estimulado por preços elevados de ouro e desemprego regional na Amazônia.
  • Mais de 20 pontos ativos de extração clandestina processam até 50 toneladas de material por semana, contaminando solo e água com mercúrio, enquanto grupos armados disputam o controle territorial com 14 mortes registradas em 2025.
  • A região busca transição econômica por meio de turismo histórico, museu do garimpo e infraestrutura de acesso, enquanto aguarda decisão sobre retomada de mineração industrial pela empresa Helius Minerals.
Resumo revisado pela redação.

Localizada no município de Curionópolis, no sudeste do Pará, a região de Serra Pelada se tornou conhecida em função da chamada “corrida do ouro”, iniciada no fim da década de 1970. O episódio, estimulado pela notícia de que um proprietário de terras locais havia encontrado ouro em áreas superficiais, levou milhares de trabalhadores à região e criou o maior garimpo a céu aberto já registrado no país. 

Homem segurando uma barra de ouro artesanal em uma atividade na Serra Pelada em 1981
Serra Pelada 1981 (Foto: Rudi Böhm / Mídia NINJA / Flickr)

No início da década de 1980, ocasião em que foram extraídas, aproximadamente, sete toneladas de ouro na região, estimativas indicavam que mais de 80 mil pessoas atuavam na área do garimpo, fazendo a exploração manual dos minérios. Trabalhadores escavavam o terreno com pás e picaretas, transportando sacos de terra por rampas abertas nas encostas da cava. As péssimas condições de trabalho na época do auge de Serra Pelada foram retratadas pelo fotógrafo Sebastião Salgado. 

Em 1983, ano considerado como o ápice da produção, cerca de 100 mil homens escavaram a mina manualmente. Muitos deles enriqueceram, de fato, como contou o garimpeiro Chico Osório, que retirou mais de mil quilos de ouro do local: “comprei avião, vários carros, comprei tudo de bom”, disse à agência de notícias AFP, mencionando esperar repetir o feito em breve. 

Mineração em Serra Pelada em 1981, com milhares de operários trabalhando
Serra Pelada 1981 (Foto: Rudi Böhm / Mídia NINJA / Flickr)

Exploração de rejeitos oferece riscos

A expectativa de Osório reflete o que vem ocorrendo atualmente na região. Apesar das iniciativas para revitalização local e estímulo à criação de outras fontes econômicas, a atividade de mineração ainda permanece presente de maneira informal, trazendo diversos riscos aos garimpeiros. 

Esses trabalhadores buscam pequenas quantidades de ouro em rejeitos deixados por antigas operações, prática que ocorre sem autorização e é alvo de fiscalização. Nestes casos, a extração é feita com pás, baldes e peneiras, sem proteção contra a contaminação por mercúrio que atinge solo, água e ar. O risco é elevado, mas os garimpeiros, que buscam pequenas partículas de ouro, ainda enxergam potencial de ganho.

Autoridades federais e estaduais realizam operações periódicas para combater a atividade ilegal e apreender equipamentos utilizados na extração. Mesmo com essas ações, a exploração informal continua ocorrendo em pontos isolados da região.

Vale esclarecer que o ressurgimento do garimpo em Serra Pelada cresceu a partir de 2024, estimulado pelo preço do ouro e pelo desemprego elevado na região de Carajás. Pelo mesmo motivo, a região, chamada de “nova Serra Pelada” também enfrenta episódios de violência, sendo que dados de 2025 apontam 14 mortes em conflitos armados ligados ao controle das áreas de garimpo.

Segundo o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), existem mais de 20 pontos ativos de extração ilegal nos resíduos da antiga mina, com grupos processando até 50 toneladas de material por semana. O ouro recuperado segue, em grande parte, para esquemas clandestinos que abastecem o mercado externo, conforme investigações policiais e dados da Receita Federal.

