Uma pedra de prata com gráficos financeiros de fundo, representando o mercado de metais preciosos, especialmente prata, com foco na valorização e investimento.
Foto: Phawat/ Shutterstock/ Modificada com IA

Futuro dourado para a prata

Cenário geopolítico e incerteza econômica ampliaram preço da prata em 250%. Energia solar, carros elétricos e data centers mantêm o metal promissor

Por Redação, 7 min de leitura

Publicado em 13/03/2026

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  • A prata disparou 250% em 2025, superando significativamente o crescimento de 80% do ouro, reduzindo a relação histórica ouro-prata de 70 para 48, indicando supervalorização do metal.
  • Instabilidades geopolíticas, demanda industrial crescente em tecnologias limpas e déficit de oferta pelo quinto ano consecutivo impulsionam os preços da prata acima do esperado.
  • Veículos elétricos, painéis solares e data centers de inteligência artificial concentram a demanda futura de prata, criando risco de escassez crítica em cadeias industriais essenciais para transição energética.
Resumo revisado pela redação.

O preço da prata disparou no mercado internacional em 2025, com um crescimento de 250%. A comparação mais imediata acontece com o ouro, cujos valores foram incrementados em 80% no mesmo período. Essa avaliação não acontece à toa, visto que a relação entre ouro e prata é uma medida monitorada pelos analistas financeiros. 

A chamada gold-silver ratio, segundo a Forbes, estaria na média de 70. Ou seja: historicamente o valor da onça de ouro é 70 vezes maior do que a onça da prata. O Yahoo Finance situa essa média em 65. As duas publicações, no entanto, mostram que a relação atual é de 48, confirmando a supervalorização e o futuro dourado que as novas tecnologias guardam para a prata.

Prata e ouro crescem nas instabilidades

Pepita de prata e pedra de ouro em mina.
Foto: RHJPhtotos/ Shutterstock

Antes de tratar da valorização da prata acima do ouro, os especialistas creditam o aumento do preço de ambos ao cenário geopolítico, que inclui guerras na Europa e conflitos no Oriente Médio, além da disputa comercial dos Estados Unidos e China. Uma nova ordem mundial, prevista para o período pós conflitos, foi acenada na última reunião do Fórum Econômico Mundial (WEF) como um fator de instabilidade que também favorece a procura por metais preciosos.

Essa dinâmica não é nova: em tempos de instabilidade, a compra de ouro e prata sempre foi um investimento alternativo, pois os ativos físicos de metais preciosos representam um porto seguro contra as incertezas econômicas. Mais estáveis do que ações e títulos, eles trazem maior segurança às carteiras dos investidores.

No caso da prata, as características do metal são diferenciadas em relação ao ouro, uma vez que ela não é apenas um recurso contra tensões macroeconômicas. O metal é também um elemento essencial de praticamente todas as tecnologias, incluindo smartphones, semicondutores e painéis solares fotovoltaicos. A prata também entra na construção de componentes para data centers, o que influi indiretamente nos movimentos de adoção de inteligência artificial.

Essa demanda industrial crescente, por outro lado, levou a uma escassez global de oferta, o que é outro fator importante para ser acompanhado, mas que, no curto prazo (2026), aponta para uma manutenção do preço alto da prata, de acordo com especialistas ouvidos pela Yahoo Finance. Segundo eles, historicamente o metal tem sido mais volátil do que o ouro.

Volatilidade e produção global

A prata apresenta um risco maior, justamente devido à sua demanda industrial, que consome metade da produção mundial, na avaliação do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), citada pela XP Investimentos. A joalheria responde por 25% da demanda e somente 23% estaria sendo usado como reserva de valor, ou seja, investimentos. Os 2% restantes incluem outros tipos de aplicação.

Painéis solares leves para telhados.
Foto: Iness1/ Shutterstock

Dos 50% da produção de prata aplicados em segmentos industriais, a maior parte é consumida pelo segmento de eletroeletrônico, seguido pelas aplicações em painéis solares fotovoltaicos, área de soldagem e esterilizantes. Os demais 20% são consumidos por outros setores industriais. 

Segundo o Silver Institute, uma das referências globais sobre o tema, o consumo global anual de prata alcançou aproximadamente 1,12 bilhão de onças, superando a oferta pelo quinto ano consecutivo. A maior parte desse crescimento está relacionado à demanda industrial, especialmente dos setores de energia solar, mobilidade elétrica, eletrônica avançada e data centers, consolidando a prata como um insumo crítico para tecnologias de baixo carbono e alta eficiência energética.

O Silver Institute uma das referências globais sobre o tema, aponta que a produção global de prata extraída de minas atingiu cerca de 844 milhões de onças troy em 2025, o maior volume em sete anos. Ainda assim, o crescimento da produção segue limitado por fatores geológicos, ambientais e econômicos, além da dependência do metal como subproduto da mineração de chumbo, zinco, cobre e ouro.

