Laboratório de Materiais Magnéticos -MAGMA, da UFSC
Laboratório de Materiais Magnéticos - MAGMA, da UFSC. Um dos principais centros de pesquisa brasileiros focado no processamento e na fabricação de superímãs à base de terras-raras (Foto: MAGMA/ UFSC)

Corrida tecnológica é prioridade de governo, avalia Ibram

País deve organizar esforço para dominar tecnologia de processamento de terras raras em escala industrial, defende Pablo Cesário

Por Ana Paula Grabois, 2 min de leitura

Publicado em 26/05/2026

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Para o diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Pablo Cesário, o que vai diferenciar o Brasil entre os países mineradores são as capacidades industrial e tecnológica já estabelecidas. “Nós construímos no Brasil empresas que são competitivas globalmente, que estão jogando no primeiro escalão. E isso não é apenas na vanguarda das grandes empresas de commodities, mas também dos produtos de nicho que têm cadeias menores ou transacionam volumes menores. E temos competitividade tanto em recursos humanos quanto em conhecimento científico”, diz.  

Na avaliação dele, há desafios quando se trata da fronteira tecnológica em terras raras no processamento, concentração, industrialização e aplicação dessas substâncias químicas nas aplicações finais ao consumidor. Ele cita a fabricação de baterias como exemplo e completa que “temos um desafio relevante no processamento em larga escala de terras raras e outros elementos pesados. Precisamos, por exemplo, recuperar a capacidade de processamento de urânio dentro dos elementos pesados de outros elementos radioativos”.

Cesário ressalta as empresas que têm obtido sucesso em desenvolver e aplicar novas tecnologias nas operações de minerais críticos ou terras raras, como a CNMM, a Serra Verde e Borborema. “Há muitas empresas trabalhando na fronteira tecnológica. Muito mais do que a dádiva [de ter a reserva], é ter como construir um conhecimento para aproveitar esses recursos da extração até a aplicação para o cliente final”, afirma.

Minerais críticos como política de Estado

A corrida tecnológica em torno dos minerais críticos entrou na primeira escala de prioridade do atual governo, segundo Cesário. Ele diz que o presidente da República declarou a intenção de que os Estados Unidos venham negociar com o Brasil e não com a China, porque teremos a tecnologia. “Ele fez mais de uma declaração sobre isso. Há a sensibilidade de que esse papel é também do Estado. Não há no mundo empresa que faça sozinha. Sempre há arranjo entre os setores público e privado”, avalia.

Diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Pablo Cesário
Pablo Cesário (Foto: Divulgação/ IBRAM)

Ele cita que há várias iniciativas do governo neste sentido, como o edital da Finep para minérios e transição energética, desenvolvido em conjunto com a União Europeia. Há também a formação recente de um grupo de trabalho para coordenar os investimentos em minerais críticos e estratégicos no Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), conforme reportou o Radar Mineração.  “É uma boa iniciativa porque é preciso o investimento conjunto do setor privado e do setor público. Mas há também o desafio de coordenar as redes de pesquisas que, nesse momento, operam e têm capacidade, mas, para grandes desafios tecnológicos, é necessário projetos estruturadores”. 

O pedido levado pelo setor recentemente ao MCTI e que deve se estender a outros agentes públicos, conclui Cesário, é para que o país faça um esforço específico para dominar a tecnologia de processamento em escala industrial de terras raras, em particular dos elementos químicos pesados.

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Dúvidas mais comuns

A corrida tecnológica em minerais críticos e terras raras entrou na primeira escala de prioridade do governo atual porque o Brasil possui uma das maiores reservas de terras raras do mundo. O governo reconhece que dominar a tecnologia de processamento em escala industrial é essencial para que o país negocie diretamente com potências como os Estados Unidos, em vez de depender da China. Além disso, a capacidade tecnológica em processamento, concentração e industrialização de terras raras é fundamental para aplicações finais em baterias, energia renovável e tecnologia.

O principal desafio é desenvolver capacidade de processamento em larga escala de terras raras e elementos pesados, incluindo a recuperação da capacidade de processamento de urânio e outros elementos radioativos. Atualmente, o Brasil possui competitividade global em extração de commodities e recursos humanos qualificados, mas precisa avançar na fronteira tecnológica de industrialização e aplicação dessas substâncias químicas nas aplicações finais ao consumidor, como na fabricação de baterias.

Empresas como CNMM, Serra Verde e Borborema têm obtido sucesso em desenvolver e aplicar novas tecnologias nas operações de minerais críticos e terras raras. A Serra Verde, em particular, opera a mina de Pela Ema em Minação (GO), a única mina de argilas iônicas ativa do Brasil, produzindo desde 2024 as quatro terras raras pesadas mais críticas e valiosas fora da Ásia: Disprósio, Térbio, Neodímio e Ítrio.

Segundo o diretor-presidente do Ibram, não há no mundo empresa que desenvolva sozinha tecnologias de minerais críticos. É necessário um arranjo entre os setores público e privado, com investimento conjunto e coordenação de políticas. O governo já iniciou ações como o edital da Finep para minérios e transição energética, desenvolvido com a União Europeia, e a formação de um grupo de trabalho no Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação para coordenar investimentos em minerais críticos e estratégicos.

Ter reservas de terras raras é apenas o ponto de partida. O diferencial entre países mineradores está nas capacidades industrial e tecnológica estabelecidas. O Brasil precisa construir conhecimento para aproveitar esses recursos desde a extração até a aplicação para o cliente final. Isso envolve dominar tecnologias de processamento, concentração, industrialização e aplicação das substâncias químicas, não apenas possuir as matérias-primas.

O Estado tem papel fundamental na estratégia de minerais críticos, não apenas o setor privado. O governo deve fazer um esforço específico para dominar a tecnologia de processamento em escala industrial de terras raras, em particular dos elementos químicos pesados. Isso inclui investimentos estruturadores, coordenação de redes de pesquisa e políticas públicas que permitam ao Brasil negociar com potências globais como os Estados Unidos a partir de uma posição de força tecnológica.

As terras raras têm aplicações críticas em tecnologias modernas, como a fabricação de baterias para veículos elétricos e energia renovável. Por exemplo, um megawatt de capacidade de energia eólica requer 171 kg de terras raras, e a fabricação de um carro elétrico Prius exige 1 kg de terras raras. Dominar o processamento e industrialização dessas substâncias permite ao Brasil capturar maior valor agregado na cadeia produtiva global.

O governo lançou várias iniciativas, incluindo o edital da Finep para minérios e transição energética, desenvolvido em conjunto com a União Europeia, e a formação recente de um grupo de trabalho no Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação para coordenar investimentos em minerais críticos e estratégicos. Essas ações buscam coordenar investimentos do setor privado e público, além de articular redes de pesquisa para enfrentar grandes desafios tecnológicos.