- Brasil possui reservas estratégicas de minerais críticos (nióbio, terras raras, grafita e lítio) essenciais para a transição energética, mas a demanda global por esses minerais pode crescer seis vezes até 2040.
- Gargalos regulatórios, licenciamentos lentos e falta de mão de obra qualificada travam projetos que levam até 15 anos da prospecção à produção, enquanto países como China avançam com estratégias de longo prazo consolidadas há décadas.
- A produção de aço verde via hidrogênio verde depende de energia renovável abaixo de US$ 25-30 por megawatt-hora e segurança jurídica, mas encargos setoriais e ausência de mercado de carbono operacional até 2030 inviabilizam a competitividade econômica.
A lentidão processual, a instabilidade regulatória e a falta de uma política de Estado de longo prazo são os principais gargalos que impedem o Brasil de avançar na velocidade necessária para se consolidar como protagonista na mineração e nas fontes renováveis para a transição energética. A avaliação foi o consenso de especialistas reunidos durante o painel “Oferta de energia para mineração e eficiência energética”, realizado na Exposibram, em Salvador (BA).
Apesar do vasto potencial brasileiro em minerais críticos e energia renovável, a burocracia em licenciamentos e a falta de mão de obra qualificada ameaçam o que é descrito como uma oportunidade única para o país – não apenas neste painel mas em todo o evento.
O debate destacou o paradoxo central da descarbonização da economia, em que mineração e transição energética se retroalimentam. “Quanto mais a gente precisa da transição energética para evitar o aquecimento, mais a gente vai precisar da atividade da mineração”, afirmou a sócia da Peopleenergy Consulting, Juliana Marreco.

Ela citou dados da Agência Internacional de Energia (AIE) que estimam que a demanda por minerais críticos pode crescer seis vezes até 2040, impulsionada por tecnologias como carros elétricos, que, segundo ela, consomem seis vezes mais minerais que um veículo a combustão.
O diretor técnico de Estratégia e de Planejamento Integrado da Bamin, Lucas Araújo, detalhou o potencial brasileiro para suprir essa demanda. “A gente é a maior reserva de nióbio do mundo. A gente é a segunda maior reserva de terra rara do mundo. A gente é a segunda maior reserva de grafita do mundo. A gente é o sexto em lítio”, listou.

No entanto, segundo ele, esse potencial esbarra na lentidão dos projetos, que podem levar até 15 anos desde a prospecção até o início da produção mineral. Nesse sentido, ele criticou a falta de planejamento de longo prazo no país, em contraste com estratégias de outras nações. “A questão da mudança de governo de quatro em quatro anos afeta diretamente como as empresas se posicionam. A China começou esse processo (de intensificação da mineração) há 15, 20 anos, estão adiantados”, opinou o executivo.
Desafios da matriz energética
Embora a matriz energética brasileira esteja em franca expansão renovável — Lucas Araújo citou um aumento projetado de 70% na capacidade instalada em cinco anos, puxado por solar e eólica —, essa mudança traz novos desafios.
Juliana Marreco apontou que, apesar da geração barata, a energia chega com alto custo ao consumidor. “A gente gera uma energia barata mas ela chega pro consumidor final cara”, disse, citando o peso de encargos setoriais e subsídios cruzados, incluindo incentivos para fontes que já seriam competitivas ou até mesmo para o carvão.
O segundo desafio é físico: a intermitência das fontes solar e eólica. “Chega às 6h da tarde e desliga tudo (solar). Ou seja, você tem excesso de capacidade, mas você não tem condição de atender instantaneamente toda a carga”, explicou Juliana. Segundo ela, isso gera um “risco de potência” que afeta diretamente a mineração, cujas operações (como fornos e smelters) não podem ser interrompidas e exigem alta qualidade de fornecimento.
Hidrogênio verde e aço verde
A produção de aço verde também entrou na pauta. Segundo os participantes, para que o Brasil utilize sua energia renovável para agregar valor, como na produção de aço verde via hidrogênio verde (H2V), os gargalos regulatórios e de custo precisam ser solucionados.

Ludmilla Nascimento, da Brazil Green Energy Park, destacou que o Brasil é “campeão” nas condições para produzir H2V — energia competitiva, água e logística. E o aço verde, segundo ela, é o “ponto de partida ideal” para criar demanda para o hidrogênio.
Contudo, a viabilidade econômica depende de dois fatores principais. O primeiro é o custo da energia, que compõe de 60% a 70% do custo do H2V. “Para de fato ser competitivo você precisa ter uma faixa entre US$ 2 e US$ 2,5 por quilo de hidrogênio. Para chegar neste custo […] você precisa de preço de energia entre US$ 25 e US$ 30 por megawatt-hora.”, detalhou Nascimento, um valor difícil de atingir com os encargos atuais – há dois anos ainda se conseguia atingir esse patamar.
O segundo fator é a regulação. “Se não tiver segurança jurídica ninguém vai fazer investimento. Absolutamente ninguém. E o capital é impaciente”, afirmou.
Juliana Marreco acrescentou que o mercado para hidrogênio verde ainda está para ser construído e que, sem prêmio verde, a viabilidade depende de mandatos ou taxação de carbono. Ela criticou a lentidão na implementação do mercado de carbono brasileiro, que “só vai começar a valer mesmo em 2030. Eu acho que não dá pra gente esperar até 2030”, ponderou.
Apagão de mão de obra e governança
Um dos pontos mais críticos do debate foi o “apagão” iminente de mão de obra. “A gente não vai ter mão de obra desenvolvida o suficiente dentro da mineração para crescer cinco vezes num universo de 20 anos”, alertou Lucas Araújo.
Ele apontou uma desconexão entre a indústria e as novas gerações: “Essa geração nova não quer isso. A mineração não tá ficando sexy mais pra essa criançada aí”.
Com relação à mão de obra, Cristina Pinho, vice-presidente do Conselho do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), apresentou dados alarmantes: “O Brasil forma menos de 90.000 engenheiros por ano. Sabe quantos a China forma? Quatro milhões”.

Cristina defendeu que a solução passa por fortalecer as instituições, citando a Agência Nacional do Petróleo (ANP) como modelo para a Agência Nacional de Mineração (ANM). Segundo ela, a ANP usou fundos de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) para investir maciçamente em educação, formação e na competência técnica da própria agência.
“Você só consegue (confiança) com uma agência forte com competência técnica robusta”, disse. Para ela, a governança é o pilar que sustenta os avanços socioambientais. “Sem governança não tem o E (ambiental) e nem o S (social). Você vai perder tudo no meio do caminho.”
O painel foi moderado por Sergio Saraiva, diretor de Mineração da Largo Vanádio de Maracás.

Confira a cobertura completa da Exposibram na página especial do Radar Mineração.

