- Serra Pelada, maior garimpo a céu aberto do Brasil nos anos 1980, enfrenta ressurgimento do garimpo ilegal desde 2024, estimulado por preços elevados de ouro e desemprego regional na Amazônia.
- Mais de 20 pontos ativos de extração clandestina processam até 50 toneladas de material por semana, contaminando solo e água com mercúrio, enquanto grupos armados disputam o controle territorial com 14 mortes registradas em 2025.
- A região busca transição econômica por meio de turismo histórico, museu do garimpo e infraestrutura de acesso, enquanto aguarda decisão sobre retomada de mineração industrial pela empresa Helius Minerals.
Localizada no município de Curionópolis, no sudeste do Pará, a região de Serra Pelada se tornou conhecida em função da chamada “corrida do ouro”, iniciada no fim da década de 1970. O episódio, estimulado pela notícia de que um proprietário de terras locais havia encontrado ouro em áreas superficiais, levou milhares de trabalhadores à região e criou o maior garimpo a céu aberto já registrado no país.

No início da década de 1980, ocasião em que foram extraídas, aproximadamente, sete toneladas de ouro na região, estimativas indicavam que mais de 80 mil pessoas atuavam na área do garimpo, fazendo a exploração manual dos minérios. Trabalhadores escavavam o terreno com pás e picaretas, transportando sacos de terra por rampas abertas nas encostas da cava. As péssimas condições de trabalho na época do auge de Serra Pelada foram retratadas pelo fotógrafo Sebastião Salgado.
Em 1983, ano considerado como o ápice da produção, cerca de 100 mil homens escavaram a mina manualmente. Muitos deles enriqueceram, de fato, como contou o garimpeiro Chico Osório, que retirou mais de mil quilos de ouro do local: “comprei avião, vários carros, comprei tudo de bom”, disse à agência de notícias AFP, mencionando esperar repetir o feito em breve.

Exploração de rejeitos oferece riscos
A expectativa de Osório reflete o que vem ocorrendo atualmente na região. Apesar das iniciativas para revitalização local e estímulo à criação de outras fontes econômicas, a atividade de mineração ainda permanece presente de maneira informal, trazendo diversos riscos aos garimpeiros.
Esses trabalhadores buscam pequenas quantidades de ouro em rejeitos deixados por antigas operações, prática que ocorre sem autorização e é alvo de fiscalização. Nestes casos, a extração é feita com pás, baldes e peneiras, sem proteção contra a contaminação por mercúrio que atinge solo, água e ar. O risco é elevado, mas os garimpeiros, que buscam pequenas partículas de ouro, ainda enxergam potencial de ganho.
Autoridades federais e estaduais realizam operações periódicas para combater a atividade ilegal e apreender equipamentos utilizados na extração. Mesmo com essas ações, a exploração informal continua ocorrendo em pontos isolados da região.
Vale esclarecer que o ressurgimento do garimpo em Serra Pelada cresceu a partir de 2024, estimulado pelo preço do ouro e pelo desemprego elevado na região de Carajás. Pelo mesmo motivo, a região, chamada de “nova Serra Pelada” também enfrenta episódios de violência, sendo que dados de 2025 apontam 14 mortes em conflitos armados ligados ao controle das áreas de garimpo.
Segundo o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), existem mais de 20 pontos ativos de extração ilegal nos resíduos da antiga mina, com grupos processando até 50 toneladas de material por semana. O ouro recuperado segue, em grande parte, para esquemas clandestinos que abastecem o mercado externo, conforme investigações policiais e dados da Receita Federal.
Além disso, o avanço do garimpo ilegal amplia a devastação ambiental, intensifica a contaminação por mercúrio e fortalece redes do crime organizado em áreas protegidas. Conforme informações da MapBiomas – uma rede formada por universidades, ONGs e empresas de tecnologia que monitora as transformações no uso da terra e seus impactos no Brasil – 263 mil hectares já foram garimpados para a extração de ouro. A expansão se concentra principalmente na região da Amazônia, que, já em 2022, respondia por quase 92% do garimpo de ouro.
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Iniciativas de formalização
Apesar da atual exploração clandestina, o garimpo em Serra Pelada foi oficialmente encerrado em 1992 por decisão do governo federal, após a redução da produção e o aumento dos riscos de operação. A cava aberta durante o período de exploração manual, que chega a quase 200 metros, acabou sendo inundada pela água da chuva e do lençol freático, formando um lago.

Após o fechamento do garimpo, diferentes iniciativas buscaram retomar a exploração da área por meio de mineração industrial. Na década de 2000, foi criada uma parceria entre a mineradora canadense Colossus Minerals e a Cooperativa de Mineração dos Garimpeiros de Serra Pelada (Coomigasp) com o objetivo de explorar depósitos subterrâneos de ouro e metais do grupo da platina, existentes abaixo da antiga cava.
A empresa Serra Pelada Companhia de Desenvolvimento Mineral iniciou obras para acesso subterrâneo ao depósito, incluindo túneis e infraestrutura de mineração. Entretanto, dificuldades técnicas e financeiras impediram o início da produção comercial.
Em 2014, a Colossus Minerals entrou em processo de insolvência e as operações foram interrompidas. Desde então, o projeto permanece sem produção, aguardando reestruturação societária e financeira.
Em 2025, a empresa canadense Helius Minerals anunciou um acordo para adquirir o projeto Serra Pelada. A proposta inclui renegociação de dívidas, reorganização societária e avaliação técnica do depósito mineral antes de uma eventual retomada da mineração.
Enquanto o processo permanece incerto, a região busca alternativas baseadas em turismo histórico, serviços e memória do garimpo que marcou a história da mineração brasileira.
Recuperação econômica e resgate histórico
Atualmente, a economia da região de Serra Pelada, sem considerar o garimpo clandestino, apresenta baixa atividade produtiva e depende essencialmente do comércio local, serviços e transferências de renda.
A área do lago, que ocupa a antiga escavação, tornou-se um ponto de visitação para pesquisadores, turistas e até antigos garimpeiros. Por isso, iniciativas municipais buscam estruturar o turismo histórico relacionado à corrida do ouro.
No ano passado, Curionópolis e Serra Pelada passaram a integrar programas de desenvolvimento turístico regional. Entre as iniciativas estão a criação de um conselho municipal de turismo, projetos turísticos de base comunitária e a implantação de um museu dedicado à história do garimpo.
O anúncio do projeto foi feito durante a 1ª Conferência de Turismo de Curionópolis e Serra Pelada, em agosto de 2025. Na ocasião, o ministro do Turismo, Celso Sabino, ressaltou a importância de transformar Serra Pelada em símbolo nacional.
“Esse lugar, que já foi sinônimo de exploração dos recursos naturais e humanos, pode tornar-se turístico, com oportunidades de gerar emprego, renda e dignidade para a população local. O Ministério do Turismo está ao lado de Curionópolis para apoiar projetos que resgatem a história, preservem o meio ambiente e atraiam visitantes do Brasil e do mundo”, afirmou.
A infraestrutura de acesso também passou por mudanças recentes. Também em 2025, a estrada de cerca de 31 quilômetros que liga o município de Curionópolis ao distrito de Serra Pelada foi pavimentada, o que reduziu o tempo de deslocamento e facilitou a chegada de visitantes.
Leia mais:
https://ibram.org.br/noticia/serra-pelada-foi-o-maior-garimpo-a-ceu-aberto-nos-anos-80/
https://ibram.org.br/noticia/garimpo-ilegal-de-ouro-devastacao-da-amazonia/