Steve Howard
Steve Howard (Divulgação/ Arte)

Cooperação é a chave: “Quem negocia não vai à guerra”, diz Steve Howard

Idealizador da Global Foundation fala da importância da cooperação em um mundo fragmentado e do desafio da mineração responsável em gerar prosperidade sem destruição

Por Cinthia Saito * e Viviane Kulczynski *, 3 min de leitura

Publicado em 14/10/2025

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  • A cooperação internacional entre capital privado, empresas e governos é essencial para financiar projetos de energia limpa e sustentabilidade, baseando-se no princípio de benefício mútuo entre as partes envolvidas.
  • O setor privado deve liderar a transformação regulatória, antecipando-se às exigências governamentais, enquanto empresas líderes em mineração responsável devem conduzir toda a indústria globalmente para mudar percepções negativas.
  • A mineração no Brasil, por sua proximidade com centros urbanos, gera maiores expectativas sociais e oportunidades de demonstrar responsabilidade ambiental, diferenciando-se de operações remotas como as australianas.
Resumo revisado pela redação.

A Global Foundation, organização sem fins lucrativos e apartidária, promove desde 1998 a cooperação internacional para um futuro mais sustentável. Em um cenário de crescentes tensões geopolíticas, a entidade trabalha para alinhar o capital global, as empresas e os governos em torno de soluções de longo prazo. O Radar Mineração conversou Steve Howard, idealizador e secretário-geral da instituição, sobre os desafios da cooperação, o futuro da mineração responsável e o papel do setor privado como agente de transformação.

Em um mundo cada vez mais fragmentado por tensões geopolíticas, qual é o argumento mais forte para convencer empresas e a sociedade a cooperarem em soluções de longo prazo que beneficiem o mundo, e não apenas a si mesmas?

Os chineses têm um ditado chamado “win-win” (ganha-ganha), que significa procurar situações em que ambos os lados saem na frente. E as relações comerciais se baseiam nisso, ambas as partes devem se beneficiar. O capital global se moverá para onde é desejado e para onde é possível.

O capital privado não flui na velocidade necessária para financiar projetos de energia limpa e conservação. Na sua opinião, qual é o maior obstáculo: o medo do risco, a falta de regras claras ou um problema de conscientização dos investidores?

Acredito que são os três. A percepção de risco é real, e temos de trabalhar para eliminar os riscos dos investimentos, tornando-os mais confiáveis. Além disso, é preciso construir uma ponte que ainda não existe plenamente entre o setor privado, incluindo investidores e empresas, e o governo. O que queremos é que o setor privado não esteja apenas seguindo as regras estabelecidas pelo governo, mas esteja à frente delas, com os governos ajustando as regras para se adequarem a essa liderança.

A mineração é a base da transição energética. Como uma organização global pode ajudar o mundo a cooperar em um modelo de “mineração do futuro” que seja responsável e gere riqueza para todos, garantindo que a busca por minerais deixe um legado de prosperidade, e não de destruição?

É um grande desafio, porque a mineração tem uma história complicada. Ainda hoje, há empresas que lideram a transformação, outras que estão paradas e aquelas que resistem. O problema é que aqueles que se comportam mal arrastam todos os outros para trás. Precisamos que as empresas líderes conduzam toda a indústria globalmente, mudando a percepção sobre a importância da mineração. Uma coisa que observo sobre a mineração no Brasil, em comparação com a Austrália, é que aqui ela é muito visível, próxima das cidades. Na Austrália, a maior parte da mineração é feita em locais remotos, sem cidades reais por perto. Essa proximidade no Brasil gera mais expectativas, mas também uma oportunidade gigantesca.

Lideranças do setor afirmam que a mineração precisa ser reinventada. Você concorda?

Sim. O que funcionou ontem pode não funcionar amanhã. A reinvenção é contínua. A inovação na mineração, como os caminhões autônomos, é um dos campos industriais onde ela está sempre na vanguarda e é um bom exemplo disso. É preciso continuar inovando para acompanhar o ritmo e as novas demandas do mundo. Quem diria, há dez anos, que os veículos elétricos teriam uma demanda tão grande? Ou que os minerais críticos seriam tão vitais? Agora, isso é central para a transição energética, e vejo o setor se ajustando para estar à frente dessa curva.

Existem diferentes tipos de mineração. O que lhe impactou ao ver de perto as operações de grandes empresas no Brasil?

Ver as instalações, a responsabilidade com a mineração e com a Amazônia, no caso da Vale, e como a indústria opera dentro de uma estrutura fortemente regulada. Quando você compara isso com a mineração ilegal ou com a mineração em alguns outros países, as grandes empresas que atuam de forma responsável no Brasil estão, em termos mundiais, perto do topo da lista.

* Especial para o Radar Mineração

Dúvidas mais comuns

A Global Foundation é uma organização sem fins lucrativos e apartidária fundada em 1998 que promove cooperação internacional para um futuro mais sustentável. Sua missão é alinhar o capital global, as empresas e os governos em torno de soluções de longo prazo que beneficiem o mundo como um todo, trabalhando especialmente em contextos de crescentes tensões geopolíticas.

O conceito de 'win-win' (ganha-ganha) é fundamental: procurar situações em que ambos os lados saem na frente. As relações comerciais devem se basear no benefício mútuo, onde o capital privado flui para onde é desejado e possível. Quando empresas cooperam em soluções sustentáveis, elas não apenas contribuem para o bem global, mas também garantem sua própria prosperidade a longo prazo.

A cooperação internacional é o pilar fundamental para alcançar o desenvolvimento sustentável global, sendo formalizada pelo ODS 17 da Agenda 2030. Ela permite que governos, empresas e investidores trabalhem juntos para fortalecer os meios de implementação de soluções que beneficiam toda a sociedade, especialmente em áreas como energia limpa e conservação ambiental.

Existem três obstáculos principais: a percepção real de risco dos investimentos, a falta de regras claras e a falta de conscientização dos investidores. Além disso, há uma lacuna entre o setor privado e o governo que precisa ser preenchida. O ideal é que o setor privado não apenas siga as regras estabelecidas, mas esteja à frente delas, com os governos ajustando as regulamentações para acompanhar essa liderança.

A mineração fornece os minerais críticos essenciais para a transição energética, como aqueles necessários para veículos elétricos e energia limpa. Esses minerais se tornaram vitais para o futuro sustentável do planeta, e o setor de mineração está se ajustando para estar à frente dessa demanda crescente e das novas exigências do mundo.

A reinvenção da mineração é contínua e deve acompanhar as mudanças do mundo. Inovações como caminhões autônomos demonstram que o setor está na vanguarda tecnológica. É necessário que as empresas líderes conduzam toda a indústria globalmente, mudando a percepção sobre a importância da mineração responsável e garantindo que ela deixe um legado de prosperidade, não de destruição.

No Brasil, a mineração é muito visível e próxima das cidades, diferentemente da Austrália onde ocorre em locais remotos. Essa proximidade gera maiores expectativas da sociedade, mas também representa uma oportunidade gigantesca para demonstrar responsabilidade. As grandes empresas que atuam de forma responsável no Brasil estão entre as melhores do mundo em termos de práticas sustentáveis e regulamentação.

O setor privado deve estar à frente das regulamentações, não apenas as seguindo. As empresas líderes precisam conduzir toda a indústria globalmente, mudando percepções e eliminando riscos dos investimentos para torná-los mais confiáveis. Quando o setor privado demonstra compromisso com a mineração responsável, especialmente em contextos regulados como no Brasil, estabelece padrões que elevam toda a indústria.