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Sergio Saraiva, Cristina Lucia Duarte Pinho, Juliana Marreco, Lucas Araújo e Ludmila Nascimento destacando temas de energia, mineração e eficiência energética
Da esquerda para a direita: Sergio Saraiva, Cristina Lucia Duarte Pinho, Juliana Marreco, Lucas Araújo e Ludmila Nascimento (Foto: Vale)

Gargalos travam potencial da mineração na transição energética

Especialistas defendem política de longo prazo e agilidade em licenciamentos para consolidar Brasil como fornecedor de minerais críticos

Por Roberto Francellino, 5 min de leitura

Publicado em 29/10/2025 | Atualizado em 30/10/2025

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  • Brasil possui reservas estratégicas de minerais críticos (nióbio, terras raras, grafita e lítio) essenciais para a transição energética, mas a demanda global por esses minerais pode crescer seis vezes até 2040.
  • Gargalos regulatórios, licenciamentos lentos e falta de mão de obra qualificada travam projetos que levam até 15 anos da prospecção à produção, enquanto países como China avançam com estratégias de longo prazo consolidadas há décadas.
  • A produção de aço verde via hidrogênio verde depende de energia renovável abaixo de US$ 25-30 por megawatt-hora e segurança jurídica, mas encargos setoriais e ausência de mercado de carbono operacional até 2030 inviabilizam a competitividade econômica.
Resumo revisado pela redação.

A lentidão processual, a instabilidade regulatória e a falta de uma política de Estado de longo prazo são os principais gargalos que impedem o Brasil de avançar na velocidade necessária para se consolidar como protagonista na mineração e nas fontes renováveis para a transição energética. A avaliação foi o consenso de especialistas reunidos durante o painel “Oferta de energia para mineração e eficiência energética”, realizado na Exposibram, em Salvador (BA).

Apesar do vasto potencial brasileiro em minerais críticos e energia renovável, a burocracia em licenciamentos e a falta de mão de obra qualificada ameaçam o que é descrito como uma oportunidade única para o país – não apenas neste painel mas em todo o evento. 

O debate destacou o paradoxo central da descarbonização da economia, em que mineração e transição energética se retroalimentam. “Quanto mais a gente precisa da transição energética para evitar o aquecimento, mais a gente vai precisar da atividade da mineração”, afirmou a sócia da Peopleenergy Consulting, Juliana Marreco.

Juliana Marreco em evento discute crescimento da demanda por minerais críticos impulsionado por tecnologias como carros elétricos.
Juliana Marreco, Sócia da Peopleenergy Consulting (Foto: Vale)

Ela citou dados da Agência Internacional de Energia (AIE) que estimam que a demanda por minerais críticos pode crescer seis vezes até 2040, impulsionada por tecnologias como carros elétricos, que, segundo ela, consomem seis vezes mais minerais que um veículo a combustão.

O diretor técnico de Estratégia e de Planejamento Integrado da Bamin, Lucas Araújo, detalhou o potencial brasileiro para suprir essa demanda. “A gente é a maior reserva de nióbio do mundo. A gente é a segunda maior reserva de terra rara do mundo. A gente é a segunda maior reserva de grafita do mundo. A gente é o sexto em lítio”, listou.

Lucas Araújo participa de painel discutindo desafios de mineração no Brasil, destacando lentidão e falta de planejamento de longo prazo no setor mineral.
Lucas Araújo, diretor técnico de estratégia e de planejamento integrado da Bamin (Foto: Vale)

No entanto, segundo ele, esse potencial esbarra na lentidão dos projetos, que podem levar até 15 anos desde a prospecção até o início da produção mineral. Nesse sentido, ele criticou a falta de planejamento de longo prazo no país, em contraste com estratégias de outras nações. “A questão da mudança de governo de quatro em quatro anos afeta diretamente como as empresas se posicionam. A China começou esse processo (de intensificação da mineração) há 15, 20 anos, estão adiantados”, opinou o executivo.

Desafios da matriz energética

Embora a matriz energética brasileira esteja em franca expansão renovável — Lucas Araújo citou um aumento projetado de 70% na capacidade instalada em cinco anos, puxado por solar e eólica —, essa mudança traz novos desafios.

Juliana Marreco apontou que, apesar da geração barata, a energia chega com alto custo ao consumidor. “A gente gera uma energia barata mas ela chega pro consumidor final cara”, disse, citando o peso de encargos setoriais e subsídios cruzados, incluindo incentivos para fontes que já seriam competitivas ou até mesmo para o carvão.

O segundo desafio é físico: a intermitência das fontes solar e eólica. “Chega às 6h da tarde e desliga tudo (solar). Ou seja, você tem excesso de capacidade, mas você não tem condição de atender instantaneamente toda a carga”, explicou Juliana. Segundo ela, isso gera um “risco de potência” que afeta diretamente a mineração, cujas operações (como fornos e smelters) não podem ser interrompidas e exigem alta qualidade de fornecimento.

Hidrogênio verde e aço verde

A produção de aço verde também entrou na pauta. Segundo os participantes, para que o Brasil utilize sua energia renovável para agregar valor, como na produção de aço verde via hidrogênio verde (H2V), os gargalos regulatórios e de custo precisam ser solucionados.

Ludmilla Nascimento em evento com fones de ouvido, cabelo castanho e expressão concentrada, vestindo blazer de tom claro, em fundo azul.
Ludmilla Nascimento, da Brazil Green Energy Park (Foto: Vale)

Ludmilla Nascimento, da Brazil Green Energy Park, destacou que o Brasil é “campeão” nas condições para produzir H2V — energia competitiva, água e logística. E o aço verde, segundo ela, é o “ponto de partida ideal” para criar demanda para o hidrogênio.

