BELO HORIZONTE – A transição energética global e a digitalização da economia colocaram os minerais críticos no centro do palco, dando ao Brasil uma vantagem competitiva ímpar. No entanto, transformar esse potencial geológico em resultados práticos exige superar gargalos históricos. Este foi o tom do painel “Discussão de mercado das principais empresas brasileiras – minério de ferro, cobre e ouro”, realizado no segundo dia da Exposibram 2026, em Belo Horizonte.
O debate, moderado por Ismael Daoud, gerente comercial na empresa de consultoria Wood Mackenzie, deixou claro que a nova mineração não se resume a cortar custos. O sucesso agora depende de circularidade, inovação tecnológica, agilidade regulatória e, acima de tudo, do resgate da licença social para operar.
A mesa reuniu Carlos Mello Jr, CEO da CSN Mineração, Thiago Toscano, CEO da Itaminas, Rodrigo Gomides, presidente da Kinross Brasil, e Antonio Schettino Gomes Pereira, diretor de Operações Salobo na Vale Base Metals.
O protagonismo do ferro e a corrida pelo cobre

O minério de ferro de alto teor consolidou-se como um recurso crítico para a descarbonização global, viabilizando a produção do chamado “aço verde”. Para Carlos Mello Jr, o Brasil possui diferenciais de escala e abundância impossíveis de serem replicados. O CEO da CSN Mineração destacou a importância da economia circular no setor, onde materiais antes tratados como estéreis agora são reprocessados e transformados em produtos de alto valor.

No mercado de cobre, o cenário é de urgência estrutural. Impulsionado pelo avanço da inteligência artificial, data centers e veículos elétricos, o metal vive um momento de altíssima demanda frente a uma oferta restrita. Antonio Schettino Gomes Pereira ressaltou que a Vale Base Metals projeta saltar sua produção anual de 380 mil para 700 mil toneladas até 2035. O grande obstáculo, porém, é o tempo: o ciclo entre a descoberta de uma reserva e o início da operação é historicamente longo, exigindo retenção urgente de talentos e automação acelerada no campo.
Eficiência extrema e a superação do “Custo Brasil”

Em operações de baixo teor, a tecnologia é a linha que separa o lucro do prejuízo. Rodrigo Gomides trouxe o exemplo da mina de ouro de Paracatu (MG), operada pela Kinross. Trabalhando com o menor teor de ouro do mundo — cerca de 0,4 grama por tonelada —, a operação exige investimentos massivos apenas para sustentação e gestão de rejeitos. Para Gomides, o foco deve estar em aumentar a eficiência tecnológica para viabilizar materiais antes descartados, garantindo a confiança do investidor e da comunidade.

A competitividade, no entanto, esbarra na burocracia. Thiago Toscano foi incisivo ao apontar a morosidade do licenciamento ambiental e o peso do “Custo Brasil” como entraves que penalizam o setor. O CEO da Itaminas lembrou que lucro não se traduz automaticamente em caixa se for consumido por ineficiências sistêmicas, reforçando que o corte de custos não pode prejudicar os investimentos em infraestrutura logística e rotas de qualidade.
Uma nova narrativa: colaboração e legado
O consenso do painel foi a necessidade de transformar a comunicação e a postura da indústria. Os participantes apontaram que a indústria ainda falha em traduzir os impactos econômicos positivos em uma reputação sólida junto à sociedade. Toscano cobrou uma narrativa mais ativa e tangível, onde as metas globais de descarbonização se reflitam em legados locais e obras reais para as comunidades vizinhas.
Para que a mineração brasileira assuma sua liderança global de forma sustentável, a competição deve ocorrer de portas para fora. Internamente, o caminho é a colaboração mútua — a exemplo de hubs de inovação —, o compartilhamento de riscos com a cadeia de fornecedores e uma escuta ativa e humanizada dos territórios onde operam.