- Dezoito corporações globais fundaram a Carbon Measures para estabelecer um modelo técnico, verificável e comparável de contabilização de emissões, substituindo o sistema baseado em estimativas voluntárias.
- A coalizão reúne empresas líderes de quatro regiões e setores estratégicos, incluindo mineração, energia, química e logística, conferindo peso para orientar cadeias de valor e reguladores internacionais.
- O padrão de mensuração de carbono proposto pela associação visa estruturar mercados de carbono robustos, precificar externalidades ambientais e orientar investimentos em tecnologias de baixo carbono de forma eficiente.
Um grupo de 18 corporações globais anunciou em outubro a Carbon Measures, uma associação constituída para estabelecer um modelo mais preciso e transparente de contabilização de emissões e impulsionar soluções de mercado voltadas à descarbonização. A iniciativa reúne companhias líderes em suas áreas de atuação e de quatro regiões do mundo, formando um grupo diverso de setores estratégicos. O grupo inaugural inclui oito companhias dos EUA, cinco da União Europeia, três do Japão, uma do Reino Unido e uma da América Latina.
A amplitude geográfica e setorial da coalizão confere peso singular ao movimento. Como referências globais, essas empresas estabelecem balizadores que orientam não apenas suas cadeias de valor e as demais organizações associadas, mas também agentes econômicos e reguladores nas regiões onde operam.
A proposta é transformar a medição e a comparação das emissões em um processo técnico, verificável e comparável, garantindo o funcionamento eficiente dos mercados de carbono.
Alinhamento global para accountability climático

Em comunicado, o grupo relatou que o trabalho se apoiará em princípios de contabilidade financeira e científica para viabilizar um modelo de ledger (livro-razão) de carbono, para mitigar redundâncias, inconsistências e lacunas de informação. “Boas decisões exigem bons dados”, afirmou a CEO da Carbon Measures, Amy Brachio, ex-diretor global de Sustentabilidade da EY. “Por décadas, o rastreamento de emissões foi um sistema baseado em estimativas e compromissos voluntários. A Carbon Measures quer criar um sistema que libere o potencial competitivo dos mercados e acelere o ritmo das reduções de carbono”, define.
A coalizão propõe também o desenvolvimento de padrões de intensidade de carbono por produto, aplicáveis a insumos como eletricidade, aço, cimento e combustíveis . A ideia é incentivar o investimento em tecnologias de baixo carbono e permitir que governos adotem políticas mais alinhadas à realidade industrial.
A presença da Vale entre as fundadoras reflete o protagonismo da empresa brasileira em agendas de sustentabilidade e de accountability ambiental. Em 2025, a mineradora foi uma das primeiras companhias do mundo a publicar um relatório financeiro climático conforme o padrão internacional IFRS S1 e S2, do International Sustainability Standards Board (ISSB) — norma já incorporada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) ao marco regulatório brasileiro.
No documento, a empresa detalhou riscos e oportunidades ligados à transição energética, metas de redução de emissões e investimentos em tecnologias de baixo carbono, consolidando-se como referência global na integração entre finanças e sustentabilidade.
Métricas e precificação como fundamentos da descarbonização

A vice-presidente executiva de Sustentabilidade da Vale, Grazielle Parenti, reforçou recentemente a importância de estruturar um mercado de carbono robusto e confiável. Durante o projeto COP30 Amazônia, realizado por O Globo, Valor Econômico e CBN, Grazielle destacou que “o Brasil tem todas as condições de ser um grande ator nesse mercado”, mas que é necessário alcançar escala e previsibilidade para torná-lo sustentável e atrativo ao setor privado.
A executiva lembrou que o país combina biodiversidade, capacidade tecnológica e instrumentos regulatórios para liderar a agenda de restauração e conservação florestal, o que reforça a credibilidade de iniciativas como a Carbon Measures no cenário internacional.
Ao reunir empresas que já atuam como referências globais, a Carbon Measures define um norte comum para a mensuração de carbono, elemento importante para um mercado capaz de precificar externalidades e orientar investimentos de forma eficiente. Dessa forma, seu papel deve transcender o das companhias signatárias e o avanço da coalizão tende a estabelecer parâmetros técnicos e éticos para o setor privado, formuladores de políticas e agentes financeiros em todo o mundo.
Empresas fundadoras da Carbon Measures e suas origens
Air Liquide – gases industriais e tecnologia – França
Banco Santander – serviços financeiros – Espanha
BASF – química – Alemanha
Bayer – farmacêutica e biotecnologia – Alemanha
CF Industries – fertilizantes e produtos químicos – Estados Unidos
EQT Corporation – energia (gás natural) – Estados Unidos
ExxonMobil – energia e petroquímica – Estados Unidos
EY (Ernst & Young) – consultoria e auditoria – Reino Unido
Global Infrastructure Partners (parte da BlackRock) – investimentos em infraestrutura – Estados Unidos
Honeywell – tecnologia e manufatura industrial – Estados Unidos
Linde – gases industriais e engenharia – Irlanda / Estados Unidos
Mitsubishi Heavy Industries – engenharia e manufatura – Japão
Mitsui & Co. – conglomerado de comércio e investimentos – Japão
Mitsui O.S.K. Lines – transporte marítimo e logística – Japão
NextEra Energy – energia elétrica renovável – Estados Unidos
Nucor Corporation – siderurgia – Estados Unidos
Port of Rotterdam Authority – infraestrutura portuária e logística – Países Baixos
Vale – mineração – Brasil