- Vale registrou EBITDA de US$ 3,9 bilhões no 1T26, alta de 21% anual, impulsionado pela valorização de metais básicos e disciplina operacional em ambiente de custos elevados.
- Metais básicos dobraram EBITDA para US$ 1,2 bilhão, com cobre atingindo recorde de US$ 13.143 por tonelada e custos all-in caindo de US$ 1,8 mil para menos de US$ 0,6 mil por tonelada.
- Fluxo de caixa livre recorrente saltou 61% para US$ 813 milhões, sustentado por hedge de 70% da exposição a bunker e contratação de fretes em 100%, permitindo manutenção de dividendos extraordinários.
A combinação entre metais básicos em alta, desempenho operacional robusto e resiliência sustentou a performance da Vale no primeiro trimestre de 2026, mesmo em um ambiente de câmbio volátil e custos elevados. O Ebitda proforma alcançou US$ 3,9 bilhões, alta de 21% na comparação anual, refletindo a capacidade da companhia de converter aumento de produção e vendas em resultados financeiros consistentes.
A conferência de análise dos resultados com investidores reiterou a percepção de que a companhia busca atravessar o atual ambiente geopolítico e de custos elevados, reforçando disciplina operacional, gestão de custos e eficiência. O CEO Gustavo Pimenta destacou que os eventos geopolíticos recentes e a volatilidade dos mercados “só reforçam a importância de construir um negócio resiliente e competitivo que possa operar em um amplo conjunto de condições de mercado”.

Segundo ele, a estratégia da mineradora está baseada em “foco incansável em excelência operacional”, combinado com alocação disciplinada de capital e crescimento em minério de ferro e cobre.
O pulso do mercado logo após a divulgação, captado por portais como Poder360 e Seu Dinheiro, sinalizou reconhecimento não apenas à resiliência financeira, mas à execução operacional em um ambiente internacional mais complexo.
“As empresas de commodities, em geral, podem ver aumentos de custos logísticos”, disse o diretor de Equity Research Latin America do Citi, André Mazini, em um panorama sobre a divulgação de balanços no portal Broadcast.
Os analistas ressaltaram que a Vale tem colhido os frutos de uma política de proteção financeira e diversificação de portfólio.
Custos, hedge e geração de caixa
Na conferência, o CFO Marcelo Bacci detalhou como a combinação entre sazonalidade, valorização do real e alta do petróleo pressionou os custos da companhia no trimestre.

“O principal efeito nos custos vem da sazonalidade, o que sempre acontece no primeiro trimestre do ano e também no segundo trimestre”, afirmou. Segundo ele, o avanço do petróleo e do câmbio continua sendo o principal vetor inflacionário para toda a indústria mineral.
Bacci explicou que a companhia trabalha com a perspectiva de convergência gradual dos custos ao longo do ano, sustentada pela política de hedge e pela melhora operacional prevista para o segundo semestre.
“Se você pegar as curvas futuras que vemos hoje no mercado para o petróleo, e se você pegar a projeção para o câmbio que vemos no relatório Focus do Banco Central brasileiro, atualmente em R$ 5,25, se o petróleo convergir para US$ 90, devemos ser capazes de entregar o limite superior do guidance do custo caixa C1 para o ano”, estimou. “O segundo trimestre não vai ser muito diferente do primeiro, mas devemos ver o segundo semestre melhor”, acrescentou.
O executivo também indicou uma perspectiva de melhora estrutural mais à frente, apoiada na redução gradual das pressões externas e na captura de ganhos de eficiência. “Através de execução disciplinada e foco nos direcionadores de custos controláveis, seguimos confiantes na nossa capacidade de reduzir progressivamente e estruturalmente nossa base de custos”, esclareceu.
A estratégia de hedge apareceu como um dos principais pilares dessa estabilização financeira. Segundo Bacci, cerca de 70% da exposição da companhia ao combustível bunker em 2026 já está protegida. “Nossa estratégia de gestão de risco ajuda a proteger e estabilizar o fluxo de caixa”, mencionou. “Esses swaps fornecem proteção de preço do petróleo acima de US$ 80 por barril para cerca de 70% da demanda de bunker em 2026”, acrescentou.
Gustavo Pimenta ressaltou que a política de contratação antecipada de fretes também reduziu parte da exposição da companhia ao aumento dos custos marítimos. “Neste ano, por exemplo, estamos contratados em cerca de 100%. Então, o aumento que vimos nas taxas de frete não nos impactou”, exemplificou.
Marcelo Bacci destacou ainda a robusta geração de caixa da companhia, que atingiu US$ 813 milhões no trimestre, alta de 61% na comparação anual. “A performance mais forte foi principalmente dirigida por Ebitda sólido, combinado com o resultado dos programas de hedge cambial e de petróleo”, explicou.
Metais básicos ganham destaque
A divisão de metais básicos (VBM) foi a grande protagonista do período, com Ebitda dobrando em relação ao 1T25, para US$ 1,2 bilhão. O desempenho foi impulsionado por preços realizados recordes, especialmente no cobre, que atingiu US$ 13.143 por tonelada (+48% a/a).
“Na VBM, continuamos a colher os benefícios de nossas iniciativas de otimização de ativos, resultando em maior produção e menores custos, enquanto nossos ativos de cobre e níquel também se beneficiam de sua natureza polimetálica”, disse Gustavo Pimenta.
O CEO da VBM, Shaun Usmar, destacou os recordes operacionais nas minas de cobre. “Sossego teve sua melhor performance desde 2008, com um aumento de 81% ano após ano. Mesmo Salobo, com distâncias 30% mais longas, teve recuperações 4,6% melhores”, mencionou.
Marcelo Bacci ressaltou ainda o impacto da eficiência operacional sobre os custos. “No cobre, os custos all-in novamente tiveram redução, caindo de US$ 1,8 mil por tonelada ano após ano para menos de US$ 0,6 mil”, afirmou.
Segundo Shaun Usmar, CEO da VBM, a estratégia da divisão continua centrada em crescimento orgânico e ganho de produtividade. “O foco real neste momento é o avanço dos estudos e da exploração”, afirmou, ao comentar o projeto Alemão.
Minério de ferro mantém centralidade

