Hsia Hua Sheng, vice-presidente do Bank of China no Brasil e professor associado de finanças na FGV- EAESP
Hsia Hua Sheng (Divulgação/ Arte)

“Onde as grandes mineradoras estiverem, o Bank of China estará junto”, diz Hsia Hua Sheng

Vice-presidente do Bank of China no Brasil detalha os critérios de investimento do banco na mineração brasileira

Por Cinthia Saito * e Viviane Kulczynski *, 4 min de leitura

Publicado em 04/10/2025

Baixar PDF Copiar link

Nesta conversa exclusiva com o Radar Mineração, Hsia Hua Sheng, vice-presidente do Bank of China no Brasil e professor associado de finanças na Fundação Getúlio Vargas (FGV- EAESP), detalha a visão do banco sobre os investimentos na Amazônia, o futuro das parcerias em energia limpa e o modelo de financiamento ideal para a mineração do futuro, que já nasce com os pilares de sustentabilidade, inovação e desenvolvimento social.

A China é um parceiro comercial e investidor crucial para o Brasil. Ao avaliar grandes projetos de infraestrutura e mineração na Amazônia Legal, quais são os critérios de risco socioambiental e de governança (ESG) que o Bank of China prioriza?

Fachada do Bank of China.
Foto: Luis G. Vergara/ Adobe Stock

Para o Bank of China, como um setor bastante regulado, é muito importante olhar toda a parte de sustentabilidade e compliance socioambiental. A primeira coisa que nos preocupa é ter certeza de que os projetos relacionados com o nosso financiamento estejam em conformidade com a regulação e as regras de sustentabilidade e ambientais, sejam elas locais ou federais. Depois disso, avaliamos o prazo do financiamento, o volume necessário e quem participará conosco. Projetos dessa natureza envolvem um volume bastante grande, e um banco sozinho normalmente não consegue absorver tudo. Então, é muito comum formarmos um sindicato com mais bancos, incluindo privados e de desenvolvimento, para apoiar uma grande empresa de mineração em um projeto de sustentabilidade na Amazônia Legal, por exemplo.

O Bank of China já investe fortemente em energia solar e eólica no Brasil. Qual é o próximo passo dessa parceria? Seria ir além de financiar usinas e passar a investir na cadeia produtiva completa, ajudando o Brasil a fabricar aqui baterias, carros elétricos e equipamentos para hidrogênio verde, por exemplo?

Com certeza. Existe um direcionamento muito claro para os bancos chineses de fomentar a área de energia renovável, verde e sustentável. Essa transição econômica e industrial envolve não só as maiores empresas. No início, pode ser que sim, mas normalmente as grandes empresas trazem seus fornecedores e toda a cadeia, todo o ecossistema, vem junto. O Bank of China no Brasil é um banco de atacado, então normalmente financiamos a maior empresa, e é ela que vai puxar suas cadeias produtivas.

É um efeito em cascata?

Sim, normalmente é assim que funciona. Além disso, uma empresa do setor de mineração também faz parceria com outras empresas globais que provavelmente são nossas clientes corporativas. Nesse sentido, conseguimos financiar não só a empresa principal, mas também seus principais fornecedores globais.

O setor fala muito na Mineração do Futuro. A transição energética global demanda uma quantidade enorme de minérios como cobre e níquel. Do ponto de vista de um grande banco global, qual o modelo de financiamento ideal para projetos de mineração que já integram economia circular, baixo carbono e desenvolvimento comunitário?

Profissionais de negócios sentados à mesa com um modelo de turbina eólica ao fundo, discutindo estratégias sustentáveis.
Foto: Lee Charlie/ Shutterstock

Sem dúvida, a meta de emissão zero de carbono e a redução na produção de certos metais são parte dos KPIs (indicadores-chave de desempenho) para a aprovação de projetos de crédito, principalmente na área de energia verde. O banco não vai interferir na escolha econômica da empresa sobre qual metal é mais importante, se é cobre ou outro. Isso é uma decisão para especialistas do setor de mineração. Do nosso ponto de vista, a preocupação é muito mais sobre como aquele projeto contribui para a questão social e ambiental, para a redução da emissão de carbono e como ele ajuda a sociedade a atingir essas metas.

E qual o nível de maturidade que o senhor enxerga no Brasil para implementar projetos nesse sentido? Existem gargalos?