Esse desequilíbrio está refletindo também nos preços. Ao longo de 2025, a prata registrou alta volatilidade e atingiu picos acima de US$ 75 por onça, com movimentos pontuais próximos a US$ 80 em momentos específicos do segundo semestre, conforme noticiado pela Forbes. Esses patamares foram impulsionados pela combinação de maior participação de investidores e a percepção da prata como um ativo estratégico. Em determinados períodos, o valor de mercado agregado do metal chegou a superar US$ 3,7 trilhões, colocando a prata entre os maiores mercados de ativos do mundo.

O volume também foi impulsionado pelo aumento da produção de prata em minas de chumbo/zinco na Austrália e pela recuperação do fornecimento no México, com a retomada da produção plena na mina Peñasquito da Newmont. O crescimento foi complementado por atividades adicionais na Bolívia e nos Estados Unidos.

A produção de prata em minas de chumbo/zinco continua como a principal fonte do metal, mas permaneceu estável em relação ao ano anterior. Em contrapartida, a produção de prata em minas de ouro registrou o maior crescimento, com alta de 12% em relação ao ano anterior, atingindo 13,9 milhões de onças, o maior volume em três anos. Em 2024, o México manteve-se como o maior país produtor de prata, seguido por China, Peru, Bolívia e Chile.

A reciclagem da prata teve aumento de 6% em 2024, atingindo o maior patamar em 12 anos, com 193,9 milhões de onças. A sucata industrial apresentou o aumento mais significativo em termos de peso, impulsionada principalmente pelo processamento de catalisadores de óxido de etileno (EO) usados.

Em termos percentuais, o maior ganho veio da reciclagem de talheres de prata, que cresceu 11%, à medida que a alta dos preços da prata e o aumento do custo de vida incentivaram as vendas nos mercados ocidentais.

No Brasil, a prata ocupa uma posição secundária em termos de volume, sendo majoritariamente produzida como subproduto da mineração de outros metais. De acordo com dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o país não figura entre os grandes produtores globais e as estatísticas consolidadas de 2025 ainda estão em fase de atualização. 

Ainda assim, o avanço da demanda global reacende o debate sobre o aproveitamento estratégico do metal na cadeia mineral brasileira, especialmente no contexto da transição energética, da agregação de valor industrial e da inserção do país em cadeias globais de minerais críticos.

Em entrevista ao Valor, Alexandre Ribas, CEO da Falconi, falou sobre a prata como um dos minerais mais estratégicos da transição energética. Segundo ele, é preciso estar alerta para um possível “gargalo invisível” que pode impactar cadeias industriais fundamentais, um fenômeno observado à medida que a demanda por tecnologia limpa e eletrificação avançam mais rápido que a capacidade de suprimento.

Segundo ele, a dependência da prata na produção de painéis solares, veículos elétricos, sistemas de energia limpa e componentes eletrônicos ressalta esse estrangulamento. A indústria solar, por exemplo, consome dezenas de milhões de onças de prata por ano, e a previsão é que essa demanda continue se expandindo nos próximos anos com a aceleração da energia fotovoltaica.

O metal da próxima geração

A prata, contudo, tem um papel importante no desenvolvimento das tecnologias de próxima geração, segundo estudo da consultoria Oxford Economics, em parceria com o Silver Institute, intitulado Silver, the next generation metal. Isso porque ela tem maior condutividade elétrica entre todos os metais. Além disso, possui uma condutividade térmica superior à do cobre, alumínio e bronze, o que ajuda a evitar o superaquecimento de componentes. 

A alta resistência da prata à corrosão, por sua vez, garante a longevidade de equipamentos em condições extremas. Assim, entre os principais mercados promissores para a prata estão os painéis solares fotovoltaicos, veículos elétricos e construção de data centers para processamento e armazenamento de inteligência artificial (IA).

A demanda por prata não terá a mesma dinâmica nesses três mercados principais. Os veículos elétricos e data centers serão os mais afetados por uma possível escassez. Porém, no segmento de energia solar fotovoltaica, o consumo do metal não deve crescer em ritmo proporcional ao crescimento do setor. A prata é aplicada em pastas condutoras nas células solares para maximizar a conversão e o armazenamento de energia. Na última década, a capacidade de energia fotovoltaica instalada no mundo cresceu mais de dez vezes, o que fez com que a demanda por prata neste setor triplicasse. Hoje, a prata usada em painéis solares já representa 29% de toda a demanda industrial pelo metal.

No entanto, o relatório aponta que, apesar de a capacidade global de energia solar ter uma previsão de crescimento anual composto de 17% até 2030, o consumo do metal não deve acompanhar na mesma proporção no curto prazo.O declínio na demanda em painéis solares ocorrerá pelo processo chamado de thrifting, que, em suma, permite a redução da quantidade de prata necessária em cada célula solar. O desenvolvimento de tecnologias de revestimento de cobre e pó de cobre banhado a prata também ajudará a diminuir o consumo do metal entre 30% e 50% por módulo nos anos futuros.

