- Os EUA reposicionam minerais críticos como questão geopolítica central, defendendo "soberania mineral" para reduzir dependência chinesa em processamento e terras raras.
- O governo americano combina estímulos à produção doméstica, intervenção estatal e parcerias internacionais, com investimentos de dezenas de bilhões em mineradoras e acordos bilaterais.
- A América Latina, especialmente Brasil com segunda maior reserva de terras raras, torna-se alvo de competição direta entre EUA e China por acesso a recursos e influência geopolítica.
Os Estados Unidos reforçaram, durante a CERAWeek 2026, no Texas, o discurso a favor de uma estratégia mais assertiva para reduzir vulnerabilidades nas cadeias de suprimento de minerais críticos. Autoridades do governo defenderam a combinação de estímulos à produção doméstica, maior coordenação estatal e fortalecimento de parcerias internacionais como resposta à dependência da China no processamento desses recursos considerados essenciais para setores como energia, tecnologia e defesa.
O movimento reflete uma mudança de abordagem, na qual os minerais críticos deixam de ser apenas insumos industriais e passam a ocupar posição central na disputa geopolítica. Nesse contexto, os esforços dos EUA se voltam para a construção de uma “soberania mineral” que permita que o país não seja apenas independente, mas dominante, como expressou o secretário do Interior, Doug Burgum.
Intervenção estatal e fortalecimento da capacidade produtiva
Durante o evento, de acordo com a Agência Eixos, o vice-secretário de Energia dos EUA, James Danly, afirmou que o país deve agir para eliminar fragilidades no setor. Segundo ele, há consenso de que as vulnerabilidades nas cadeias de suprimento de minerais críticos se tornaram inaceitáveis e que o segmento enfrenta obstáculos que exigem uma intervenção estatal para destravá-lo. Danly reforçou que o governo, portanto, estaria comprometido a impulsionar a capacidade produtiva antes que ela seja suprimida em estágio inicial.
“O Departamento de Energia, em colaboração com outras agências federais, está empenhado em fazer o que estiver ao nosso alcance para eliminar essas vulnerabilidades e, quando necessário, estimular o desenvolvimento de capacidade produtiva pelo setor privado, seja em território nacional ou em nações parceiras”, explicou Danly.
A posição do vice-secretário está alinhada à ideia de retomar os investimentos em mineração nos Estados Unidos levantada por Doug Burgum. Segundo o secretário, a dependência da China, especialmente no processamento de minerais críticos e terras raras, expõe a economia norte-americana a riscos. O secretário do Interior lembrou que, há cerca de três décadas, os EUA ocupavam posição de liderança no setor, mas “desistiram disso tudo”.
A avaliação dentro do governo é de que essa lacuna compromete a capacidade de resposta a choques externos, como restrições chinesas à exportação de minerais estratégicos, episódios que, nos últimos anos, reforçaram a percepção de vulnerabilidade.
Parcerias internacionais e disputa por influência
Além do fortalecimento interno, os EUA também ampliam sua atuação no exterior para garantir acesso a recursos minerais. A estratégia inclui acordos com diversos países e até a aquisição de participações em empresas do setor, em um movimento coordenado para assegurar cadeias de suprimento mais resilientes.
A América Latina aparece como região-chave nesse processo, com destaque para o Brasil, que abriga a segunda maior reserva de terras raras do mundo. Durante a CERAWeek, o secretário do Departamento de Estado dos EUA, Caleb Orr, afirmou que, entre os objetivos do governo, está “garantir que a América Latina não se torne um ‘quintal’ para os adversários dos EUA”. Nesse sentido, prometem uma competição “dólar a dólar” com a China, combinando investimentos estatais e privados em parcerias com os países.
Reportagem da BBC News Brasil informa que a estratégia norte-americana se estrutura em duas frentes complementares: econômica e política. No campo econômico, os Estados Unidos se preparam para ampliar aportes em companhias que já atuam na pesquisa ou exploração de minerais críticos no país, com investimentos que podem chegar a dezenas de bilhões de dólares, incluindo participação direta em mineradoras ainda em estágio inicial.
Na frente política, Washington pressiona por um acordo bilateral com o Brasil, cuja proposta preliminar já foi enviada ao Itamaraty e segue em análise. O governo brasileiro, no entanto, adota cautela e avalia que sua posição estratégica no mercado global reduz a urgência de um acordo. O Brasil resiste ainda à pressão americana para limitar relações com a China, o que adiciona complexidade às negociações.
Leia mais:
https://www.bbc.com/portuguese/articles/cj6d4z1yrzpo
https://eixos.com.br/internacional/secretario-de-trump-afirma-que-america-latina-nao-sera-quintal-de-adversarios-dos-eua/
https://www.spglobal.com/energy/en/news-research/latest-news/metals/032526-ceraweek-us-must-get-back-in-the-mining-game-to-strengthen-supply-chain-says-burgum
https://eixos.com.br/eventos/eua-farao-o-que-estiver-ao-alcance-para-eliminar-suas-vulnerabilidades-em-minerais-criticos-diz-membro-do-departamento-de-energia/