Da esquerda para a direita: Rafael Bittar, Daniel Gomes, Elias Ramos, Kilma Cunha, Patricio Pastorelli e Ricardo Fonseca
Da esquerda para a direita: Rafael Bittar, Daniel Gomes, Elias Ramos, Kilma Cunha, Patricio Pastorelli e Ricardo Fonseca (Foto: Vale)

Liderança e colaboração pautam o futuro da inovação

Com investimentos bilionários em inovação, lideranças debatem o uso de inteligência artificial, a urgência da diversidade nas equipes e estratégias para garantir a soberania tecnológica do país

Por Luciana Ciaravolo*, 5 min de leitura

Publicado em 26/08/2026

Baixar PDF Copiar link

Belo Horizonte – A urgência global pela transição energética colocou a indústria mineral no centro do desenvolvimento tecnológico. Afinal, sem metais, não há tecnologia, data centers ou fontes de energia renovável. Para debater os caminhos e desafios de modernização do setor, o painel “O papel da liderança em Inovação”, realizado na Exposibram 2026, reuniu representantes do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Vale, Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) e BHP.

Com mediação de Rafael Bittar, vice-presidente Técnico da Vale, o encontro destacou que superar a imagem de uma indústria arcaica exige conectar centros de pesquisa, políticas públicas governamentais e a iniciativa privada, transformando desafios operacionais em vantagens competitivas de longo prazo.

Da esquerda para a direita: Rafael Bittar, Daniel Gomes, Elias Ramos, Kilma Cunha, Patricio Pastorelli e Ricardo Fonseca
Da esquerda para a direita: Rafael Bittar, Daniel Gomes, Elias Ramos, Kilma Cunha, Patricio Pastorelli e Ricardo Fonseca (Foto: Vale)

O motor do financiamento público e a neoindustrialização

A neoindustrialização do Brasil tem como um de seus eixos estruturantes o apoio robusto à ciência e tecnologia. De acordo com Daniel Gomes, representante do MCTI, o governo tem utilizado instrumentos como o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) e a Lei do Bem para alavancar o setor privado.

Os números atestam a relevância da política: a Lei do Bem já contabilizou um investimento privado de R$ 51,6 bilhões em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), frente a uma renúncia fiscal de R$ 12 bilhões. O país busca elevar os investimentos totais em P&D para 2% do PIB, aproximando-se de potências globais.

Elias Ramos, diretor de Inovação da Finep
Elias Ramos, diretor de Inovação da Finep (Foto: Vale)

No campo do crédito, Elias Ramos, diretor de Inovação da Finep, ressaltou o papel da agência no compartilhamento de riscos com as empresas. Com taxas de juros baseadas na TR (abaixo da inflação), a entidade saltou de operações anuais na casa dos R$ 2 bilhões para os atuais R$ 30 bilhões. Além disso, a agência atua fortemente no financiamento de tecnologias de ponta, inserida no programa brasileiro de inteligência artificial, que prevê aportes de R$ 23 bilhões para tornar o país competitivo mundialmente.

Sustentabilidade e eficiência na prática operacional

Kilma Cunha, diretora de operações na Vale Base Metals
Kilma Cunha, diretora de operações na Vale Base Metals (Foto: Vale)

Para que a inovação saia do papel, ela precisa estar integrada à rotina das operações, garantindo segurança e desempenho. Kilma Cunha, diretora de operações na Vale Base Metals, destacou que o sucesso tecnológico passa pela capacitação de equipes locais. No sudeste do Pará, 75% da formação profissional é voltada para talentos da região.

A executiva apresentou casos práticos de ganhos de eficiência, como a construção do Forno 2 da unidade de Onça Puma. Orçado em US$ 555 milhões, o projeto foi entregue 45 dias antes do prazo e com custo 13% menor que o previsto. A planta utiliza tecnologias de descarbonização, reaproveitando gases quentes e operando com veículos autônomos.