Contudo, a viabilidade econômica depende de dois fatores principais. O primeiro é o custo da energia, que compõe de 60% a 70% do custo do H2V. “Para de fato ser competitivo você precisa ter uma faixa entre US$ 2 e US$ 2,5 por quilo de hidrogênio. Para chegar neste custo […] você precisa de preço de energia entre US$ 25 e US$ 30 por megawatt-hora.”, detalhou Nascimento, um valor difícil de atingir com os encargos atuais – há dois anos ainda se conseguia atingir esse patamar.

O segundo fator é a regulação. “Se não tiver segurança jurídica ninguém vai fazer investimento. Absolutamente ninguém. E o capital é impaciente”, afirmou. 

Juliana Marreco acrescentou que o mercado para hidrogênio verde ainda está para ser construído e que, sem prêmio verde, a viabilidade depende de mandatos ou taxação de carbono. Ela criticou a lentidão na implementação do mercado de carbono brasileiro, que “só vai começar a valer mesmo em 2030. Eu acho que não dá pra gente esperar até 2030”, ponderou.

Apagão de mão de obra e governança

Um dos pontos mais críticos do debate foi o “apagão” iminente de mão de obra. “A gente não vai ter mão de obra desenvolvida o suficiente dentro da mineração para crescer cinco vezes num universo de 20 anos”, alertou Lucas Araújo.

Ele apontou uma desconexão entre a indústria e as novas gerações: “Essa geração nova não quer isso. A mineração não tá ficando sexy mais pra essa criançada aí”.

Com relação à mão de obra, Cristina Pinho, vice-presidente do Conselho do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), apresentou dados alarmantes: “O Brasil forma menos de 90.000 engenheiros por ano. Sabe quantos a China forma? Quatro milhões”.

Cristina Pinho, profissional que destaca a importância do fortalecimento das instituições na área de mineração
Cristina Pinho, vice-presidente do Conselho do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) (Foto: Vale)

Cristina defendeu que a solução passa por fortalecer as instituições, citando a Agência Nacional do Petróleo (ANP) como modelo para a Agência Nacional de Mineração (ANM). Segundo ela, a ANP usou fundos de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) para investir maciçamente em educação, formação e na competência técnica da própria agência.

“Você só consegue (confiança) com uma agência forte com competência técnica robusta”, disse. Para ela, a governança é o pilar que sustenta os avanços socioambientais. “Sem governança não tem o E (ambiental) e nem o S (social). Você vai perder tudo no meio do caminho.”

O painel foi moderado por Sergio Saraiva, diretor de Mineração da Largo Vanádio de Maracás.

Sergio Saraiva de terno usando fones de ouvido, segurando um microfone e um papel, participando de evento
Sergio Saraiva, diretor de Mineração da Largo Vanádio de Maracás (Foto: Vale)

Confira a cobertura completa da Exposibram na página especial do Radar Mineração.

Dúvidas mais comuns

Os principais gargalos identificados são a lentidão processual, a instabilidade regulatória, a falta de uma política de Estado de longo prazo, a burocracia em licenciamentos e a falta de mão de obra qualificada. Esses obstáculos impedem que o Brasil avance na velocidade necessária para se consolidar como protagonista na mineração e nas fontes renováveis, apesar de seu vasto potencial em minerais críticos.

A mineração e a transição energética se retroalimentam: quanto mais energia renovável é necessária para evitar o aquecimento global, mais mineração é necessária para produzir as tecnologias envolvidas. A demanda por minerais críticos pode crescer seis vezes até 2040, impulsionada por tecnologias como carros elétricos, que consomem seis vezes mais minerais que veículos a combustão.

O Brasil possui posições estratégicas globais em minerais críticos: é a maior reserva de nióbio do mundo, segunda maior em terra rara, segunda maior em grafita e sexta em lítio. Esse potencial é fundamental para suprir a demanda global crescente por minerais necessários para tecnologias de energia renovável e mobilidade elétrica.

Um projeto de mineração pode levar até 15 anos desde a prospecção até o início da produção mineral. Essa lentidão é agravada pela falta de planejamento de longo prazo no Brasil, em contraste com estratégias de outras nações como a China, que iniciou sua intensificação de mineração há 15 a 20 anos.

Apesar da expansão renovável projetada de 70% em cinco anos, existem dois desafios principais: primeiro, a energia chega ao consumidor final com alto custo devido a encargos setoriais e subsídios cruzados; segundo, a intermitência das fontes solar e eólica cria um 'risco de potência' que afeta operações de mineração, que exigem fornecimento contínuo e de alta qualidade.

O Brasil possui condições ideais para produzir hidrogênio verde (energia competitiva, água e logística), mas a viabilidade econômica depende de dois fatores: primeiro, reduzir o custo da energia para entre US$ 25 e US$ 30 por megawatt-hora (atualmente difícil com os encargos atuais); segundo, estabelecer segurança jurídica e regulação clara para atrair investimentos de longo prazo.

O Brasil enfrenta um 'apagão' iminente de mão de obra qualificada: não haverá mão de obra desenvolvida suficiente para crescimento de cinco vezes em 20 anos. Além disso, há desconexão com novas gerações que não veem a mineração como atrativa, enquanto o Brasil forma menos de 90 mil engenheiros por ano contra 4 milhões formados pela China.

A solução passa por fortalecer instituições como a Agência Nacional de Mineração (ANM), seguindo o modelo da Agência Nacional do Petróleo (ANP), que investiu maciçamente em educação, formação e competência técnica. Uma agência forte com competência técnica robusta é essencial para gerar confiança, e a governança é o pilar que sustenta os avanços socioambientais e evita perdas de progresso.