A lentidão processual, a instabilidade regulatória e a falta de uma política de Estado de longo prazo são os principais gargalos que impedem o Brasil de avançar na velocidade necessária para se consolidar como protagonista na mineração e nas fontes renováveis para a transição energética. A avaliação foi o consenso de especialistas reunidos durante o painel “Oferta de energia para mineração e eficiência energética”, realizado na Exposibram, em Salvador (BA).
Apesar do vasto potencial brasileiro em minerais críticos e energia renovável, a burocracia em licenciamentos e a falta de mão de obra qualificada ameaçam o que é descrito como uma oportunidade única para o país – não apenas neste painel mas em todo o evento.
O debate destacou o paradoxo central da descarbonização da economia, em que mineração e transição energética se retroalimentam. “Quanto mais a gente precisa da transição energética para evitar o aquecimento, mais a gente vai precisar da atividade da mineração”, afirmou a sócia da Peopleenergy Consulting, Juliana Marreco.

Ela citou dados da Agência Internacional de Energia (AIE) que estimam que a demanda por minerais críticos pode crescer seis vezes até 2040, impulsionada por tecnologias como carros elétricos, que, segundo ela, consomem seis vezes mais minerais que um veículo a combustão.
O diretor técnico de Estratégia e de Planejamento Integrado da Bamin, Lucas Araújo, detalhou o potencial brasileiro para suprir essa demanda. “A gente é a maior reserva de nióbio do mundo. A gente é a segunda maior reserva de terra rara do mundo. A gente é a segunda maior reserva de grafita do mundo. A gente é o sexto em lítio”, listou.

No entanto, segundo ele, esse potencial esbarra na lentidão dos projetos, que podem levar até 15 anos desde a prospecção até o início da produção mineral. Nesse sentido, ele criticou a falta de planejamento de longo prazo no país, em contraste com estratégias de outras nações. “A questão da mudança de governo de quatro em quatro anos afeta diretamente como as empresas se posicionam. A China começou esse processo (de intensificação da mineração) há 15, 20 anos, estão adiantados”, opinou o executivo.
Desafios da matriz energética
Embora a matriz energética brasileira esteja em franca expansão renovável — Lucas Araújo citou um aumento projetado de 70% na capacidade instalada em cinco anos, puxado por solar e eólica —, essa mudança traz novos desafios.
Juliana Marreco apontou que, apesar da geração barata, a energia chega com alto custo ao consumidor. “A gente gera uma energia barata mas ela chega pro consumidor final cara”, disse, citando o peso de encargos setoriais e subsídios cruzados, incluindo incentivos para fontes que já seriam competitivas ou até mesmo para o carvão.
O segundo desafio é físico: a intermitência das fontes solar e eólica. “Chega às 6h da tarde e desliga tudo (solar). Ou seja, você tem excesso de capacidade, mas você não tem condição de atender instantaneamente toda a carga”, explicou Juliana. Segundo ela, isso gera um “risco de potência” que afeta diretamente a mineração, cujas operações (como fornos e smelters) não podem ser interrompidas e exigem alta qualidade de fornecimento.
Hidrogênio verde e aço verde
A produção de aço verde também entrou na pauta. Segundo os participantes, para que o Brasil utilize sua energia renovável para agregar valor, como na produção de aço verde via hidrogênio verde (H2V), os gargalos regulatórios e de custo precisam ser solucionados.

Ludmilla Nascimento, da Brazil Green Energy Park, destacou que o Brasil é “campeão” nas condições para produzir H2V — energia competitiva, água e logística. E o aço verde, segundo ela, é o “ponto de partida ideal” para criar demanda para o hidrogênio.
Contudo, a viabilidade econômica depende de dois fatores principais. O primeiro é o custo da energia, que compõe de 60% a 70% do custo do H2V. “Para de fato ser competitivo você precisa ter uma faixa entre US$ 2 e US$ 2,5 por quilo de hidrogênio. Para chegar neste custo […] você precisa de preço de energia entre US$ 25 e US$ 30 por megawatt-hora.”, detalhou Nascimento, um valor difícil de atingir com os encargos atuais – há dois anos ainda se conseguia atingir esse patamar.
O segundo fator é a regulação. “Se não tiver segurança jurídica ninguém vai fazer investimento. Absolutamente ninguém. E o capital é impaciente”, afirmou.
Juliana Marreco acrescentou que o mercado para hidrogênio verde ainda está para ser construído e que, sem prêmio verde, a viabilidade depende de mandatos ou taxação de carbono. Ela criticou a lentidão na implementação do mercado de carbono brasileiro, que “só vai começar a valer mesmo em 2030. Eu acho que não dá pra gente esperar até 2030”, ponderou.
Apagão de mão de obra e governança
Um dos pontos mais críticos do debate foi o “apagão” iminente de mão de obra. “A gente não vai ter mão de obra desenvolvida o suficiente dentro da mineração para crescer cinco vezes num universo de 20 anos”, alertou Lucas Araújo.
Ele apontou uma desconexão entre a indústria e as novas gerações: “Essa geração nova não quer isso. A mineração não tá ficando sexy mais pra essa criançada aí”.
Com relação à mão de obra, Cristina Pinho, vice-presidente do Conselho do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), apresentou dados alarmantes: “O Brasil forma menos de 90.000 engenheiros por ano. Sabe quantos a China forma? Quatro milhões”.

