O garimpo ilegal responde por quase metade das cerca de 100 toneladas de ouro produzidas anualmente no Brasil, devastando populações indígenas, destruindo florestas, poluindo rios com mercúrio e financiando facções criminosas. O alerta foi feito por Raul Jungmann, morto em janeiro deste ano, então presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), em entrevista exclusiva ao Radar Mineração, na qual ele chamou o garimpo ilegal de “praga” e defendee o apartamento radical entre a mineração legal e o crime organizado.
Qual é o tamanho real do problema do garimpo ilegal e por que ainda não conseguimos unir forças para um combate efetivo?
O garimpo ilegal está focado quase que exclusivamente no ouro. Segundo dados do Instituto Escolhas, a produção dele do Brasil está em torno de 100 toneladas por ano. E ainda segundo esse mesmo Instituto, que tem um longo e muito sério trabalho sobre o setor, metade disso é ouro ilegal. Por que é difícil solucionar esse problema? Tem a ver com os estímulos existentes, como a alta histórica do preço. E a verdade é que os estímulos fazem criminosos correrem riscos.
Como o Ibram tem trabalhado para combater o garimpo ilegal?
Quando chegamos ao Ibram, vimos que a mineração e o garimpo ilegal eram muitas vezes tratados indistintamente. Éramos confundidos. Então, em conversas e amadurecimento com o setor, chegamos à seguinte conclusão: garimpo ilegal é crime. Isso não é atividade econômica, ou, se você quiser, é uma atividade econômica fundada no ilícito. Nós somos legais, somos regulamentados, temos mecanismo de controle. Então, o que é que temos de fazer? Temos de radicalmente nos apartar deles, e foi isso que foi feito.
Tivemos uma série de ações. Em primeiro lugar, colocar para todos do setor que o garimpo ilegal destrói, por meio do uso de mercúrio, populações indígenas. Ele também é associado ao crime organizado, como o PCC e o Comando Vermelho, e é um ativo no sentido de destruir florestas. Então, ele é aquilo que chamávamos no passado de “uma praga”.

Quais foram as ações concretas de combate?
Fomos ao Banco Central, tivemos várias reuniões com o Roberto Campos Neto (então presidente da instituição), no sentido de agilizar a fiscalização. Por quê? Porque o ouro no Brasil tem duas naturezas: tem o ouro que é ativo financeiro e tem o ouro que é mercadoria, que você faz o relógio, o brinco, que é usado na tecnologia. Ficou claro que a lavanderia do garimpo ilegal eram as DTVMs (Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, responsáveis por processar e transformar o ouro extraído em barras de alta pureza).
O segundo passo foi ir à Receita Federal, que acabou por instituir a nota fiscal eletrônica. Sem isso, você não tem rastreabilidade. E isso já foi implantado. O terceiro aspecto em que conseguimos avançar foi na derrubada do chamado “instituto da boa-fé”. É uma maluquice que chamamos no Congresso de “jabuti”. Era uma emenda à Medida Provisória referente à agricultura familiar, que partia do princípio de que o ouro poderia ser comercializado apenas com base nas informações oferecidas pelos próprios vendedores, sob a presunção de “boa-fé”. Então não precisava verificar, não precisava checar (sua origem). Enfim, até hoje, quando falo disso, causa estranhamento. Mas isso também foi derrubado no STF, e nós contribuímos para isso.
Já conseguimos medir resultados práticos dessas ações?
O ouro está em uma de suas mais altas médias históricas e isso leva a um evidentemente recrudescimento do garimpo ilegal. Mas o dado bom é que, segundo o Instituto Escolhas, a produção registrada pelos garimpos, o “ouro de sangue”, despencou 84% desde o início dos esforços que desenvolvemos junto com a sociedade, o BC, a Receita e o STF. Ainda assim, é um problema que precisa ser enfrentado, porque os prejuízos que o país tem são incalculáveis. Sem falar que povos indígenas e a Amazônia são devastados (pelas ações ilegais).
Como garantir que a mineração legal não seja confundida com o garimpo ilegal pela opinião pública?
