- Empresas de mineração priorizam desenvolvimento em áreas já exploradas (brownfields) em vez de novos projetos, reduzindo riscos geopolíticos e acelerando a produção de metais estratégicos como cobre e níquel.
- A Vale Base Metals planeja dobrar produção de cobre até 2035 aproveitando infraestrutura consolidada, enquanto enfrenta entraves regulatórios no Ocidente que podem levar duas décadas para aprovação de projetos.
- Níquel de alta pureza tornou-se crítico para defesa dos EUA, e interrupções no fornecimento poderiam forçar dependência chinesa, evidenciando a necessidade de segurança nas cadeias de suprimentos de metais estratégicos.
Diante da crescente demanda por metais estratégicos e da busca por estabilidade nas cadeias globais de suprimentos, as empresas de mineração têm adotado uma postura mais cautelosa em suas estratégias de expansão. A prioridade tem sido o aproveitamento de ativos já existentes, com foco na redução de riscos e na eficiência operacional.
Tradicionalmente vista como uma atividade essencialmente extrativa, a mineração passou a ocupar um papel central na geopolítica internacional, frequentemente associada à segurança nacional. Para Shaun Usmar, CEO da Vale Base Metals (VBM), o setor ainda enfrenta desafios de escala. “Para entregar resultados e aproveitar a inovação e a capacidade instalada, acredito que, no fim das contas, vamos atrair talentos e expertise de outros setores”, afirmou durante sua participação no FT Mining Summit 2025.
A nova dinâmica global tem impulsionado a demanda por metais como cobre e níquel a níveis inéditos, levando grandes corporações a reavaliar seus modelos de crescimento e a reconfigurar suas cadeias de suprimentos.
Segundo Usmar, a preferência atual é pelo desenvolvimento de projetos em áreas já exploradas — os chamados brownfields — por oferecerem menor risco e maior previsibilidade. Em contrapartida, os greenfields, que envolvem operações iniciadas do zero, são mais suscetíveis a atrasos e estouros de orçamento.
A meta da VBM é ambiciosa: dobrar a produção de cobre até 2035, priorizando a infraestrutura já consolidada. “O histórico do setor com projetos greenfield não é dos melhores. Os brownfields representam uma oportunidade de risco e retorno que ainda é subestimada”, destacou Usmar.
Essa abordagem permite acelerar novos empreendimentos sem comprometer a continuidade das operações já em curso, especialmente em momentos de escassez de oferta.
De acordo com dados da Reuters, o Chile lidera a produção mundial de cobre, com cerca de 1,328 milhão de toneladas métricas em 2024. Outros países que se destacam nesse cenário incluem Peru, Congo, China, Estados Unidos e Rússia, reforçando a importância estratégica do metal na nova ordem econômica global.
Níquel e segurança nacional

O níquel também entrou no radar geopolítico, especialmente por seu papel crítico na indústria de defesa. Segundo Usmar, mais de 60% do níquel de alta pureza fornecido pela empresa é destinado aos setores aeroespacial e de defesa dos Estados Unidos. Embora isso represente uma vantagem competitiva, Usmar destaca que não há subsídios envolvidos — o que torna essencial operar com máxima eficiência. “A única forma de sobreviver é estar na metade inferior da curva de custos”, afirmou.
No entanto, um dos principais entraves enfrentados pela companhia está na morosidade dos processos regulatórios. Usmar critica a lentidão dos sistemas de licenciamento no Ocidente, onde, segundo ele, um projeto pode levar até duas décadas para entrar em operação, mesmo em um cenário otimista.
Em contraste, ele elogiou a agilidade da China, que tem se destacado pela rapidez na aprovação de projetos. “Eles têm uma enorme vantagem. Não estão focados em recompras de ações, estão realmente construindo coisas”, disse.
Desbloquear valor em tempos de instabilidade
A postura cautelosa da VBM diante da expansão não é apenas uma questão de eficiência operacional, mas também uma resposta ao cenário global. Conflitos como a guerra entre Rússia e Ucrânia, tensões no Oriente Médio e disputas por mineração ilegal evidenciam os riscos crescentes nas cadeias de suprimentos e na estabilidade do capital. Em tempos de incerteza, apostar em projetos brownfield é uma forma de proteger não apenas os resultados financeiros, mas também os empregos e a continuidade das operações.
Usmar fez referência ao que chama de “momento Sputnik” dos Estados Unidos, uma metáfora para a urgência em reconhecer a importância dos materiais estratégicos. Segundo ele, esse reconhecimento está atrasado e precisa ser acelerado pelas autoridades.
A dependência de níquel de alta pureza é um exemplo: uma eventual interrupção no fornecimento poderia forçar os EUA a recorrer à China, país que mantém relações comerciais com nações como Rússia e Coreia do Norte. Isso abriria espaço para dilemas políticos e econômicos complexos.
Mais do que uma reação direta aos conflitos, essa estratégia representa uma resposta tática à volatilidade global, buscando garantir resiliência e autonomia em um cenário cada vez mais imprevisível.