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garimpo ilegal com uma embarcação artesanal navegando em rio, evidenciando exploração e impacto ambiental na floresta
Foto: Divulgação/ Polícia Federal

“Garimpo ilegal é inimigo: destrói nossa imagem, devasta o meio ambiente e financia facções”

Metade do ouro brasileiro é extraído ilegalmente, alimentando crime organizado, mas problema diminui após ações junto ao Banco Central e à Receita Federal, segundo Jungmann

Por Viviane Kulczynski *, 3 min de leitura

Publicado em 27/10/2025

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  • O garimpo ilegal responde por aproximadamente 50% das 100 toneladas de ouro produzidas anualmente no Brasil, financiando crime organizado e contaminando ecossistemas com mercúrio.
  • O Ibram implementou rastreabilidade via nota fiscal eletrônica, fechou brechas nas DTVMs e eliminou a presunção de "boa-fé" que permitia comercialização sem verificação de origem.
  • A produção de ouro ilegal despencou 84% desde essas ações, mas a mineração legal busca separação radical da imagem pública para se diferenciar do crime organizado.
Resumo revisado pela redação.

O garimpo ilegal responde por quase metade das cerca de 100 toneladas de ouro produzidas anualmente no Brasil, devastando populações indígenas, destruindo florestas, poluindo rios com mercúrio e financiando facções criminosas. O alerta é de Raul Jungmann, presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), em entrevista exclusiva ao Radar Mineração, na qual ele chama o garimpo ilegal de “praga” e defende o apartamento radical entre a mineração legal e o crime organizado.

Qual é o tamanho real do problema do garimpo ilegal e por que ainda não conseguimos unir forças para um combate efetivo?

O garimpo ilegal está focado quase que exclusivamente no ouro. Segundo dados do Instituto Escolhas, a produção dele do Brasil está em torno de 100 toneladas por ano. E ainda segundo esse mesmo Instituto, que tem um longo e muito sério trabalho sobre o setor, metade disso é ouro ilegal. Por que é difícil solucionar esse problema? Tem a ver com os estímulos existentes, como a alta histórica do preço. E a verdade é que os estímulos fazem criminosos correrem riscos.

Como o Ibram tem trabalhado para combater o garimpo ilegal?

Quando chegamos ao Ibram, vimos que a mineração e o garimpo ilegal eram muitas vezes tratados indistintamente. Éramos confundidos. Então, em conversas e amadurecimento com o setor, chegamos à seguinte conclusão: garimpo ilegal é crime. Isso não é atividade econômica, ou, se você quiser, é uma atividade econômica fundada no ilícito. Nós somos legais, somos regulamentados, temos mecanismo de controle. Então, o que é que temos de fazer? Temos de radicalmente nos apartar deles, e foi isso que foi feito.

Tivemos uma série de ações. Em primeiro lugar, colocar para todos do setor que o garimpo ilegal destrói, por meio do uso de mercúrio, populações indígenas. Ele também é associado ao crime organizado, como o PCC e o Comando Vermelho, e é um ativo no sentido de destruir florestas. Então, ele é aquilo que chamávamos no passado de “uma praga”.

 barras de ouro empilhadas formando uma pirâmide
Foto: Guguart/ Shutterstock

Quais foram as ações concretas de combate?

Fomos ao Banco Central, tivemos várias reuniões com o Roberto Campos Neto (então presidente da instituição), no sentido de agilizar a fiscalização. Por quê? Porque o ouro no Brasil tem duas naturezas: tem o ouro que é ativo financeiro e tem o ouro que é mercadoria, que você faz o relógio, o brinco, que é usado na tecnologia. Ficou claro que a lavanderia do garimpo ilegal eram as DTVMs (Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, responsáveis por processar e transformar o ouro extraído em barras de alta pureza).

O segundo passo foi ir à Receita Federal, que acabou por instituir a nota fiscal eletrônica. Sem isso, você não tem rastreabilidade. E isso já foi implantado. O terceiro aspecto em que conseguimos avançar foi na derrubada do chamado “instituto da boa-fé”. É uma maluquice que chamamos no Congresso de “jabuti”. Era uma emenda à Medida Provisória referente à agricultura familiar, que partia do princípio de que o ouro poderia ser comercializado apenas com base nas informações oferecidas pelos próprios vendedores, sob a presunção de “boa-fé”. Então não precisava verificar, não precisava checar (sua origem). Enfim, até hoje, quando falo disso, causa estranhamento. Mas isso também foi derrubado no STF, e nós contribuímos para isso.

Já conseguimos medir resultados práticos dessas ações?

