Um painel de palestrantes senta-se no palco em uma conferência de mineração, com uma grande placa de centro de mineração em primeiro plano e uma tela iluminada em roxo atrás deles exibindo detalhes da discussão e insights sobre financiamento de mineração com fotos dos palestrantes.
Da esquerda para a direita: Viviane Behar, Leonardo Pereira, Bruno Laskowsky e Ruben Fernandes (Foto: Mining Hub via Flickr)

Gestores defendem novos modelos de financiamento para mineração

Painel no Mining Innovation Summit reuniu gestores de investimentos e executivos para discutir mecanismos adequados aos projetos de longo prazo

Por Vanderlei Campos, 6 min de leitura

Publicado em 05/06/2026

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A necessidade de ampliar a oferta de minerais estratégicos para atender à transição energética, à digitalização da economia e à demanda global por infraestrutura exige um volume crescente de investimentos de longo prazo. Contudo, financiar projetos minerais em um contexto de exigências ambientais cada vez maiores, custos elevados de capital e maturação prolongada é desafiador para investidores e empresas.

O tema foi debatido no Mining Innovation Summit, realizado nesta semana em Belo Horizonte. Em um painel denominado Green Finance, especialistas do mercado financeiro e da indústria mineral discutiram caminhos para ampliar a financiabilidade dos projetos e acelerar a agenda de sustentabilidade do setor.

Na avaliação dos painelistas, o desafio não está apenas na disponibilidade de recursos. A principal questão passa pela construção de estruturas capazes de compatibilizar risco, retorno e prazo em projetos intensivos em capital, além de incorporar novos modelos de financiamento adaptados às demandas da transição energética.

Segundo eles, a expansão da mineração – necessária para atender à transição energética e às novas demandas da economia global – dependerá tanto da inovação tecnológica quanto da evolução dos modelos de financiamento. A capacidade de combinar capital privado, instrumentos públicos, mitigação de riscos e execução eficiente será decisiva para transformar oportunidades em investimentos efetivos nas próximas décadas.

O desafio de financiar a sustentabilidade em escala

Ao abrir a discussão, a diretora da VBProjetos, Viviane Behar, provocou os participantes sobre os obstáculos para transformar projetos sustentáveis em investimentos efetivos. “Quando olhamos para projetos concretos, queremos saber se o principal gargalo é realmente a inovação tecnológica, a execução ou a dificuldade de estruturar capital para ativos industriais de longo prazo”, questionou.

Uma mulher de blazer branco está sentada em uma cadeira de madeira no palco, segurando papéis e um microfone, discutindo o financiamento na mineração. Um copo de água e outra cadeira estão próximos, enquanto uma tela atrás dela exibe um texto em português.
Viviane Behar, diretora da VBProjetos (Foto: Mining Hub via Flickr)

O diretor de Transição Energética e Sustentabilidade do BNDES, Leonardo Pereira, reconheceu que o financiamento de projetos sustentáveis exige mecanismos diferentes daqueles tradicionalmente utilizados pelo mercado. “Para financiar projetos de sustentabilidade em escala, o que existe, na verdade, é uma assimetria de risco/retorno dos projetos, em relação ao que os acionistas e investidores procuram. Geralmente, temos um pouco mais de risco e um pouco menos de retorno”, explicou.

Um homem em um terno azul-marinho senta-se no palco segurando um microfone, falando sobre financiamento de mineração em um evento. Atrás dele, um texto em uma tela roxa diz: Sócio na YvY Capital. Um copo de água está em uma pequena mesa ao lado dele.
Leonardo Pereira, diretor de Transição Energética e Sustentabilidade do BNDES (Foto: Mining Hub via Flickr)

Segundo ele, a viabilização desses investimentos depende da combinação de diferentes instrumentos financeiros, capazes de reduzir riscos e aumentar a atratividade dos projetos. “Temos que combinar a estruturação de projetos, combinar P&D, mecanismos de blended finance e assunção de risco para projetos de maior incerteza, nos quais bancos e investidores não estão dispostos a investir”, afirmou.

O executivo destacou que o BNDES vem estruturando um portfólio de projetos ligados à transição energética, indústria de baixo carbono e soluções baseadas na natureza. “Montamos um pipeline de projetos financiáveis na área de transição energética e passamos a entender quais são os maiores riscos, as maiores barreiras e quais modelos de negócio podemos acelerar para fazer investimentos em escala. No mundo existem projetos semelhantes, mas nunca com a escala do Brasil”, lembrou.

Segundo Pereira, o interesse internacional por projetos brasileiros ligados à sustentabilidade e aos minerais críticos vem crescendo de forma significativa. “Acabamos de estruturar um project finance para investimentos de US$ 2 bilhões no setor de biocombustíveis SAF (combustível sustentável de aviação). Também estamos vendo um movimento importante em minerais críticos. Temos investidor canadense, australiano, europeu, chinês. Mas os mecanismos de financiamento e o project finance disponíveis hoje para concessões e PPPs ainda não estão disponíveis para financiar a sustentabilidade”, relatou.