Ainda de acordo com o estudo da Oxford Economics, a produção de veículos elétricos movidos por bateria (EVs) consome, em média, de 67% a 79% mais prata do que os veículos tradicionais com motor de combustão interna. E essa demanda tende a continuar crescendo. Isso porque a prata é eficiente na transmissão de energia em conjuntos de baterias, inversores e nos contatos elétricos das estações de carregamento de veículos.

A previsão é que a demanda de produção dos veículos elétricos aumente a uma taxa de crescimento anual composto de 3,4% entre 2025 e 2031 globalmente. Com isso, a expectativa é de que a demanda por prata chegue a aproximadamente 94 milhões de onças em 2031. Atualmente, a demanda é inferior a 80 milhões de onças/ano.

Devido ao aumento rápido na produção de veículos elétricos, estima-se que eles ultrapassarão os veículos a combustão interna como a principal fonte de demanda automotiva por prata já em 2027, respondendo por 59% do consumo desse setor até 2031.

Já os data centers, espinha dorsal da economia digital e da IA, exigem infraestruturas com altíssima densidade elétrica e capacidade de resfriamento. Nesse tipo de construção, a prata é bastante utilizada em contatos elétricos, cabeamento, sistemas de resfriamento e em semicondutores de alto desempenho, usados para treinar modelos de IA.

Com a capacidade de energia de TI global crescendo de forma exponencial (cerca de 53 vezes de 2000 a 2025), a necessidade por hardware de computação rico em prata disparou, na avaliação dos especialistas que elaboraram o estudo, lançado em dezembro de 2025.

O relatório aponta que, em 2024, o consumo por prata em todas as áreas industriais atingiu um recorde de 680,5 milhões de onças, impulsionado em grande parte por aplicações relacionadas à IA em eletrônicos e hardware.

A previsão é de que a demanda continue a crescer fortemente, acompanhando a construção acelerada de infraestrutura física para IA. Somente nos Estados Unidos, a projeção é de um aumento de 57% nas construções de data centers nos próximos dez anos. Entre os usos crescentes estão a aplicação em componentes ricos em prata e nos semicondutores de alto desempenho. 

Dúvidas mais comuns

O preço da prata cresceu 250% em 2025 principalmente devido a três fatores: o cenário geopolítico instável com guerras na Europa e conflitos no Oriente Médio, a incerteza econômica global e a crescente demanda industrial por prata em tecnologias emergentes. Além disso, a prata é essencial em smartphones, semicondutores, painéis solares e data centers para inteligência artificial, criando uma demanda industrial que consome metade da produção mundial.

A gold-silver ratio mede quantas vezes o ouro é mais caro que a prata. Historicamente, essa relação fica em torno de 65 a 70, significando que uma onça de ouro custa 65 a 70 vezes mais que uma onça de prata. Atualmente, essa relação caiu para 48, indicando que a prata está supervalorizada em relação ao ouro, refletindo sua importância estratégica para novas tecnologias.

A prata é um insumo crítico para tecnologias de baixo carbono e alta eficiência energética. Ela é aplicada em pastas condutoras nas células solares para maximizar a conversão de energia, utilizada em veículos elétricos para transmissão de energia em baterias e inversores, e essencial em data centers para contatos elétricos, cabeamento e semicondutores de alto desempenho usados em inteligência artificial.

Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos, 50% da produção de prata é consumida por segmentos industriais (principalmente eletrônicos, painéis solares, soldagem e esterilizantes), 25% pela joalheria, 23% como reserva de valor (investimentos) e 2% por outras aplicações. A demanda industrial crescente, especialmente em energia solar e data centers, é o principal motor do aumento de preço.

Embora a produção global de prata tenha atingido 844 milhões de onças troy em 2025 (maior volume em sete anos), o consumo global anual superou 1,12 bilhão de onças pelo quinto ano consecutivo. A escassez ocorre porque a demanda industrial cresce mais rápido que a capacidade de produção, limitada por fatores geológicos, ambientais e econômicos, além da dependência da prata como subproduto da mineração de outros metais.

Os três principais mercados promissores são: painéis solares fotovoltaicos (que já consomem 29% da demanda industrial), veículos elétricos (que consumem 67% a 79% mais prata que veículos tradicionais e devem ultrapassar combustão interna em 2027) e data centers para inteligência artificial (que exigem alta densidade elétrica e componentes ricos em prata para semicondutores de alto desempenho).

Enquanto o ouro é principalmente uma reserva de valor em tempos de instabilidade econômica, a prata tem dupla função: serve como porto seguro contra incertezas macroeconômicas e é também um elemento essencial em praticamente todas as tecnologias modernas. Essa demanda industrial crescente, combinada com a escassez de oferta, torna a prata mais volátil que o ouro, mas com maior potencial de valorização ligado ao desenvolvimento tecnológico.

O Brasil ocupa uma posição secundária na produção global de prata, sendo o metal majoritariamente produzido como subproduto da mineração de outros metais. O país não figura entre os grandes produtores globais, mas o avanço da demanda global reacende o debate sobre o aproveitamento estratégico da prata na cadeia mineral brasileira, especialmente no contexto da transição energética e da inserção do país em cadeias globais de minerais críticos.