O ouro está em uma de suas mais altas médias históricas e isso leva a um evidentemente recrudescimento do garimpo ilegal. Mas o dado bom é que, segundo o Instituto Escolhas, a produção registrada pelos garimpos, o “ouro de sangue”, despencou 84% desde o início dos esforços que desenvolvemos junto com a sociedade, o BC, a Receita e o STF. Ainda assim, é um problema que precisa ser enfrentado, porque os prejuízos que o país tem são incalculáveis. Sem falar que povos indígenas e a Amazônia são devastados (pelas ações ilegais).

Como garantir que a mineração legal não seja confundida com o garimpo ilegal pela opinião pública?

Essa separação radical é fundamental. A mineração legal tem licenciamento, fiscalização, responsabilidade socioambiental, paga impostos, gera empregos formais, investe em tecnologia e segurança. O garimpo ilegal é crime organizado, puro e simples. Destrói, mata, escraviza, contamina. São mundos opostos. O trabalho que fizemos, e que continua, é para que a sociedade, o governo, o mundo reconheçam essa diferença. Quando você implementa nota fiscal eletrônica, rastreabilidade, quando você fecha as torneiras da lavagem de dinheiro nas DTVMs, quando você derruba absurdos como o “instituto da boa-fé”, você está dizendo: aqui não é terra sem lei. Aqui tem Estado, tem fiscalização, tem consequências.

A rastreabilidade química é um divisor de águas. A nota fiscal eletrônica fecha brechas. O Banco Central mais rigoroso dificulta a lavagem. O que não podemos é afrouxar. Porque enquanto houver demanda e preço alto, haverá quem corra o risco. Nosso papel, como setor legal, é continuar pressionando, denunciando, apoiando as autoridades e deixando cristalino: garimpo ilegal não nos representa. É nosso inimigo também, porque destrói a imagem de um setor que trabalha com responsabilidade.

* Especial para o Radar Mineração

Dúvidas mais comuns

O garimpo ilegal responde por aproximadamente metade das cerca de 100 toneladas de ouro produzidas anualmente no Brasil, segundo dados do Instituto Escolhas. Esse ouro ilegal financia facções criminosas, devasta populações indígenas, destrói florestas e polui rios com mercúrio, representando uma ameaça significativa ao meio ambiente e à segurança pública do país.

O garimpo ilegal persiste principalmente devido aos estímulos econômicos, especialmente a alta histórica do preço do ouro, que motiva criminosos a correrem riscos. Além disso, historicamente havia confusão entre mineração legal e garimpo ilegal, e existiam brechas legais que facilitavam a lavagem de dinheiro e a comercialização de ouro de origem duvidosa.

A mineração legal possui licenciamento, fiscalização rigorosa, responsabilidade socioambiental, paga impostos, gera empregos formais e investe em tecnologia e segurança. O garimpo ilegal, por sua vez, é crime organizado puro e simples que destrói, mata, escraviza e contamina. São mundos opostos, e essa separação radical é fundamental para a imagem do setor legal.

O Ibram implementou três ações principais: primeiro, trabalhou com o Banco Central para agilizar a fiscalização das DTVMs (Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários), que eram usadas para lavar dinheiro do garimpo ilegal; segundo, colaborou com a Receita Federal na instituição da nota fiscal eletrônica para garantir rastreabilidade; terceiro, contribuiu para derrubar no STF o 'instituto da boa-fé', que permitia comercializar ouro sem verificar sua origem.

Segundo o Instituto Escolhas, a produção registrada de 'ouro de sangue' despencou 84% desde o início dos esforços coordenados entre o Ibram, Banco Central, Receita Federal e STF. Embora o preço alto do ouro ainda estimule o garimpo ilegal, esses resultados demonstram que medidas efetivas de rastreabilidade e fiscalização funcionam.

A rastreabilidade química é um divisor de águas que permite identificar a origem do ouro, enquanto a nota fiscal eletrônica fecha brechas que permitiam a comercialização sem comprovação de origem. Juntas, essas medidas, associadas a um Banco Central mais rigoroso, dificultam significativamente a lavagem de dinheiro proveniente do garimpo ilegal.

O garimpo ilegal devasta populações indígenas através do uso de mercúrio, contamina rios e destrói florestas na Amazônia. Além dos danos ambientais incalculáveis, o garimpo ilegal está associado ao crime organizado, como PCC e Comando Vermelho, causando morte, escravidão e destruição em territórios indígenas.

O garimpo ilegal destrói a imagem de um setor que trabalha com responsabilidade e regulamentação. Enquanto a mineração legal segue rigorosos padrões ambientais e sociais, o garimpo ilegal prejudica a reputação de toda a indústria mineradora, tornando essencial a separação radical entre as duas atividades para que a sociedade reconheça essa diferença fundamental.