Essa separação radical é fundamental. A mineração legal tem licenciamento, fiscalização, responsabilidade socioambiental, paga impostos, gera empregos formais, investe em tecnologia e segurança. O garimpo ilegal é crime organizado, puro e simples. Destrói, mata, escraviza, contamina. São mundos opostos. O trabalho que fizemos, e que continua, é para que a sociedade, o governo, o mundo reconheçam essa diferença. Quando você implementa nota fiscal eletrônica, rastreabilidade, quando você fecha as torneiras da lavagem de dinheiro nas DTVMs, quando você derruba absurdos como o “instituto da boa-fé”, você está dizendo: aqui não é terra sem lei. Aqui tem Estado, tem fiscalização, tem consequências.
A rastreabilidade química é um divisor de águas. A nota fiscal eletrônica fecha brechas. O Banco Central mais rigoroso dificulta a lavagem. O que não podemos é afrouxar. Porque enquanto houver demanda e preço alto, haverá quem corra o risco. Nosso papel, como setor legal, é continuar pressionando, denunciando, apoiando as autoridades e deixando cristalino: garimpo ilegal não nos representa. É nosso inimigo também, porque destrói a imagem de um setor que trabalha com responsabilidade.
* Especial para o Radar Mineração
Dúvidas mais comuns
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O garimpo ilegal responde por aproximadamente metade das cerca de 100 toneladas de ouro produzidas anualmente no Brasil, totalizando cerca de 50 toneladas por ano. Esse volume representa um problema significativo não apenas pela escala da produção ilegal, mas pelos impactos devastadores que causa: destruição de populações indígenas, devastação de florestas, poluição de rios com mercúrio e financiamento de facções criminosas como PCC e Comando Vermelho.
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A dificuldade em combater o garimpo ilegal está principalmente nos estímulos econômicos existentes, especialmente a alta histórica do preço do ouro. Quando o preço está elevado, criminosos se sentem incentivados a correr riscos para lucrar com a atividade ilegal. Enquanto houver demanda e preço alto, continuará havendo quem se disponha a enfrentar as consequências legais para extrair ouro ilegalmente.
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A mineração legal possui licenciamento, fiscalização rigorosa, responsabilidade socioambiental, paga impostos, gera empregos formais e investe em tecnologia e segurança. O garimpo ilegal, por sua vez, é crime organizado puro e simples que destrói, mata, escraviza e contamina. São mundos opostos: enquanto a mineração legal opera dentro de marcos regulatórios e contribui para a economia, o garimpo ilegal é uma atividade econômica fundada no ilícito.
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O Ibram implementou três ações principais: primeiro, trabalhou com o Banco Central para agilizar a fiscalização das DTVMs (Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários), que eram usadas como 'lavanderia' do ouro ilegal. Segundo, articulou com a Receita Federal a instituição da nota fiscal eletrônica para garantir rastreabilidade. Terceiro, contribuiu para a derrubada do 'instituto da boa-fé' no STF, que permitia comercializar ouro sem verificar sua origem.
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Segundo o Instituto Escolhas, a produção registrada de ouro ilegal despencou 84% desde o início dos esforços coordenados entre o Ibram, Banco Central, Receita Federal e STF. Esse resultado demonstra a efetividade das medidas de rastreabilidade, controle fiscal e fechamento das brechas legais que permitiam a lavagem de dinheiro do ouro ilegal.
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A rastreabilidade química é um divisor de águas no combate ao garimpo ilegal, permitindo identificar a origem do ouro. A nota fiscal eletrônica fecha brechas que permitiam a comercialização sem comprovação de origem. Juntas, essas medidas, aliadas a um Banco Central mais rigoroso na fiscalização, dificultam significativamente a lavagem de dinheiro e a comercialização de ouro ilegal, deixando claro que não há terra sem lei.
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O garimpo ilegal destrói a imagem de um setor que trabalha com responsabilidade e legalidade. Ao ser confundido com a mineração legal pela opinião pública, prejudica a reputação de empresas e profissionais que operam dentro das normas. Por isso, o setor legal tem papel fundamental em continuar pressionando, denunciando e apoiando as autoridades, deixando cristalino que o garimpo ilegal não os representa.
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O garimpo é permitido no Brasil, mas apenas de forma legal e regulamentada. Para garimpar legalmente, é necessário ter autorização oficial e estar previamente cadastrado. Brasileiros pessoas físicas, cooperativas de garimpeiros ou empresários individuais podem obter permissão para exploração, desde que a área não exceda 50 hectares e cumpra todos os requisitos legais. Qualquer extração sem permissão é considerada garimpo ilegal e constitui crime.

