- Ação climática deve ser enquadrada como agenda de desenvolvimento socioeconômico sustentável, não como iniciativa romântica ou puramente ambiental desconectada de interesses econômicos.
- A COP30 estruturou 30 grupos de ativação com mais de 400 iniciativas e indicadores-chave de performance para transformar compromissos voluntários em planos auditáveis e mensuráveis no setor mineral e siderúrgico.
- Os principais gargalos para implementação estão em soluções regulamentares, tecnológicas e sociais complexas, como a disponibilidade econômica de combustíveis sustentáveis, que exigem articulação coletiva entre governo, empresas e investidores.
Nomeado Campeão de Alto Nível (High Level Climate Champion) para a COP30 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Dan Ioschpe tem a missão de conectar o trabalho de governos com a mobilização de empresas, investidores e a sociedade civil na luta contra as mudanças climáticas. Nesta conversa exclusiva com o Radar Mineração, ele explica por que a descarbonização é uma agenda de desenvolvimento, fala sobre os gargalos para a implementação e detalha o caminho para transformar metas em ações concretas.
Como Campeão de Alto Nível para a COP30, seu papel é garantir a participação ativa da sociedade na luta contra as mudanças climáticas. Como transformar as promessas voluntárias de grandes indústrias, como a mineração e a siderurgia, em planos de ação concretos e auditáveis?
O melhor caminho é a arquitetura que desenvolvemos entre o Climate Champions Team, a presidência da COP e a UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas). Criamos uma agenda de ação única, com 30 grupos de ativação que abarcam os caminhos para o atingimento do Acordo de Paris. Mapeamos mais de 400 iniciativas com indicadores-chave de performance (KPIs) para trazer o debate para a vida real e para a ação. O objetivo é que todos entendam a relevância de cada iniciativa e, para aquelas que têm dificuldades de avançar, que possamos identificar e resolver os gargalos trabalhando em grupo.
O que o setor mineral pode esperar de avanços concretos na próxima COP?
Ela deverá trazer soluções e o caminho para essas soluções. Esperamos que haja avanços nos 30 objetivos-chave e que possamos mensurá-los no dia seguinte. Não necessariamente a implementação completa de algo, porque isso leva tempo, mas que tenhamos dado passos significativos. Voltando aos exemplos, que o SAF ou o aço verde tenham tido avanços relevantes e que tenhamos encontrado o caminho para suas soluções.
O senhor já comentou que esta não é uma “agenda romântica”, mas sim uma “agenda de desenvolvimento”. Pode explicar melhor?
Precisamos trazer todos para a mesa e tirar um pouco das paixões do tema. Temos muito a perder e muito a ganhar como sociedade.
A ideia é tratar essa como uma agenda sensata e de interesse comum, e não há nada de maior interesse comum do que o desenvolvimento socioeconômico, que precisa ser sustentável. Todas as soluções e os 30 pontos da nossa agenda de ação são, de uma forma ou de outra, pontos de desenvolvimento socioeconômico.
Sem uma conjunção entre o socioeconômico e a sustentabilidade, não conseguimos ter arquiteturas duradouras.
Onde estão os principais gargalos para essa implementação? Seria a falta de uma visão coletiva?
O gargalo está na implementação, que às vezes necessita de soluções regulamentares, tecnológicas ou sociais. Gosto de ser prático: pense no combustível sustentável da aviação (SAF). A tecnologia é entendida como a que deve vigorar nos próximos 20 ou 30 anos. Por que hoje não temos disponibilidade grande e econômica desse combustível? É preciso sentar todos os agentes à mesa para encontrar o gargalo. Provavelmente não é uma questão puramente ambiental, mas sim complexa, envolvendo economia, sustentabilidade e regulamentação.
Falando em transição justa, como ajudar as grandes indústrias de base, como a mineração, a migrar para uma produção mais limpa sem que as pessoas percam seus empregos?
Não podemos entrar na contabilidade de um a um, caso a caso. Se tivermos um avanço sustentável na cadeia de valor, por exemplo, em direção ao aço verde, obviamente haverá um aumento do valor agregado e a geração de muitos postos de trabalho. Algumas atividades, talvez ligadas a combustíveis fósseis, podem ter uma redução ao longo do tempo, mas serão substituídas por outras.
É um movimento natural, então?
É um movimento natural e agregado. Se olharmos o avanço tecnológico ao longo do tempo, independente da sustentabilidade, isso sempre ocorre. A matriz energética brasileira mudou para eólica e solar, gerando milhares de postos de trabalho que não existiam. Na minha indústria de origem, a automotiva, paramos de fazer carburadores e passamos a fazer outras coisas. Hoje, data centers e inteligência artificial são atividades de enorme desenvolvimento que mal existiam há alguns anos. Precisamos ter cuidado com essas noções para não imobilizar um processo que, no agregado, é positivo.
E como o senhor tem articulado a promoção de parcerias setoriais para remover barreiras de confiança e compartilhamento de risco que hoje impedem a escala?
Por meio da agenda única de ação e dos grupos de ativação. Esse é o nosso melhor caminho. A COP30, por exemplo, não é o início nem o fim, é parte de um processo contínuo. O importante da COP é que ela traz grande visibilidade ao assunto, o que atrai muita gente boa, entidades e empresas. Desenhamos essa agenda de ação pensando em um prazo de cinco anos, para deixar um legado de metodologia que possibilite a continuidade. Não vamos desenvolver o futuro da mineração, por exemplo, em semanas, vai levar muitos anos.
* Especial para o Radar Mineração