Outro marco de inovação sustentável da unidade é a transformação de 8 milhões de toneladas de escória (rejeito inerte) em coprodutos para a construção civil, como asfalto e blocos de pavimentação para cidades da região.

Inteligência Artificial e a expansão para novos mercados

Ricardo Fonseca, CEO da CBMM
Ricardo Fonseca, CEO da CBMM (Foto: Vale)

A inovação também é a chave para a sobrevivência e diversificação de mercado. Ricardo Fonseca, CEO da CBMM, detalhou como a companhia, ao longo de 70 anos, transformou o nióbio — antes sem aplicação prática conhecida — em um produto de alto valor agregado exportado para o mundo todo. Investindo entre R$ 250 milhões e R$ 300 milhões anuais em P&D, a empresa expandiu o uso do mineral da siderurgia para baterias, lentes de alta resolução, equipamentos de ressonância magnética e turbinas aeroespaciais.

A companhia também é um exemplo de aplicação prática de inteligência artificial. Por meio da criação de Digital Twins (gêmeos digitais) de plantas siderúrgicas parceiras, a CBMM reduziu o tempo de testes de novas ligas de aço de um ano para poucos dias, otimizando o processo e comprovando aos clientes a redução de custos e de emissões de CO2 por tonelada produzida.

Inovação aberta e ecossistemas colaborativos

Patricio Pastorelli, gerente de Ecossistemas de Inovação da BHP
Patricio Pastorelli, gerente de Ecossistemas de Inovação da BHP (Foto: Vale)

Nenhuma empresa consegue inovar isoladamente no cenário atual. Patricio Pastorelli, gerente de Ecossistemas de Inovação da BHP, enfatizou a importância da inovação aberta para lidar com os desafios da transição energética. A companhia atua com programas estruturados para absorver ideias tanto de seu público interno quanto do mercado.

Iniciativas como o Open House convidam startups, universidades e instituições governamentais a solucionar problemas mapeados pela operação. Atualmente, a BHP conta com cerca de 115 iniciativas em seu funil de inovação, garantindo que as tecnologias financiadas tenham não apenas viabilidade técnica, mas capacidade de escala e prontidão comercial para gerar impacto real no negócio.

Diversidade, atração de talentos e soberania tecnológica

A inovação, no entanto, não se sustenta apenas com tecnologia e cifras bilionárias. Para as lideranças presentes, o fator humano é o diferencial competitivo que definirá o sucesso da mineração no futuro. Kilma Cunha destacou que a criação de um ambiente inovador passa, obrigatoriamente, pela diversidade.

A Vale Base Metals, por exemplo, tem estruturado comitês não apenas focados em gênero e raça, mas também na inclusão de profissionais com mais de 50 e 60 anos, promovendo uma troca de experiências fundamental para a segurança e a produtividade.

O desafio de atrair e reter talentos também foi apontado como um ponto crítico. Ricardo Fonseca relatou que o setor mineral enfrenta forte concorrência do mercado financeiro e de gigantes como a China, que forma milhões de engenheiros anualmente. A saída, segundo o executivo da CBMM, é a aproximação proativa das empresas com as universidades para apresentar as carreiras globais e tecnológicas que a mineração moderna oferece.

Daniel Gomes, representante do MCTI
Daniel Gomes, representante do MCTI (Foto: Vale)

No âmbito governamental e estratégico, a visão de longo prazo é o que ditará o ritmo dos avanços. Daniel Gomes reforçou a necessidade de um Projeto Nacional de Desenvolvimento que garanta a soberania tecnológica do Brasil — citando o potencial inexplorado das terras raras como uma oportunidade de agregar valor localmente.

O painel foi encerrado com um consenso, sintetizado por Patricio Pastorelli, da BHP, e Elias Ramos, da Finep: seja no desenvolvimento de novas cadeias produtivas ou no engajamento com as comunidades locais, a transição para a nova mineração exige colaboração irrestrita entre empresas, governo e sociedade.

*Especial para o Radar Mineração