- Estudo do Instituto Tecnológico Vale demonstra que 83% das espécies nativas da Floresta Nacional de Carajás são essenciais para manter o equilíbrio ecológico e a regulação climática regional.
- A pesquisa identificou que 60% das espécies são insubstituíveis para funções ecológicas e que a floresta transfere 5 km³ de água anuais à atmosfera, reduzindo temperatura em até 0,4°C.
- Os resultados propõem método de avaliação de capital natural para empresas de mineração melhorarem políticas de conservação florestal e tomada de decisão em regiões amazônicas.
De acordo com um levantamento realizado por pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale (ITV), é necessário preservar 83% das espécies da Floresta Nacional de Carajás para a manutenção do ecossistema. A análise do ITV mostrou que 42% delas são utilizadas por comunidades tradicionais da região, com registros de até quatro usos diferentes por espécie. Os recursos da floresta também beneficiam 13 das 20 culturas locais, que incluem produtos como cacau, maracujá e açaí.
O ecossistema ainda exerce papel essencial na regulação climática. Segundo a pesquisa, sua preservação pode reduzir a temperatura na região em até 0,4 °C. Além disso, a evapotranspiração (processo essencial ao ciclo da água, que abrange tanto a evaporação de água do solo e a transpiração das plantas) pode aumentar em 21%.
A modelagem hidrológica mostrou que a quantidade de água que retorna para a atmosfera por meio da evapotranspiração é de 1277 mm/ano em áreas florestais, o que excede em 272 mm/ano a evapotranspiração em áreas desmatadas (1005 mm/ano). Aproximadamente 5 km³ de água são transferidos anualmente para a atmosfera por meio da Floresta Nacional de Carajás.
O levantamento também comprovou que a área florestal contribui para a regulação do fluxo hídrico, com o escoamento superficial variando de 325 mm/ano em florestas para 1.100 mm/ano em áreas desmatadas, o que indica que o desmatamento pode agravar problemas graves, como inundações.
O estudo, realizado entre 2019 e 2023 e publicado em 2025, integra o projeto “Capital Natural das Florestas de Carajás” e propõe um método para integrar o capital natural de florestas amazônicas.
Espécies insubstituíveis

A pesquisa mostrou que 60% das espécies nativas são insubstituíveis para a manutenção das funções ecológicas da floresta. Sua ausência comprometeria de forma irreversível o ambiente, o que demonstra a importância da preservação. O levantamento, que contou com coletas de campo em 14 pontos da floresta, registrou a existência de 467 espécies de animais e 418 de plantas, sendo que, destas, 11% das aves e 9% das plantas estão ameaçadas.
O objetivo do trabalho foi comprovar a importância da manutenção da “floresta em pé”, conceito que vai além dos valores monetários percebidos pela sociedade e por empresas que atuam na região. “Se transformarmos a natureza em dinheiro, teremos uma sustentabilidade fraca, pois iremos desconsiderar que alguns elementos são insubstituíveis”, disse Tereza Cristina Giannini, pesquisadora do ITV e coautora do artigo. Segundo ela, o valor da floresta “é subjetivo e plural”. “Para um ribeirinho, esse valor pode ser algo completamente diferente do que é para quem está na cidade”, explica Tereza.
O estudo analisou dez componentes para avaliar o capital natural local, divididos em “Natureza para Si Mesma” (funções ecossistêmicas) e “Natureza para as Pessoas” (serviços ecossistêmicos). As funções ecossistêmicas representam o conjunto de processos ecológicos pelos quais o ecossistema mantém sua integridade, sustentando o fluxo de matéria e energia no longo prazo.
As empresas do setor de mineração, atuando em regiões como Carajás, podem utilizar as análises de capital natural para melhorar a eficácia das políticas de conservação e gestão florestal e o processo de tomada de decisão. Isso, de acordo com o estudo, permite a avaliação ampla e intersetorial, o monitoramento dos estoques de recursos naturais e fluxos de serviços e auxilia na definição da sustentabilidade da economia e dos negócios.