BELO HORIZONTE – O presidente do Conselho Internacional de Mineração e Metais (ICMM), Rohitesh Dhawan, foi direto ao ponto em seu discurso no primeiro dia da Exposibram: a mineração vive uma janela rara de oportunidade e não tem o direito de desperdiçá-la. A afirmação feita no painel “A Nova Geopolítica dos Minérios”, do qual Roh foi o keynote speaker, tem como base a nova realidade geopolítica, marcada por tensões entre potências e pelo protagonismo de países emergentes, incluindo o Brasil.
A instabilidade contemporânea mudou as regras do jogo. Com os Estados Unidos revendo seu papel global e a política europeia em ebulição, a mineração abandonou os bastidores e assumiu o centro da agenda diplomática mundial.
”Em poucos anos, vimos acontecer na indústria uma mudança que equivale a uma geração inteira”, afirmou Roh. Essa guinada aparece nos números:
· Cem países adotaram políticas para minerais críticos desde 2020.
· O tema entrou definitivamente na pauta das reuniões do G7 e do G20.
· O fornecimento estratégico é hoje uma das três questões principais nas negociações bilaterais entre Washington e Pequim.
· O poder assimétrico das terras raras
Para dar dimensão ao problema, o executivo usou a matemática. Motores dependem de magnetos, que, por sua vez, dependem de terras raras — cujo processamento é amplamente dominado pela China.
Se os EUA perderem 30% desse suprimento, o baque imediato na economia seria de US$ 600 bilhões (2,2% do PIB americano). Por outro lado, as exportações de terras raras chinesas somaram US$ 3,2 bilhões no último ano. A conclusão de Roh é clara: a China tem capacidade de causar um dano econômico estrondoso aos americanos abrindo mão de uma fração mínima de suas receitas.
”Nunca tivemos esse nível de poder assimétrico ligado a apenas uma commodity”, alertou, explicando o motivo pelo qual governos de várias partes do planeta passaram a intervir com força total no setor.
O estado volta ao jogo e o protecionismo cresce
A resposta global vem gerando mudanças rápidas. Nas Filipinas, o prazo para licenças minerárias caiu de nove anos para nove meses. A Austrália, em um movimento considerado impensável até pouco tempo, injetou US$ 2,5 bilhões para manter uma fundição ativa.
Há também forte entrada de capital de fundos do Oriente Médio na indústria. Paralelamente, países como o Canadá barram aquisições internacionais alegando questões de segurança nacional, enquanto outras nações restringem a exportação de minérios brutos para forçar a industrialização interna.
Sinais verdes: mercado em alta e novos talentos
O cenário atrai bons ventos. A capitalização de mercado da mineração global quase dobrou nos últimos 18 meses. O setor também voltou a chamar a atenção dos jovens profissionais: no Chile, a empresa preferida por esse público já é uma mineradora, superando as gigantes de tecnologia e os grandes bancos.
Roh elogiou parcerias estratégicas recentes, citando a união da Anglo American com a Vedanta, e destacou ações da Vale, tanto no acordo firmado com a Coreia do Sul quanto nos programas de atração de novos talentos.
Responsabilidade inegociável
O momento de alta, porém, não autoriza o abandono das metas socioambientais. O executivo listou as prioridades inegociáveis da indústria:
· Segurança de ponta: A meta de “acidente zero” segue distante. É urgente aplicar tecnologia disponível para eliminar mortes por quedas, deslizamentos e colisões de veículos.
· Combate à mineração ilegal: A indústria formal precisa liderar o enfrentamento na área, frente na qual a Vale foi novamente citada como referência.
· Gestão de comunidades: Ir além das consultas prévias e testar modelos de cogestão e copropriedade com povos indígenas e moradores locais.
· Barragens seguras: O ICMM anunciará em breve as diretrizes do Global Tailings Management Institute (GTMI), exigindo padrões globais rígidos de segurança dos signatários.
O ciclo dos sete anos
Fechando seu discurso, Roh recorreu à conhecida metáfora das sete vacas gordas devoradas por sete vacas magras para definir o momento da mineração: um ciclo de forte prosperidade, seguido invariavelmente por um período de escassez.
"Acredito que estamos vivendo agora um período de prosperidade. Talvez sejam cinco ou dez anos. Mas, quando a escassez chegar, espero que possamos olhar as pessoas nos olhos e dizer que construímos as fundações não apenas para uma indústria que supre o mundo, mas que faz isso de uma forma da qual todos nos orgulhamos."
* Especial para o Radar Mineração.