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Dan Loschpe
Foto: Rafa Neddermeyer/ COP30 Amazônia Brasil/PR - via Flickr

“Ação Climática é agenda de desenvolvimento, não romântica”, diz Dan Ioschpe

High-Level Climate Champion da ONU para a COP30 explica como transformar promessas climáticas em ações concretas para a indústria

Por Cinthia Saito * e Viviane Kulczynski *, 3 min de leitura

Publicado em 09/10/2025

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  • Ação climática deve ser enquadrada como agenda de desenvolvimento socioeconômico sustentável, não como iniciativa romântica ou puramente ambiental desconectada de interesses econômicos.
  • A COP30 estruturou 30 grupos de ativação com mais de 400 iniciativas e indicadores-chave de performance para transformar compromissos voluntários em planos auditáveis e mensuráveis no setor mineral e siderúrgico.
  • Os principais gargalos para implementação estão em soluções regulamentares, tecnológicas e sociais complexas, como a disponibilidade econômica de combustíveis sustentáveis, que exigem articulação coletiva entre governo, empresas e investidores.
Resumo revisado pela redação.

Nomeado Campeão de Alto Nível (High Level Climate Champion) para a COP30 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Dan Ioschpe tem a missão de conectar o trabalho de governos com a mobilização de empresas, investidores e a sociedade civil na luta contra as mudanças climáticas. Nesta conversa exclusiva com o Radar Mineração, ele explica por que a descarbonização é uma agenda de desenvolvimento, fala sobre os gargalos para a implementação e detalha o caminho para transformar metas em ações concretas.

Como Campeão de Alto Nível para a COP30, seu papel é garantir a participação ativa da sociedade na luta contra as mudanças climáticas. Como transformar as promessas voluntárias de grandes indústrias, como a mineração e a siderurgia, em planos de ação concretos e auditáveis?

O melhor caminho é a arquitetura que desenvolvemos entre o Climate Champions Team, a presidência da COP e a UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas). Criamos uma agenda de ação única, com 30 grupos de ativação que abarcam os caminhos para o atingimento do Acordo de Paris. Mapeamos mais de 400 iniciativas com indicadores-chave de performance (KPIs) para trazer o debate para a vida real e para a ação. O objetivo é que todos entendam a relevância de cada iniciativa e, para aquelas que têm dificuldades de avançar, que possamos identificar e resolver os gargalos trabalhando em grupo.

O que o setor mineral pode esperar de avanços concretos na próxima COP?

Ela deverá trazer soluções e o caminho para essas soluções. Esperamos que haja avanços nos 30 objetivos-chave e que possamos mensurá-los no dia seguinte. Não necessariamente a implementação completa de algo, porque isso leva tempo, mas que tenhamos dado passos significativos. Voltando aos exemplos, que o SAF ou o aço verde tenham tido avanços relevantes e que tenhamos encontrado o caminho para suas soluções.

O senhor já comentou que esta não é uma “agenda romântica”, mas sim uma “agenda de desenvolvimento”. Pode explicar melhor?

Precisamos trazer todos para a mesa e tirar um pouco das paixões do tema. Temos muito a perder e muito a ganhar como sociedade.

A ideia é tratar essa como uma agenda sensata e de interesse comum, e não há nada de maior interesse comum do que o desenvolvimento socioeconômico, que precisa ser sustentável. Todas as soluções e os 30 pontos da nossa agenda de ação são, de uma forma ou de outra, pontos de desenvolvimento socioeconômico.

Sem uma conjunção entre o socioeconômico e a sustentabilidade, não conseguimos ter arquiteturas duradouras.

Onde estão os principais gargalos para essa implementação? Seria a falta de uma visão coletiva?

O gargalo está na implementação, que às vezes necessita de soluções regulamentares, tecnológicas ou sociais. Gosto de ser prático: pense no combustível sustentável da aviação (SAF). A tecnologia é entendida como a que deve vigorar nos próximos 20 ou 30 anos. Por que hoje não temos disponibilidade grande e econômica desse combustível? É preciso sentar todos os agentes à mesa para encontrar o gargalo. Provavelmente não é uma questão puramente ambiental, mas sim complexa, envolvendo economia, sustentabilidade e regulamentação.

Falando em transição justa, como ajudar as grandes indústrias de base, como a mineração, a migrar para uma produção mais limpa sem que as pessoas percam seus empregos?

Não podemos entrar na contabilidade de um a um, caso a caso. Se tivermos um avanço sustentável na cadeia de valor, por exemplo, em direção ao aço verde, obviamente haverá um aumento do valor agregado e a geração de muitos postos de trabalho. Algumas atividades, talvez ligadas a combustíveis fósseis, podem ter uma redução ao longo do tempo, mas serão substituídas por outras.

