- A cooperação internacional entre capital privado, empresas e governos é essencial para financiar projetos de energia limpa e sustentabilidade, baseando-se no princípio de benefício mútuo entre as partes envolvidas.
- O setor privado deve liderar a transformação regulatória, antecipando-se às exigências governamentais, enquanto empresas líderes em mineração responsável devem conduzir toda a indústria globalmente para mudar percepções negativas.
- A mineração no Brasil, por sua proximidade com centros urbanos, gera maiores expectativas sociais e oportunidades de demonstrar responsabilidade ambiental, diferenciando-se de operações remotas como as australianas.
A Global Foundation, organização sem fins lucrativos e apartidária, promove desde 1998 a cooperação internacional para um futuro mais sustentável. Em um cenário de crescentes tensões geopolíticas, a entidade trabalha para alinhar o capital global, as empresas e os governos em torno de soluções de longo prazo. O Radar Mineração conversou Steve Howard, idealizador e secretário-geral da instituição, sobre os desafios da cooperação, o futuro da mineração responsável e o papel do setor privado como agente de transformação.
Em um mundo cada vez mais fragmentado por tensões geopolíticas, qual é o argumento mais forte para convencer empresas e a sociedade a cooperarem em soluções de longo prazo que beneficiem o mundo, e não apenas a si mesmas?
Os chineses têm um ditado chamado “win-win” (ganha-ganha), que significa procurar situações em que ambos os lados saem na frente. E as relações comerciais se baseiam nisso, ambas as partes devem se beneficiar. O capital global se moverá para onde é desejado e para onde é possível.
O capital privado não flui na velocidade necessária para financiar projetos de energia limpa e conservação. Na sua opinião, qual é o maior obstáculo: o medo do risco, a falta de regras claras ou um problema de conscientização dos investidores?
Acredito que são os três. A percepção de risco é real, e temos de trabalhar para eliminar os riscos dos investimentos, tornando-os mais confiáveis. Além disso, é preciso construir uma ponte que ainda não existe plenamente entre o setor privado, incluindo investidores e empresas, e o governo. O que queremos é que o setor privado não esteja apenas seguindo as regras estabelecidas pelo governo, mas esteja à frente delas, com os governos ajustando as regras para se adequarem a essa liderança.
A mineração é a base da transição energética. Como uma organização global pode ajudar o mundo a cooperar em um modelo de “mineração do futuro” que seja responsável e gere riqueza para todos, garantindo que a busca por minerais deixe um legado de prosperidade, e não de destruição?
É um grande desafio, porque a mineração tem uma história complicada. Ainda hoje, há empresas que lideram a transformação, outras que estão paradas e aquelas que resistem. O problema é que aqueles que se comportam mal arrastam todos os outros para trás. Precisamos que as empresas líderes conduzam toda a indústria globalmente, mudando a percepção sobre a importância da mineração. Uma coisa que observo sobre a mineração no Brasil, em comparação com a Austrália, é que aqui ela é muito visível, próxima das cidades. Na Austrália, a maior parte da mineração é feita em locais remotos, sem cidades reais por perto. Essa proximidade no Brasil gera mais expectativas, mas também uma oportunidade gigantesca.
Lideranças do setor afirmam que a mineração precisa ser reinventada. Você concorda?
Sim. O que funcionou ontem pode não funcionar amanhã. A reinvenção é contínua. A inovação na mineração, como os caminhões autônomos, é um dos campos industriais onde ela está sempre na vanguarda e é um bom exemplo disso. É preciso continuar inovando para acompanhar o ritmo e as novas demandas do mundo. Quem diria, há dez anos, que os veículos elétricos teriam uma demanda tão grande? Ou que os minerais críticos seriam tão vitais? Agora, isso é central para a transição energética, e vejo o setor se ajustando para estar à frente dessa curva.
Existem diferentes tipos de mineração. O que lhe impactou ao ver de perto as operações de grandes empresas no Brasil?
Ver as instalações, a responsabilidade com a mineração e com a Amazônia, no caso da Vale, e como a indústria opera dentro de uma estrutura fortemente regulada. Quando você compara isso com a mineração ilegal ou com a mineração em alguns outros países, as grandes empresas que atuam de forma responsável no Brasil estão, em termos mundiais, perto do topo da lista.
* Especial para o Radar Mineração