- O Bank of China financia projetos de mineração na Amazônia Legal priorizando conformidade regulatória, sustentabilidade ambiental e formação de sindicatos bancários para absorver volumes elevados de investimento.
- O banco estabelece metas de emissão zero de carbono e redução de metais como KPIs obrigatórios para aprovação de crédito, especialmente em energia verde e mineração sustentável.
- Grandes mineradoras brasileiras possuem maturidade suficiente para implementar cadeias limpas e sustentáveis, atraindo investimentos chineses crescentes conforme expandem operações globais com consciência socioambiental.
Nesta conversa exclusiva com o Radar Mineração, Hsia Hua Sheng, vice-presidente do Bank of China no Brasil e professor associado de finanças na Fundação Getúlio Vargas (FGV- EAESP), detalha a visão do banco sobre os investimentos na Amazônia, o futuro das parcerias em energia limpa e o modelo de financiamento ideal para a mineração do futuro, que já nasce com os pilares de sustentabilidade, inovação e desenvolvimento social.
A China é um parceiro comercial e investidor crucial para o Brasil. Ao avaliar grandes projetos de infraestrutura e mineração na Amazônia Legal, quais são os critérios de risco socioambiental e de governança (ESG) que o Bank of China prioriza?

Para o Bank of China, como um setor bastante regulado, é muito importante olhar toda a parte de sustentabilidade e compliance socioambiental. A primeira coisa que nos preocupa é ter certeza de que os projetos relacionados com o nosso financiamento estejam em conformidade com a regulação e as regras de sustentabilidade e ambientais, sejam elas locais ou federais. Depois disso, avaliamos o prazo do financiamento, o volume necessário e quem participará conosco. Projetos dessa natureza envolvem um volume bastante grande, e um banco sozinho normalmente não consegue absorver tudo. Então, é muito comum formarmos um sindicato com mais bancos, incluindo privados e de desenvolvimento, para apoiar uma grande empresa de mineração em um projeto de sustentabilidade na Amazônia Legal, por exemplo.
O Bank of China já investe fortemente em energia solar e eólica no Brasil. Qual é o próximo passo dessa parceria? Seria ir além de financiar usinas e passar a investir na cadeia produtiva completa, ajudando o Brasil a fabricar aqui baterias, carros elétricos e equipamentos para hidrogênio verde, por exemplo?
Com certeza. Existe um direcionamento muito claro para os bancos chineses de fomentar a área de energia renovável, verde e sustentável. Essa transição econômica e industrial envolve não só as maiores empresas. No início, pode ser que sim, mas normalmente as grandes empresas trazem seus fornecedores e toda a cadeia, todo o ecossistema, vem junto. O Bank of China no Brasil é um banco de atacado, então normalmente financiamos a maior empresa, e é ela que vai puxar suas cadeias produtivas.
É um efeito em cascata?
Sim, normalmente é assim que funciona. Além disso, uma empresa do setor de mineração também faz parceria com outras empresas globais que provavelmente são nossas clientes corporativas. Nesse sentido, conseguimos financiar não só a empresa principal, mas também seus principais fornecedores globais.
O setor fala muito na Mineração do Futuro. A transição energética global demanda uma quantidade enorme de minérios como cobre e níquel. Do ponto de vista de um grande banco global, qual o modelo de financiamento ideal para projetos de mineração que já integram economia circular, baixo carbono e desenvolvimento comunitário?

Sem dúvida, a meta de emissão zero de carbono e a redução na produção de certos metais são parte dos KPIs (indicadores-chave de desempenho) para a aprovação de projetos de crédito, principalmente na área de energia verde. O banco não vai interferir na escolha econômica da empresa sobre qual metal é mais importante, se é cobre ou outro. Isso é uma decisão para especialistas do setor de mineração. Do nosso ponto de vista, a preocupação é muito mais sobre como aquele projeto contribui para a questão social e ambiental, para a redução da emissão de carbono e como ele ajuda a sociedade a atingir essas metas.
E qual o nível de maturidade que o senhor enxerga no Brasil para implementar projetos nesse sentido? Existem gargalos?
Eu acho que as maiores empresas brasileiras têm maturidade suficiente. Elas não atuam apenas como líderes no Brasil, mas são líderes globais. Portanto, essas empresas sabem como fazer, têm recursos e poder de negociação para construir uma cadeia mais limpa e sustentável, não só com players locais, mas também internacionais. Essas empresas globais brasileiras já estão inseridas na cadeia global e, agora, passam a ter mais condição de influenciar a forma dessa participação, seja com menos emissão ou trazendo inovações, como os briquetes verdes.
Conforme a mineração se torna mais sustentável, a tendência é que os investimentos chineses no Brasil aumentem?
A tendência dos bancos chineses é acompanhar as grandes mineradoras em seus investimentos globais. Uma grande mineradora não é mais uma empresa apenas brasileira; ela tem uma distribuição e investimentos globais muito importantes. Um banco parceiro e estratégico, como o Bank of China, vai acompanhar as grandes empresas do setor onde elas querem fazer o investimento.
O objetivo não é olhar apenas para o Brasil, e sim para as empresas globais brasileiras. Onde ela estiver, o banco está junto.
Então, à medida que o setor de mineração implementa mais projetos do futuro, que aliam retorno financeiro e consciência socioambiental, mais o banco vai querer investir, correto?
Com certeza. É preciso notar apenas um detalhe: o retorno para o banco não é imediato. Qualquer projeto sustentável olha sempre para o médio e longo prazo. E, nesse ponto, o Bank of China está comprometido com essa causa de energia limpa e renovável, junto com as empresas do setor que querem adotar essa filosofia.
* Especial para o Radar Mineração