Além disso, o avanço do garimpo ilegal amplia a devastação ambiental, intensifica a contaminação por mercúrio e fortalece redes do crime organizado em áreas protegidas. Conforme informações da MapBiomas – uma rede formada por universidades, ONGs e empresas de tecnologia que monitora as transformações no uso da terra e seus impactos no Brasil – 263 mil hectares já foram garimpados para a extração de ouro. A expansão se concentra principalmente na região da Amazônia, que, já em 2022, respondia por quase 92% do garimpo de ouro. 

Leia também: Garimpo ilegal de ouro amplia devastação da Amazônia e fortalece redes criminosas 

Iniciativas de formalização 

Apesar da atual exploração clandestina, o garimpo em Serra Pelada foi oficialmente encerrado em 1992 por decisão do governo federal, após a redução da produção e o aumento dos riscos de operação. A cava aberta durante o período de exploração manual, que chega a quase 200 metros, acabou sendo inundada pela água da chuva e do lençol freático, formando um lago.

Lago formado na antiga cava de exploração mineral na Serra Pelada, inundada pela chuva e lençol freático, com vista para montanhas verdes sob céu parcialmente nublado.
Lago formado na antiga cava de exploração mineral na Serra Pelada (Foto: Carina Furlanetto / Shutterstock)

Após o fechamento do garimpo, diferentes iniciativas buscaram retomar a exploração da área por meio de mineração industrial. Na década de 2000, foi criada uma parceria entre a mineradora canadense Colossus Minerals e a Cooperativa de Mineração dos Garimpeiros de Serra Pelada (Coomigasp) com o objetivo de explorar depósitos subterrâneos de ouro e metais do grupo da platina, existentes abaixo da antiga cava.

A empresa Serra Pelada Companhia de Desenvolvimento Mineral iniciou obras para acesso subterrâneo ao depósito, incluindo túneis e infraestrutura de mineração. Entretanto, dificuldades técnicas e financeiras impediram o início da produção comercial.

Em 2014, a Colossus Minerals entrou em processo de insolvência e as operações foram interrompidas. Desde então, o projeto permanece sem produção, aguardando reestruturação societária e financeira.

Em 2025, a empresa canadense Helius Minerals anunciou um acordo para adquirir o projeto Serra Pelada. A proposta inclui renegociação de dívidas, reorganização societária e avaliação técnica do depósito mineral antes de uma eventual retomada da mineração.

Enquanto o processo  permanece incerto, a região busca alternativas baseadas em turismo histórico, serviços e memória do garimpo que marcou a história da mineração brasileira.

Recuperação econômica e resgate histórico

Atualmente, a economia da região de Serra Pelada, sem considerar o garimpo clandestino, apresenta baixa atividade produtiva e depende essencialmente do comércio local, serviços e transferências de renda.

A área do lago, que ocupa a antiga escavação, tornou-se um ponto de visitação para pesquisadores, turistas e até antigos garimpeiros. Por isso, iniciativas municipais buscam estruturar o turismo histórico relacionado à corrida do ouro.

No ano passado, Curionópolis e Serra Pelada passaram a integrar programas de desenvolvimento turístico regional. Entre as iniciativas estão a criação de um conselho municipal de turismo, projetos turísticos de base comunitária e a implantação de um museu dedicado à história do garimpo.

O anúncio do projeto foi feito durante a 1ª Conferência de Turismo de Curionópolis e Serra Pelada, em agosto de 2025. Na ocasião, o ministro do Turismo, Celso Sabino, ressaltou a importância de transformar Serra Pelada em símbolo nacional. 

“Esse lugar, que já foi sinônimo de exploração dos recursos naturais e humanos, pode tornar-se turístico, com oportunidades de gerar emprego, renda e dignidade para a população local. O Ministério do Turismo está ao lado de Curionópolis para apoiar projetos que resgatem a história, preservem o meio ambiente e atraiam visitantes do Brasil e do mundo”, afirmou.