É um movimento natural, então?

É um movimento natural e agregado. Se olharmos o avanço tecnológico ao longo do tempo, independente da sustentabilidade, isso sempre ocorre. A matriz energética brasileira mudou para eólica e solar, gerando milhares de postos de trabalho que não existiam. Na minha indústria de origem, a automotiva, paramos de fazer carburadores e passamos a fazer outras coisas. Hoje, data centers e inteligência artificial são atividades de enorme desenvolvimento que mal existiam há alguns anos. Precisamos ter cuidado com essas noções para não imobilizar um processo que, no agregado, é positivo.

E como o senhor tem articulado a promoção de parcerias setoriais para remover barreiras de confiança e compartilhamento de risco que hoje impedem a escala?

Por meio da agenda única de ação e dos grupos de ativação. Esse é o nosso melhor caminho. A COP30, por exemplo, não é o início nem o fim, é parte de um processo contínuo. O importante da COP é que ela traz grande visibilidade ao assunto, o que atrai muita gente boa, entidades e empresas. Desenhamos essa agenda de ação pensando em um prazo de cinco anos, para deixar um legado de metodologia que possibilite a continuidade. Não vamos desenvolver o futuro da mineração, por exemplo, em semanas, vai levar muitos anos.

Especial para o Radar Mineração

Dúvidas mais comuns

Ação climática refere-se aos esforços desenvolvidos para combater as mudanças climáticas e seus impactos. Segundo Dan Ioschpe, High Level Climate Champion da ONU para a COP30, a ação climática não é uma agenda romântica, mas sim uma agenda de desenvolvimento. Todas as soluções propostas são, de uma forma ou de outra, pontos de desenvolvimento socioeconômico, pois sem uma conjunção entre o socioeconômico e a sustentabilidade, não conseguimos ter arquiteturas duradouras.

O High Level Climate Champion tem a missão de conectar o trabalho de governos com a mobilização de empresas, investidores e a sociedade civil na luta contra as mudanças climáticas. Dan Ioschpe foi nomeado para esse cargo pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e trabalha para garantir a participação ativa da sociedade e transformar promessas voluntárias em planos de ação concretos e auditáveis.

A estratégia desenvolvida envolve criar uma agenda de ação única com 30 grupos de ativação que abarcam os caminhos para o atingimento do Acordo de Paris. Foram mapeadas mais de 400 iniciativas com indicadores-chave de performance (KPIs) para trazer o debate para a vida real. O objetivo é que todos entendam a relevância de cada iniciativa e que se identifiquem e resolvam os gargalos trabalhando em grupo.

Os gargalos estão na implementação, que às vezes necessita de soluções regulamentares, tecnológicas ou sociais. Por exemplo, no caso do combustível sustentável da aviação (SAF), embora a tecnologia seja entendida como a que deve vigorar nos próximos 20 ou 30 anos, não há disponibilidade grande e econômica desse combustível. É preciso sentar todos os agentes à mesa para encontrar o gargalo, pois geralmente não é uma questão puramente ambiental, mas complexa, envolvendo economia, sustustentabilidade e regulamentação.

A transição justa não deve ser analisada caso a caso, mas sim de forma agregada. Se houver um avanço sustentável na cadeia de valor, como em direção ao aço verde, haverá aumento do valor agregado e geração de muitos postos de trabalho. Algumas atividades ligadas a combustíveis fósseis podem ter redução ao longo do tempo, mas serão substituídas por outras, como ocorreu historicamente na indústria automotiva e com o surgimento de data centers e inteligência artificial.

A COP30 deverá trazer soluções e o caminho para essas soluções, com avanços nos 30 objetivos-chave que possam ser mensurados no dia seguinte. Não necessariamente a implementação completa de algo, pois isso leva tempo, mas que sejam dados passos significativos. Por exemplo, espera-se que o SAF ou o aço verde tenham tido avanços relevantes e que se tenha encontrado o caminho para suas soluções.

A COP30 não é o início nem o fim, mas parte de um processo contínuo. O importante é que ela traz grande visibilidade ao assunto, atraindo muita gente boa, entidades e empresas. A agenda de ação foi desenhada pensando em um prazo de cinco anos, para deixar um legado de metodologia que possibilite a continuidade, já que o desenvolvimento de soluções como a transformação da mineração levará muitos anos.

As parcerias setoriais funcionam por meio da agenda única de ação e dos grupos de ativação, que reúnem governos, empresas, investidores e sociedade civil. Esse modelo permite que diferentes agentes trabalhem juntos para identificar e resolver gargalos específicos de cada setor, compartilhando riscos e construindo confiança mútua para escalar soluções de forma coletiva e sustentável.