Cristina defendeu que a solução passa por fortalecer as instituições, citando a Agência Nacional do Petróleo (ANP) como modelo para a Agência Nacional de Mineração (ANM). Segundo ela, a ANP usou fundos de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) para investir maciçamente em educação, formação e na competência técnica da própria agência.
“Você só consegue (confiança) com uma agência forte com competência técnica robusta”, disse. Para ela, a governança é o pilar que sustenta os avanços socioambientais. “Sem governança não tem o E (ambiental) e nem o S (social). Você vai perder tudo no meio do caminho.”
O painel foi moderado por Sergio Saraiva, diretor de Mineração da Largo Vanádio de Maracás.

Confira a cobertura completa da Exposibram na página especial do Radar Mineração.
Dúvidas mais comuns
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Os principais gargalos identificados são a lentidão processual, a instabilidade regulatória, a falta de uma política de Estado de longo prazo, a burocracia em licenciamentos e a falta de mão de obra qualificada. Esses obstáculos impedem que o país avance na velocidade necessária para se consolidar como protagonista na mineração e nas fontes renováveis, apesar do vasto potencial brasileiro em minerais críticos.
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A mineração e a transição energética se retroalimentam: quanto mais a transição energética avança para evitar o aquecimento global, mais a atividade de mineração é necessária. Segundo dados da Agência Internacional de Energia (AIE), a demanda por minerais críticos pode crescer seis vezes até 2040, impulsionada por tecnologias como carros elétricos, que consomem seis vezes mais minerais que veículos a combustão.
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O Brasil possui posições estratégicas globais em minerais críticos: é a maior reserva de nióbio do mundo, segunda maior em terra rara, segunda maior em grafita e sexta em lítio. No entanto, esse potencial esbarra na lentidão dos projetos, que podem levar até 15 anos desde a prospecção até o início da produção mineral.
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Apesar da geração de energia barata, ela chega ao consumidor final com alto custo devido a encargos setoriais e subsídios cruzados. Além disso, a intermitência das fontes solar e eólica cria um 'risco de potência' que afeta operações de mineração, que não podem ser interrompidas e exigem alta qualidade de fornecimento contínuo.
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O Brasil possui condições ideais para produzir hidrogênio verde (energia competitiva, água e logística), mas a viabilidade econômica depende de dois fatores: o custo da energia, que deve estar entre US$ 25 e US$ 30 por megawatt-hora para atingir competitividade, e a segurança jurídica através de regulação clara. Sem esses elementos, não há incentivo para investimentos.
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O Brasil enfrenta um 'apagão' iminente de mão de obra qualificada. Enquanto o país forma menos de 90.000 engenheiros por ano, a China forma quatro milhões. Além disso, há uma desconexão entre a indústria e as novas gerações, que não veem a mineração como uma carreira atrativa.
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A governança é o pilar que sustenta os avanços socioambientais e regulatórios. Sem governança forte, não é possível implementar adequadamente as dimensões ambiental e social das políticas de transição. Uma agência reguladora com competência técnica robusta, como modelo da ANP, é essencial para criar confiança e viabilizar investimentos.
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A mudança de governo a cada quatro anos afeta diretamente como as empresas se posicionam e planejam investimentos. Países como a China iniciaram sua intensificação de mineração há 15 a 20 anos e estão mais adiantados. Sem planejamento de longo prazo, o Brasil perde competitividade e não consegue aproveitar sua janela de oportunidade na transição energética global.