Na avaliação dele, existe uma lacuna importante entre os instrumentos tradicionais de financiamento da infraestrutura e aqueles necessários para financiar a transformação sustentável da economia. “Temos que trazer essa turma que é muito boa em estruturação e também os fundos de investimento, tanto de equity quanto de dívida. Entendemos que mecanismos de concessionalidade podem fazer o de-risking dos projetos e ajudá-los a avançar”, sugeriu.

Viviane Behar destacou que o Brasil possui uma vantagem adicional frequentemente subestimada. “Temos uma vantagem comparativa impressionante que não foi tão falada, que é o mercado de capitais muito desenvolvido. Outros países emergentes que competem com o Brasil não têm um mercado de capitais tão desenvolvido, com tanta profundidade e liquidez como o Brasil tem”, ressaltou.

Custo do capital continua a ser obstáculo

Para o gestor de portfólio da YvY Capital, Bruno Laskowsky, a financiabilidade dos projetos está diretamente ligada ao ambiente econômico brasileiro. “Quando você fala de financiabilidade, está falando também de segurança e de custo de crédito. Esse é um tema central do Brasil. O custo do financiamento de projetos de longo prazo é muito alto”, afirmou.

Um homem careca de terno senta-se em uma cadeira, segurando um microfone e discutindo financiamento de mineração no palco, contra um fundo escuro com texto parcial visível.
Bruno Laskowsky, gestor de portfólio da YvY Capital (Foto: Mining Hub via Flickr)

Segundo o executivo, o custo do capital elevado continua sendo um dos principais entraves para o desenvolvimento de projetos estruturantes. “Temos uma taxa de juros muito alta. É importante lembrar que o Banco Central fixa a taxa de curto prazo. A taxa de longo prazo é precificada pelos agentes que avaliam o nível de risco. Portanto, no Brasil temos tanto a taxa de curto quanto a de longo prazo muito alta”, enfatizou.

Laskowsky argumentou que a infraestrutura necessária para a transição energética exige novos modelos financeiros. “Definimos nossa narrativa como uma migração da infraestrutura tradicional para a infraestrutura emergente. É a infraestrutura da transição energética, da substituição dos combustíveis fósseis, da floresta e da recuperação ambiental.”

Para ele, os mecanismos convencionais já não são suficientes para atender aos desafios atuais: “Os project finance e private equity tradicionais são formatos do século passado. O que os nossos projetos exigem hoje são formatos de financiamento em camadas preparados para o século XXI”, resumiu. Ele também alertou para o impacto dos juros elevados sobre a alocação de capital. “Enquanto não tivermos um caminho estruturante de redução dessa taxa, teremos uma complexidade adicional”.

Mineração é, antes de tudo, infraestrutura

O diretor global de operações da Anglo American, Ruben Fernandes, avaliou que a competitividade mineral depende diretamente da capacidade de desenvolver infraestrutura. “A mineração atual é diferente de quando comecei, há mais de 30 anos, assim como era diferente no século passado. Mas ela continua sendo, basicamente, infraestrutura”, resumiu.

Um homem de paletó preto está sentado em uma cadeira, segurando um microfone e olhando para a direita. Uma mesa com um copo de água está próxima a ele. O fundo roxo, com texto parcialmente branco, sugere uma discussão sobre financiamento de mineração.
Ruben Fernandes, diretor global de operações da Anglo American (Foto: Mining Hub via Flickr)

A queda dos teores minerais e a crescente complexidade dos projetos ampliaram a necessidade de investimentos em tecnologia, logística, energia e gestão de capital, na visão Fernandes. “Precisamos de água, de ferrovia ou da solução logística que for. Hoje, percebemos que o contexto mudou demais porque os teores [de minérios] são muito mais baixos. Portanto, precisamos de mais tecnologia e de mais eficiência na alocação de capital”, observou.

Fernandes destacou que minerais existem em diversas regiões do mundo, o que torna a competição por investimentos ainda mais intensa. “A questão não é extrair valor. É compartilhar valor. Dentro do portfólio global, precisamos ser competitivos”, afirmou.

Embora a disponibilidade de capital seja importante, ele destacou que a capacidade de execução é fator decisivo para atrair investimentos. “As empresas são muito boas em propor estratégias, mas falham na execução. Tem um estudo da McKinsey que fala que 70% das empresas falham na execução”, afirmou.

Na avaliação dele, a execução passa por vários fatores, que vão muito além da engenharia ou do projeto em si. “Ela envolve relacionamento com o mercado, entendimento de risco, relação com comunidades, governos e políticas públicas. Como conseguimos colocar tudo isso dentro de uma abordagem que permita seguir na execução?”, questionou.

O executivo lembrou que os investimentos minerais possuem horizontes de décadas. “O papel aceita tudo. Podemos comparar taxa de retorno e payback, mas e a execução daquele projeto? E a sustentabilidade daquele projeto? Temos que ser competitivos ao longo da vida da mina”, observou.