A infraestrutura de acesso também passou por mudanças recentes. Também em 2025, a estrada de cerca de 31 quilômetros que liga o município de Curionópolis ao distrito de Serra Pelada foi pavimentada, o que reduziu o tempo de deslocamento e facilitou a chegada de visitantes.

Leia mais:
https://ibram.org.br/noticia/serra-pelada-foi-o-maior-garimpo-a-ceu-aberto-nos-anos-80/
https://ibram.org.br/noticia/garimpo-ilegal-de-ouro-devastacao-da-amazonia/

Dúvidas mais comuns

A corrida do ouro em Serra Pelada começou no final da década de 1970, quando um proprietário de terras local descobriu ouro em áreas superficiais. O evento atraiu milhares de trabalhadores para a região de Curionópolis, no sudeste do Pará, criando o maior garimpo a céu aberto já registrado no Brasil. No auge, em 1983, aproximadamente 100 mil homens escavavam manualmente a mina, extraindo cerca de 7 toneladas de ouro no início dos anos 1980.

Os garimpeiros trabalhavam em péssimas condições, escavando o terreno manualmente com pás e picaretas e transportando sacos de terra por rampas abertas nas encostas da cava. Muitos trabalhadores enriqueceram durante o período de auge, como o garimpeiro Chico Osório, que retirou mais de mil quilos de ouro. As condições de trabalho foram retratadas pelo fotógrafo Sebastião Salgado, documentando a realidade da exploração.

O garimpo foi oficialmente encerrado em 1992 pelo governo federal devido à redução da produção e ao aumento dos riscos de operação. A cava aberta durante a exploração manual, que atingiu quase 200 metros de profundidade, foi inundada pela água da chuva e do lençol freático, formando um lago que permanece até hoje.

Apesar do encerramento oficial em 1992, o garimpo ilegal ressurgiu a partir de 2024, estimulado pelo preço elevado do ouro e pelo desemprego na região de Carajás. Garimpeiros buscam pequenas quantidades de ouro em rejeitos deixados por antigas operações, sem proteção contra contaminação por mercúrio. Segundo o Instituto Brasileiro de Mineração, existem mais de 20 pontos ativos de extração ilegal processando até 50 toneladas de material por semana, gerando violência e conflitos armados.

Na década de 2000, a mineradora canadense Colossus Minerals se associou à Cooperativa de Mineração dos Garimpeiros de Serra Pelada para explorar depósitos subterrâneos de ouro e metais de platina. A empresa iniciou obras de infraestrutura, mas dificuldades técnicas e financeiras impediram a produção comercial. Em 2014, a Colossus entrou em insolvência. Em 2025, a empresa Helius Minerals anunciou um acordo para adquirir o projeto, incluindo renegociação de dívidas e avaliação técnica.

A região está desenvolvendo iniciativas de turismo histórico relacionado à corrida do ouro. Em 2025, Curionópolis e Serra Pelada integraram programas de desenvolvimento turístico regional, incluindo a criação de um conselho municipal de turismo, projetos comunitários e um museu dedicado à história do garimpo. Também foi pavimentada a estrada de 31 quilômetros que liga Curionópolis ao distrito, facilitando o acesso de visitantes.

O garimpo ilegal causa devastação ambiental significativa, intensificando a contaminação por mercúrio que atinge solo, água e ar. Segundo a MapBiomas, 263 mil hectares já foram garimpados para extração de ouro, com a expansão concentrada principalmente na Amazônia, que respondia por quase 92% do garimpo de ouro em 2022. O ouro recuperado segue para esquemas clandestinos que abastecem o mercado externo e fortalecem redes de crime organizado.

Serra Pelada possui grande potencial turístico baseado em sua história como símbolo da corrida do ouro brasileira. O lago formado na antiga cava de exploração tornou-se ponto de visitação para pesquisadores, turistas e antigos garimpeiros. O Ministério do Turismo reconhece a importância de transformar Serra Pelada em símbolo nacional, gerando oportunidades de emprego, renda e dignidade para a população local enquanto resgata a história e preserva o meio ambiente.