Vista aérea de campos de evaporação para produção de lítio no norte da Argentina
Vista aérea de campos de evaporação para produção de lítio no norte da Argentina (Foto: Freedom_wanted/ Shutterstock)

América Latina ganha destaque em minerais críticos, mas refino é gargalo

Relatório da Agência Internacional de Energia aponta que a região reúne reservas estratégicas e matriz energética renovável, mas precisa avançar no processamento local

Por Rodrigo Conceição Santos, 5 min de leitura

Publicado em 16/07/2026

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A América Latina reúne algumas das principais vantagens competitivas para reduzir a vulnerabilidade das cadeias globais de suprimento de minerais críticos, mas precisa transformar a força na mineração em capacidade industrial de processamento e refino. Essa é uma das principais conclusões do “Global Critical Minerals Outlook 2026”, relatório divulgado recentemente pela Agência Internacional de Energia (IEA).

O estudo avaliado pelo Radar Mineração analisa o ano de 2025, no qual o mercado foi marcado pela volatilidade nos preços minerais e pelo avanço de controles de exportação, principalmente por parte da China, ampliando riscos para cadeias produtivas como a de automóveis, defesa, eletrônicos e alta tecnologia.

Segundo a IEA, esse contexto tornou evidente a fragilidade de cadeias altamente concentradas e acelerou a busca por novos fornecedores, novas rotas de processamento e maior diversificação geográfica, o que resultou na América Latina como destaque.

América Latina concentra cobre, lítio e minerais estratégicos

Mina de cobre no Chile
Mina de cobre no Chile (Foto: Jose Luis Stephens/ Shutterstock)

A participação latino-americana na produção mineral mundial já é expressiva. A região responde por cerca de 40% da produção global de cobre, impulsionada principalmente por Chile, Peru e México, além de representar mais de 20% da produção mundial de estanho e zinco.

O relatório destaca ainda o peso da região em minerais considerados fundamentais para a eletrificação da economia.

O chamado “triângulo do lítio”, formado por Argentina, Bolívia e Chile, concentra mais de um terço das reservas mundiais e aproximadamente um quarto da produção global. A expectativa da IEA é que a produção regional cresça quase 50% até o final desta década.

O Brasil também ocupa posição de destaque em minerais especializados. O país responde por mais de 90% da produção mundial de nióbio, enquanto o Chile produz mais de um terço do rênio consumido globalmente.

Além disso, a agência identifica grande potencial de expansão em reservas ainda pouco exploradas de grafita, níquel, prata e terras raras.

Fortalecimento do refino

Apesar da relevância mineral, a região ainda captura apenas uma parcela limitada do valor gerado pela cadeia produtiva, pois apenas 20% dos minerais energéticos extraídos na América Latina passam por processos locais de refino. O restante é exportado na forma bruta, com exceção do lítio.

O relatório calcula que, caso a América Latina desenvolva capacidade para refinar internamente todo o lítio, níquel, cobalto, grafita e terras raras produzidos localmente, além de aproximadamente dois terços do cobre extraído, poderá adicionar ao mercado internacional até 2035 cerca de:

  • 10 mil toneladas de lítio refinado;
  • 55 mil toneladas de níquel;
  • quase 70 mil toneladas de grafita.

Embora esses volumes não eliminem sozinhos os déficits previstos de oferta, a agência considera que seriam suficientes para reduzir significativamente as lacunas globais de suprimento e aumentar a resiliência das cadeias internacionais diante de interrupções.

O impacto econômico também seria expressivo: segundo as estimativas da IEA, a agregação de valor local poderia elevar em quase 50% a receita gerada pela cadeia mineral latino-americana, alcançando cerca de US$ 220 bilhões até 2035.

Energia limpa e avanço tecnológico

Vista aérea da usina hidrelétrica de Belo Monte
Vista aérea da usina hidrelétrica de Belo Monte (Foto: Tarcisio Schnaider/ Shutterstock)

Outro diferencial competitivo da América Latina é a matriz elétrica, com mais de 60% dela com origem em fontes renováveis. A geração hidrelétrica do Brasil é um destaque do documento. Já na Colômbia, chama a atenção a rápida expansão da energia solar, enquanto o Chile avançou consideravelmente na geração eólica.

A oferta de energia renovável é importante porque reduz a intensidade das emissões de gases de efeito estufa associadas à mineração, tornando os produtos latino-americanos potencialmente mais competitivos em mercados que passam a exigir cadeias produtivas com menor pegada de carbono.

