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Sérgio Tauffer durante uma palestra apresentando o conceito do livro 'Sem Inteligente de Usina', destacando inovação e eficiência com tecnologia inteligente.
Sérgio Tauffer, especialista da área de confiabilidade de ativos da Vale

IA otimiza ativos, reduz custos e aumenta eficiência energética

Em palestra na Exposibram, líder do programa de IA na Vale apresenta soluções e destaca desafios do uso da tecnologia na mineração

Por Roberto Francellino, 4 min de leitura

Publicado em 30/10/2025

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  • A Vale implementa portfólio de inteligência artificial em operações de mina, beneficiamento, pelotização e logística para otimizar ativos, reduzir custos e melhorar eficiência energética em toda cadeia produtiva.
  • A empresa monitora 55% dos ativos críticos com detecção de anomalias via plataforma Sentinela e desenvolveu agentes de IA generativa como MarIA para extrair insights de relatórios operacionais complexos.
  • A qualidade dos dados representa o principal desafio em projetos de IA na mineração, consumindo mais de 80% do esforço, exigindo mudança cultural e capacitação de equipes para coleta correta na fonte.
Resumo revisado pela redação.

A Vale está implementando um portfólio extenso de soluções de inteligência artificial (IA) focado na otimização de processos, aumento de produtividade, redução do custo de produção e melhoria da eficiência energética em todas as suas operações. As iniciativas abrangem desde a mina até o porto, incluindo beneficiamento, pelotização, logística e projetos de capital.

Durante palestra na mini arena da companhia na Exposibram, Sérgio Tauffer, especialista da área de Confiabilidade de Ativos da Vale, detalhou a evolução da estratégia de IA, que começou em 2017 e ganhou força em 2022, com a parceria com o Centro de Monitoramento de Ativos (CMA). Segundo Tauffer, o ano de 2023 marcou um “grande boom” com o surgimento das LLMs (Grandes Modelos de Linguagem), levando ao desenvolvimento de soluções de IA generativa.

Um dos pilares centrais da estratégia é a democratização da tecnologia. Tauffer mencionou programas de treinamento e trilhas de capacitação com o objetivo de “empoderar os usuários” e aumentar a produtividade. “São 60 mil funcionários na Vale, nosso desejo é que a gente tenha 60 mil pessoas capacitadas com as ferramentas de inteligência artificial”, afirmou.

Aplicações práticas

Tauffer explicou que a Vale implementou soluções de IA em quatro frentes, a depender da maturidade de cada ativo. O primeiro é na detecção de anomalias, em que a empresa já cobre aproximadamente 55% dos seus ativos críticos.

O segundo uso é na predição de falhas (indicar o que está errado e quando falhará), que hoje atinge 12% dos ativos. O terceiro, na manutenção prescritiva (detectar, prever e prescrever a solução), é uma meta em desenvolvimento para 2026. O nível final, o “O&M Digital” (em que o sistema se autogerencia), ainda é considerado distante da realidade atual.

Para gerenciar essa confiabilidade, a Vale utiliza a plataforma “Sentinela”, que monitora ativos fixos – com prioridade para transportadores de correia, considerados os mais críticos por estarem em todas as fases da operação – e ativos móveis, como caminhões fora de estrada e perfuratrizes. A plataforma coleta dados de sensores e usa modelos para prever falhas, direcionando as equipes de inspeção.

Para ativos móveis, a solução é o “MH” (My Health), que utiliza dados de telemetria e análise de óleo para prever falhas em componentes.

IA generativa e vídeo analytics

Pessoa analisando gráficos e dados estatísticos em um monitor de computador em ambiente de escritório moderno, falando sobre análise de dados e negócios.
Foto: Andrey_Popov / Shutterstock

Seguindo a expansão de 2023, a Vale desenvolveu a “MarIA” (Manutenção e Análise de Riscos usando Inteligência Artificial). Trata-se de um agente de IA generativa que auxilia as equipes de CMA a extrair informações de performance e relatórios.

“É um prompt com perguntas do tipo: ‘Qual foi a classe de ativos com maior volume de falhas no último trimestre?’ ou ‘Qual foi a disponibilidade física do mês passado em Brucutu?'”, explicou Tauffer. Segundo ele, a ferramenta economiza tempo de analistas que, de outra forma, precisariam ler relatórios de 100 a 150 páginas.

A MarIA é complementada pelo “AVM” (Assistente Virtual de Mineração), que foca em informações mais granulares e de curto prazo, como a produção de pelotas de uma usina específica no dia anterior.

Outra frente de destaque é o uso de video analytics para aumentar a segurança e a confiabilidade, substituindo inspeções manuais em locais de risco. Tauffer apresentou exemplos de algoritmos que inspecionam alimentadores de sapata, filtros de disco e correias transportadoras (detectando rasgos, bolhas, irregularidades e medindo espessura).

Da eficiência energética ao preditor de neblina

Nas operações de mina, a Vale aplica IA para ganhos de eficiência e segurança. Uma das principais soluções é um programa de eficiência energética para equipamentos móveis. Após um período de captura de dados de telemetria, um modelo matemático foi criado para fornecer recomendações de velocidade e aceleração para os operadores de caminhão, por trecho, visando a reduzir o consumo de combustível e, consequentemente, a pegada de carbono. “Nas minas onde isso foi implantado, o resultado foi fantástico”, disse Tauffer.