Como exemplo de projeto bem-sucedido, Fernandes citou um empreendimento de cobre da Anglo American no Peru, que permaneceu cerca de 15 anos em desenvolvimento antes de entrar em operação. Nesse caso, a companhia optou por investir antecipadamente em soluções demandadas pelas comunidades locais antes mesmo da aprovação definitiva do projeto. “Escutamos a sociedade e entramos em uma mesa de diálogo com doze itens principais. Aquilo foi a força motriz para ganharmos confiança. O capital tem muito a ver com isso. O capital segue a credibilidade”, afirmou.

BNDES amplia instrumentos para transição climática

Ao discutir o papel dos bancos de desenvolvimento, Leonardo Pereira defendeu que o financiamento da transição exige tanto redução do custo de capital quanto maior disposição para assumir riscos.

“Temos que trabalhar na redução do custo de capital, até porque ele é muito alto. Mas também temos que incentivar o apetite ao risco na medida em que o investidor está mirando uma taxa de retorno maior”, afirmou.

Segundo ele, o banco vem utilizando linhas de inovação, recursos do Fundo Clima e fundos de investimento para ampliar o alcance do financiamento sustentável. “Precisamos combinar mecanismos de dívida, blended finance e também equity”, explicou.

O executivo destacou ainda a criação de fundos voltados à transição climática. “O banco vai investir em cinco fundos de transição climática, inclusive no setor de mineração. Estamos mobilizando cerca de US$ 400 milhões. Entre recursos do banco e investimentos externos, estamos mobilizando quase US$ 3 bilhões nesses fundos de transição climática”, concluiu.

Dúvidas mais comuns

O financiamento de projetos minerais enfrenta desafios significativos devido à combinação de exigências ambientais crescentes, custos elevados de capital e períodos prolongados de maturação dos projetos. Além disso, existe uma assimetria de risco/retorno, onde os projetos sustentáveis apresentam maior risco e menor retorno do que o esperado por acionistas e investidores tradicionais, exigindo estruturas financeiras inovadoras para viabilizar os investimentos.

O BNDES estrutura um portfólio de projetos ligados à transição energética, indústria de baixo carbono e minerais críticos, utilizando linhas de inovação, recursos do Fundo Clima e fundos de investimento. O banco está investindo em cinco fundos de transição climática, mobilizando cerca de US$ 400 milhões em recursos próprios e quase US$ 3 bilhões em investimentos externos, combinando mecanismos de dívida, blended finance e equity para ampliar o alcance do financiamento sustentável.

Blended finance é um mecanismo que combina diferentes instrumentos financeiros para reduzir riscos e aumentar a atratividade de projetos sustentáveis. Na mineração, envolve a combinação de capital privado, instrumentos públicos, mitigação de riscos e execução eficiente, permitindo que bancos de desenvolvimento assumam riscos maiores em projetos de maior incerteza, nos quais investidores tradicionais não estão dispostos a investir.

O custo do capital elevado é um dos principais entraves para o desenvolvimento de projetos estruturantes no Brasil. O país possui tanto taxa de juros de curto prazo quanto de longo prazo muito altas, o que aumenta significativamente o custo do financiamento de projetos de longo prazo. Enquanto não houver um caminho estruturante de redução dessa taxa, haverá complexidade adicional na alocação de capital para projetos de mineração e transição energética.

Os modelos tradicionais de project finance e private equity não são mais suficientes para atender aos desafios atuais da mineração. São necessários formatos de financiamento em camadas preparados para o século XXI, que combinem estruturação de projetos, P&D, mecanismos de blended finance e assunção de risco. Esses novos modelos devem ser adaptados às demandas da transição energética e capazes de compatibilizar risco, retorno e prazo em projetos intensivos em capital.

A capacidade de execução é fator decisivo para atrair investimentos em mineração, pois os projetos minerais possuem horizontes de décadas e devem ser competitivos ao longo de toda a vida da mina. A execução envolve muito mais que engenharia ou projeto técnico, incluindo relacionamento com o mercado, entendimento de risco, relação com comunidades, governos e políticas públicas. Estudos mostram que 70% das empresas falham na execução de suas estratégias, tornando esse aspecto crítico para o sucesso dos investimentos.

O Brasil possui um mercado de capitais muito desenvolvido, com profundidade e liquidez superiores aos de outros países emergentes que competem com o país. Essa vantagem comparativa frequentemente subestimada permite que o Brasil estruture e financie projetos de mineração e transição energética de forma mais eficiente, atraindo investidores internacionais canadenses, australianos, europeus e chineses interessados em minerais críticos.

A mineração é fundamentalmente um negócio de infraestrutura que exige investimentos significativos em tecnologia, logística, energia e gestão de capital. A queda dos teores minerais e a crescente complexidade dos projetos ampliaram essas necessidades, tornando a competição por investimentos ainda mais intensa. A questão central não é apenas extrair valor, mas compartilhar valor dentro de um portfólio global, sendo necessário ser competitivo em relação a outras regiões do mundo que também possuem recursos minerais.