Eu acho que as maiores empresas brasileiras têm maturidade suficiente. Elas não atuam apenas como líderes no Brasil, mas são líderes globais. Portanto, essas empresas sabem como fazer, têm recursos e poder de negociação para construir uma cadeia mais limpa e sustentável, não só com players locais, mas também internacionais. Essas empresas globais brasileiras já estão inseridas na cadeia global e, agora, passam a ter mais condição de influenciar a forma dessa participação, seja com menos emissão ou trazendo inovações, como os briquetes verdes.

Conforme a mineração se torna mais sustentável, a tendência é que os investimentos chineses no Brasil aumentem?

A tendência dos bancos chineses é acompanhar as grandes mineradoras em seus investimentos globais. Uma grande mineradora não é mais uma empresa apenas brasileira; ela tem uma distribuição e investimentos globais muito importantes. Um banco parceiro e estratégico, como o Bank of China, vai acompanhar as grandes empresas do setor onde elas querem fazer o investimento.

O objetivo não é olhar apenas para o Brasil, e sim para as empresas globais brasileiras. Onde ela estiver, o banco está junto.

Então, à medida que o setor de mineração implementa mais projetos do futuro, que aliam retorno financeiro e consciência socioambiental, mais o banco vai querer investir, correto?

Com certeza. É preciso notar apenas um detalhe: o retorno para o banco não é imediato. Qualquer projeto sustentável olha sempre para o médio e longo prazo. E, nesse ponto, o Bank of China está comprometido com essa causa de energia limpa e renovável, junto com as empresas do setor que querem adotar essa filosofia.

Especial para o Radar Mineração

Dúvidas mais comuns

O Bank of China prioriza a conformidade com regulações locais e federais de sustentabilidade e compliance socioambiental. O banco avalia o prazo do financiamento, o volume necessário e os parceiros envolvidos no projeto. Como projetos de mineração envolvem volumes muito grandes, o banco frequentemente forma sindicatos com outros bancos privados e de desenvolvimento para apoiar grandes empresas em projetos sustentáveis.

Financiamento sustentável é aquele direcionado a projetos que geram benefícios ambientais ou sociais. Na mineração, envolve programas de recuperação de áreas degradadas, preservação da biodiversidade e proteção de espécies ameaçadas. O Bank of China integra critérios de emissão zero de carbono e redução de certos metais como KPIs (indicadores-chave de desempenho) para aprovação de projetos de crédito.

A mineração sustentável envolve programas de recuperação de áreas degradadas que vão além das áreas impactadas pela mineração, além de projetos de preservação da biodiversidade. Ela integra economia circular, baixo carbono e desenvolvimento comunitário, com foco em reduzir emissões de carbono e contribuir para metas sociais e ambientais. As grandes empresas brasileiras de mineração já possuem maturidade suficiente para implementar essas práticas, atuando como líderes globais.

O modelo ideal integra economia circular, baixo carbono e desenvolvimento comunitário, com metas claras de emissão zero de carbono como parte dos KPIs de aprovação. O banco avalia como o projeto contribui para questões sociais e ambientais e para a redução de emissão de carbono. É importante notar que o retorno para o banco não é imediato, pois projetos sustentáveis sempre olham para o médio e longo prazo.

O Bank of China já investe fortemente em energia solar e eólica no Brasil e planeja expandir para a cadeia produtiva completa, ajudando o Brasil a fabricar baterias, carros elétricos e equipamentos para hidrogênio verde. O banco financia a maior empresa do setor, que puxa suas cadeias produtivas em um efeito em cascata, permitindo financiar não só a empresa principal, mas também seus principais fornecedores globais.

As maiores empresas brasileiras de mineração possuem maturidade suficiente e atuam como líderes globais, não apenas no Brasil. Essas empresas têm recursos e poder de negociação para construir cadeias mais limpas e sustentáveis com players locais e internacionais. Elas já estão inseridas na cadeia global e agora têm mais condição de influenciar essa participação com menos emissão e inovações, como os briquetes verdes.

A tendência dos bancos chineses é acompanhar as grandes mineradoras em seus investimentos globais, onde quer que elas estejam. O Bank of China atua como banco parceiro e estratégico, focando não apenas no Brasil, mas nas empresas globais brasileiras. À medida que o setor de mineração implementa mais projetos que aliam retorno financeiro e consciência socioambiental, o banco aumenta seu interesse em investir.

A transição energética global demanda uma quantidade enorme de minérios como cobre e níquel para a produção de energia renovável e tecnologias limpas. O desafio é garantir que essa demanda seja atendida através de práticas sustentáveis que reduzam emissões de carbono e contribuam para o desenvolvimento comunitário, transformando a mineração em um setor alinhado com as metas globais de sustentabilidade.