Da esquerda para a direita: Gabriele Cristina Lourenço Fernandes, Alexander Juarez, Ariadina Lopes, Claudia Ribeiro e Evilane dos Santos
Da esquerda para a direita: Gabriele Cristina Lourenço Fernandes, Alexander Juarez, Ariadina Lopes, Claudia Ribeiro e Evilane dos Santos (Foto: IBRAM via Flickr)

Relação entre mineradoras e comunidades passa por escuta ativa, identidade e transparência

Em painel na Exposibram, representantes de comunidades debatem os caminhos para transformar a relação com as empresas

Por Luciana Ciaravolo*, 3 min de leitura

Publicado em 25/08/2026

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BELO HORIZONTE – Vozes diversas de territórios que abrigam atividades minerárias estiveram reunidas no painel “Engajamento comunitário para legado social”, um dos destaques da Exposibram 2026, para mostrar, na prática, o que significa a verdadeira licença social para operar. No centro do debate, a necessidade e os caminhos de transformação da relação entre mineradoras e comunidades. 

Evilane dos Santos, geóloga da Mineração Rio do Norte (MRN) e natural da comunidade  quilombola Boa Vista, em Oriximiná (PA), destacou que as mineradoras não chegam em “folhas em branco”, mas em territórios vivos, repletos de ancestralidade, cultura e história mantidas de geração em geração.

Evilane dos Santos, geóloga da MRN
Evilane dos Santos, geóloga da MRN (Foto: IBRAM via Flickr)

Ela ressaltou a importância da consulta prévia, livre e informada (CPLI), afirmando que o instrumento “não é um formulário, é um direito” das comunidades de expressarem seus anseios, que variam muito entre idosos, agricultores e pescadores. Evilane exemplificou o sucesso dessa integração por meio do Plano Básico Ambiental Quilombola (PBAQ) e das condicionantes do seu território, onde ela mesma atuou para levantar ações de mitigação de impactos, aliando sua bagagem técnica na empresa à sua identidade territorial.

Escuta ativa e projetos em conjunto 

Presidente da Associação Casa Fiari e líder comunitária em São Joaquim de Bicas (MG), Ariadina Lopes pontuou que o verdadeiro engajamento ocorre quando a empresa não leva projetos prontos de forma impositiva, mas constrói as soluções junto com a população local. Para ela, a escuta ativa muda significativamente a relação, trazendo não apenas organização, mas benefícios práticos como acompanhamento contínuo de saúde para a região. 

Ariadina Lopes e Claudia Ribeiro
Ariadina Lopes, Presidente da Associação Casa Fiari e líder comunitária em São Joaquim de Bicas, e Claudia Ribeiro, presidente da Associação Fio de Ouro (Foto: IBRAM via Flickr)

Claudia Ribeiro, presidente da Associação Fio de Ouro, compartilhou como a relação com a mineração vizinha evoluiu da barreira inicial para a parceria. Inicialmente, havia forte resistência na comunidade, com grupos desejando ser removidos e indenizados, não aceitando qualquer aproximação da empresa.

Segundo Claudia, que é líder comunitária da Vila Bom Jesus, na região onde opera a Vale Base Metals, em Canaã dos Carajás (PA), a transformação ocorreu com a criação de um comitê gestor e o apoio a um projeto de costura que, logo no primeiro ano, capacitou 20 mulheres com maquinário doado pela mineradora. 

“A virada de chave aconteceu porque a empresa criou a escuta ativa”, explicou Claudia, destacando que o diálogo 24 horas e a abertura das portas da operação ajudaram a desmistificar medos que a comunidade tinha em relação às barragens.

O protagonismo da nova geração 

Alexander Juarez, fundador e CEO da Trailheads & Titans
Alexander Juarez, fundador e CEO da Trailheads & Titans (Foto: IBRAM via Flickr)

O painel também abriu espaço para o futuro do setor com a participação de Alexander Juarez, jovem de 14 anos, fundador e CEO da Trailheads & Titans. Alexander alertou as empresas de que os jovens não querem apenas receber informações de forma passiva nas redes sociais; eles exigem participação ativa nas soluções. 

O jovem destacou que, para atrair essa nova geração, as mineradoras precisam utilizar histórias, despertar a curiosidade e envolver as crianças para que sintam que suas vozes realmente importam.

A transparência e a gestão do “não” 

A maturidade da relação comunidade-empresa também se mede nos momentos de divergência. Claudia Ribeiro observou que ouvir um “não” da empresa geralmente indica que riscos foram analisados de forma responsável, ressaltando que o diálogo é sempre o melhor caminho para entender a viabilidade das demandas.

Evilane também comentou que a transparência exige clareza nos processos, inclusive quando projetos falham, pois a humildade das empresas em reconhecer erros gera segurança e respeito genuíno na comunidade. Já Ariadina cobrou maior clareza sobre o destino dos recursos enviados pelas mineradoras aos fundos governamentais locais, sugerindo reuniões periódicas para verificar se as verbas estão efetivamente chegando aos projetos na ponta.

Como grande conclusão, o painel da Exposibram demonstrou que a licença social para operar é uma relação de confiança construída diariamente por meio do respeito mútuo. As falas evidenciaram que abraçar a pluralidade e manter um diálogo honesto e aberto são os verdadeiros pilares para o desenvolvimento sustentável nos territórios minerados.

*Especial para o Radar Mineração