Outra solução específica é o preditor de neblina, desenvolvido para lidar com um grande desafio nas operações de Minas Gerais, onde a neblina densa frequentemente impede a operação por questões de segurança. “Com o preditor de neblina, a gente consegue ver com dois a cinco dias de antecedência qual vai ser a chance de neblina”, explicou. Se a previsão indicar 90% de chance de paralisação, as equipes utilizam a janela de oportunidade para programar manutenções, otimizando o tempo de parada.

O portfólio se estende às usinas, com o “smart screen” – que usa câmeras para ajustar a frequência de peneiras vibratórias conforme a granulometria –  e a “pelota inteligente” – para redução de custo variável, além de soluções de logística, como um preditor de demurrage (sobrestadia de navios), e de planejamento ligado ao Centro de Operações Integradas (COE).

O desafio central: a qualidade dos dados

Questionado sobre os maiores desafios, Sérgio Tauffer foi enfático: a qualidade dos dados é a principal barreira, consumindo mais de 80% do esforço em qualquer projeto de IA.

“O mantra da ciência de dados é ‘garbage in, garbage out’. Se você tem um dado ruim na entrada, não adianta você fazer nada; vai sair lixo”, afirmou.

Ele citou dificuldades recorrentes, como sensores que não são religados após manutenção, tags descalibradas ou dados faltantes. Tauffer usou a “analogia do balde” para explicar que muitas vezes se pede à IA uma “troca automatizada de balde” (uma solução para um sintoma), quando o problema real é o “cano furado” (o processo de coleta de dados na fonte). Para ele, a solução para isso não é a IA, mas uma mudança cultural, capacitação e cobrança da liderança pelo preenchimento correto dos dados.

Estratégia de desenvolvimento

Tauffer também revelou uma mudança na estratégia de desenvolvimento. Após anos operando com parceiros estratégicos como IBM, Deloitte e Accenture, a Vale percebeu que a alta rotatividade e a dinâmica do mercado de IA prejudicavam o andamento dos projetos.

Em resposta, na virada de 2024 para 2025, a empresa realizou a primeira contratação de desenvolvedores próprios em quase 25 anos. O AI Center conta hoje com 16 profissionais contratados pela Vale que trabalham em conjunto com os parceiros para desenvolver e sustentar as soluções.

Confira a cobertura completa da Exposibram na página especial do Radar Mineração.

Dúvidas mais comuns

A Vale implementou um portfólio extenso de soluções de IA focado na otimização de processos, aumento de produtividade, redução do custo de produção e melhoria da eficiência energética. As iniciativas abrangem desde a mina até o porto, incluindo beneficiamento, pelotização, logística e projetos de capital, com estratégia que começou em 2017 e ganhou força em 2022 com a parceria com o Centro de Monitoramento de Ativos (CMA).

A Vale implementou soluções de IA em quatro frentes conforme a maturidade de cada ativo: detecção de anomalias (cobrindo 55% dos ativos críticos), predição de falhas (12% dos ativos), manutenção prescritiva (meta para 2026) e O&M Digital (autogerenciamento do sistema, ainda distante da realidade atual).

A Sentinela é a plataforma de monitoramento de ativos da Vale que coleta dados de sensores e utiliza modelos para prever falhas. Monitora ativos fixos como transportadores de correia (considerados os mais críticos) e ativos móveis como caminhões fora de estrada e perfuratrizes, direcionando as equipes de inspeção com base nas previsões.

A Vale desenvolveu a MarIA (Manutenção e Análise de Riscos usando Inteligência Artificial), um agente de IA generativa que auxilia as equipes a extrair informações de performance e relatórios através de prompts com perguntas específicas. Complementarmente, o AVM (Assistente Virtual de Mineração) fornece informações mais granulares e de curto prazo, economizando tempo de analistas que precisariam ler relatórios extensos.

A qualidade dos dados é a principal barreira, consumindo mais de 80% do esforço em qualquer projeto de IA. Problemas recorrentes incluem sensores não religados após manutenção, tags descalibradas e dados faltantes. A solução requer mudança cultural, capacitação e cobrança da liderança pelo preenchimento correto dos dados, não apenas soluções tecnológicas.

A Vale desenvolveu um programa de eficiência energética para equipamentos móveis que utiliza dados de telemetria para criar modelos matemáticos que fornecem recomendações de velocidade e aceleração aos operadores de caminhão por trecho, reduzindo o consumo de combustível e a pegada de carbono com resultados considerados fantásticos nas minas onde foi implantado.

O preditor de neblina foi desenvolvido para lidar com o desafio de operações em Minas Gerais, onde neblina densa frequentemente impede a operação por questões de segurança. A solução permite prever com dois a cinco dias de antecedência a chance de neblina, possibilitando que as equipes programem manutenções durante as janelas de oportunidade e otimizem o tempo de parada.

Após anos operando com parceiros estratégicos como IBM, Deloitte e Accenture, a Vale percebeu que a alta rotatividade prejudicava o andamento dos projetos. Na virada de 2024 para 2025, a empresa realizou a primeira contratação de desenvolvedores próprios em quase 25 anos, criando um AI Center com 16 profissionais que trabalham em conjunto com os parceiros para desenvolver e sustentar as soluções.