Já do ponto de vista tecnológico, a IEA identificou avanços importantes em diferentes países da região.

Na Argentina, projetos de Extração Direta de Lítio (DLE) já operam em escala comercial, enquanto Chile e Bolívia desenvolvem iniciativas semelhantes para ampliar a recuperação do mineral com menor consumo de água.

O Brasil aparece como referência em projetos voltados à produção de terras raras por meio da extração em argilas de adsorção iônica, utilizando eletricidade de baixa emissão, além de desenvolver novas rotas para fabricação de materiais destinados aos ânodos de baterias a partir da combinação de grafita, silício e compostos de nióbio.

Essas iniciativas ampliam as possibilidades de inserção da região em segmentos industriais de maior valor agregado.

Países aceleram reformas para atrair investimentos

O relatório destacou também que vários governos latino-americanos vêm implementando políticas para reduzir riscos e atrair capital privado para projetos minerais.

O Chile trabalha na criação de um sistema centralizado de licenciamento ambiental e mineral, com potencial para reduzir em até 70% o tempo necessário para obtenção das autorizações. Já o Peru digitalizou os processos de exploração mineral por meio de uma plataforma integrada de “janela única”.

No Brasil, a Política Nacional de Mineração 2050 busca estimular o desenvolvimento de uma cadeia produtiva completa, desde a mineração até a fabricação de ímãs permanentes de terras raras.

Segundo a IEA, essas iniciativas podem reduzir os custos elevados de financiamento, infraestrutura e logística, considerados como principais entraves para transformar reservas minerais em projetos industriais competitivos.

Além das políticas nacionais, o estudo ressalta que a cooperação entre países latino-americanos poderá ampliar a competitividade regional.

A complementaridade entre as capacidades metalúrgicas brasileiras, a tradição mineradora de Chile e Peru e a base industrial mexicana, por exemplo, cria condições para o desenvolvimento de cadeias integradas de produção.

Projetos de infraestrutura, como os corredores bioceânicos que conectam Argentina, Bolívia, Brasil e Chile, também aparecem como instrumentos para reduzir custos logísticos e facilitar o acesso dos minerais críticos aos mercados internacionais.

Diversificação global avança em outras regiões

Mapa do Cinturão do Cobre Africano na África Central destacando as regiões com maior concentração de cobalto, uma das maiores do mundo, na República Democrática do Congo e arredores.
Mapa do Cinturão do Cobre Africano na África Central destacando as regiões com maior concentração de cobalto, uma das maiores do mundo, na República Democrática do Congo e arredores – Foto: Wikimedia Commons / USGS / Adaptação para o português

O estudo da IEA aponta que outras regiões também vêm ampliando investimentos para reduzir a concentração da oferta mundial de minerais.

Na África, a República Democrática do Congo e a Zâmbia lideram a expansão da produção de cobre, enquanto Mali e Zimbábue aceleram projetos de lítio. Já Moçambique, Madagascar e Tanzânia ganham importância como novas fronteiras para grafita e terras raras.

Na Ásia-Pacífico, a Indonésia consolida sua liderança no níquel, com expectativa de responder por praticamente todo o crescimento da mineração e por cerca de 80% da expansão global do refino até 2030. 

A Austrália permanece como um dos principais fornecedores de lítio e amplia investimentos em terras raras e cobalto, enquanto Malásia e Vietnã fortalecem suas capacidades de processamento fora da China.

Na América do Norte, Canadá e Estados Unidos aceleram projetos voltados à produção de grafita, cobre, terras raras, ácido fosfórico purificado e fabricação de ímãs permanentes, enquanto a Europa aposta menos na mineração e mais na instalação de plantas de refino e processamento, especialmente para grafita e terras raras.

O relatório também destaca o avanço do Marrocos na cadeia de materiais para baterias, com projetos de produção de ácido fosfórico purificado, e o crescimento da demanda por cobre e armazenamento de energia na Arábia Saudita.

Segurança das cadeias dependerá da diversificação

Ao longo do documento, a IEA reforça que a volatilidade registrada em 2025 e a expansão dos controles de exportação transformaram a segurança do abastecimento em prioridade para governos e indústrias.

Na avaliação da agência, a construção de cadeias mais resilientes dependerá da combinação entre investimentos em mineração, expansão da capacidade de refino, inovação tecnológica, reciclagem de materiais e cooperação internacional.


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