Em meio à expansão dos metais de transição energética, o minério de ferro continua sendo a espinha dorsal da companhia, com vendas crescendo 4% e atingindo 68,7 milhões de toneladas.
Na conferência, o vice-presidente Comercial e de Desenvolvimento, Rogério Nogueira, reconheceu que o conflito envolvendo o Irã alterou estruturalmente a curva de custos global do minério de ferro. “Acreditamos que, com o conflito, a curva de custos da indústria mudou para cima entre US$ 5 e US$ 10 por tonelada”, informou.
Segundo Nogueira, o impacto é assimétrico e atinge de forma mais intensa os produtores de maior custo. O executivo também destacou o avanço da estratégia comercial da companhia na China, especialmente com o produto Carajás Mid-Grade. “O mercado não apenas apreciou o produto do ponto de vista químico, mas também pela performance metalúrgica”, lembrou. “Estamos partindo de 50 para 55 milhões de toneladas deste produto para o mercado”, acrescentou.
Resiliência, disciplina e expansão sustentável
Apesar do desempenho comercial, a valorização do real pressionou o custo caixa C1, que subiu 12% para US$ 23,6 por tonelada. Ainda assim, a mineradora demonstrou eficiência ao reportar um fluxo de caixa livre recorrente de US$ 813 milhões, salto de 61% em relação ao primeiro trimestre de 2025.
Essa robusta geração de caixa recorrente, somada a um EBITDA sustentável, reforça as expectativas de manutenção de dividendos atrativos, mesmo com o aumento sazonal da dívida líquida expandida para US$ 17,8 bilhões após o pagamento de US$ 2,7 bilhões em proventos no período. Os investimentos totais somaram US$ 1,1 bilhão, com destaque para projetos estratégicos como o Serra Sul +20, que já alcançou 86% de progresso físico.
Na conferência, Bacci reforçou a confiança da companhia na continuidade da remuneração aos acionistas. “Sob o ambiente de preços atual para minério de ferro, ouro, cobre e níquel, estamos cada vez mais confiantes na possibilidade de pagar dividendos extraordinários e continuar executando nosso programa de recompra durante o ano”, afirmou.
“Esses resultados reforçam nossa confiança no ano que temos pela frente e nosso compromisso de gerar retornos sustentáveis de longo prazo para nossos acionistas”, acrescentou Pimenta.
Segurança, inovação e ESG
A agenda de sustentabilidade e segurança também apresentou marcos relevantes no relatório e na conferência.
“Nos primeiros três meses do ano, removemos com segurança duas estruturas adicionais de qualquer nível de emergência, alcançando uma redução de 80% desde 2020”, destacou Gustavo Pimenta.
O executivo reforçou que a segurança deixou de ser apenas uma agenda operacional e passou a integrar a cultura corporativa da companhia.
“Essa jornada vai além de procedimentos e sistemas. É fundamentalmente sobre cultura, responsabilidade e liderança em todos os níveis da organização”, definiu.
No campo da inovação e descarbonização, Pimenta destacou o acordo para utilização de navios Guaibamax movidos a etanol. “Em abril, anunciamos um acordo sem precedentes para introduzir os primeiros navios oceânicos movidos a etanol, com operações esperadas para começar em 2029. Esses navios Guaibamax da próxima geração possuem potencial de reduzir as emissões de carbono em mais de 90%”, mencionou. “Seguimos inovando, avançando na descarbonização e, ao mesmo tempo, fortalecendo a segurança energética em toda a nossa cadeia de suprimentos”, disse.
Em paralelo, a reparação histórica segue seu cronograma: 81% dos compromissos de Brumadinho foram concluídos e o programa de Mariana já desembolsou R$ 74,7 bilhões até março.
Tanto os indicadores de ESG quanto os investimentos em energia renovável no transporte e nas operações fortalecem a posição da companhia na atração de investimentos, especialmente de capital externo.