Equipamentos de mineração a seco em operação, destacando caminhão e escavadeira em ambiente de mineração sustentável com menor uso de água.
Foto: Jose Luis Stephens/ Shutterstock

Mineração a seco: menos água, mais eficiência

Metodologia evita construção de barragens de rejeitos, com remoção de até 85% da umidade nos processos minerais

Por Redação, 4 min de leitura

Publicado em 22/09/2025

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Para entender o que é mineração a seco, é importante saber que papel a água desempenha no processamento mineral. Segundo o estudo Water Use and Risks in Mining, organizado pela Columbia Water Center, da Universidade Columbia, as aplicações são diversas e variam conforme o tipo de minério, o clima e os processos empregados.

De acordo com o mesmo estudo, 16% das minas em operação no mundo estão localizadas em regiões de alto ou extremo estresse hídrico — o que torna o uso da água ainda mais crítico e reforça a importância de alternativas mais sustentáveis.

No Brasil, por outro lado, as atividades minerais respondem por 2% de toda a água consumida, de acordo com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), e a mineração a seco tem ganhado relevância como uma alternativa estratégica.

Segundo a MineraJr, empresa júnior da Escola de Engenharia de Minas da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), a tecnologia é uma alternativa às barragens de rejeitos — estruturas utilizadas para armazenar a polpa formada pela mistura de água e resíduos sem valor comercial do beneficiamento mineral. Tradicionalmente, essas barragens foram projetadas para conter a polpa e mitigar impactos ambientais. No caso das barragens construídas pelo método a montante — atualmente proibidas no Brasil —, a expansão da área de contenção era feita por alteamento, utilizando o próprio rejeito como base, o que aumentava os riscos de colapso.

Reaproveitamento da água

Imagem de instalação de equipamentos de mineração a seco, com estruturas metálicas amarelas e pilhas de minerais sob céu claro. Técnica sustentável de mineração a seco para extração de minerais sem uso de água.
Foto: Alf Manciagli/ Shutterstock

Já o empilhamento a seco, método que utiliza filtros para reduzir a umidade dos rejeitos, permite que esses resíduos sejam empilhados e a água reaproveitada, depois dos tratamentos apropriados. Dessa forma, o processo minimiza o consumo e maximiza a recuperação da água.

Logo, ao abordar a mineração a seco, trata-se também do empilhamento a seco — ou dry stacking, como é conhecido internacionalmente —, bem como das tecnologias de filtragem responsáveis pela remoção da água e pela formação das pilhas de rejeitos.

Estudos mostram que é possível ter uma umidade residual abaixo de 14% por meio de tecnologias de filtragem específicas. A informação consta na dissertação de mestrado de Frederic Yann Braga, defendida na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Os dados são consistentes com estimativas do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), que indicam índices de recuperação de água entre 80% e 85%, conforme reportagem do site NeoFeed. A mesma publicação registra que, durante o Water Congress 2024, realizado no Chile, uma empresa sueca relatou ter alcançado percentuais ainda mais elevados, entre 95,5% e 99%.

A revista Engineering & Mining Journal (EM&J), referência no setor mineral, destaca que a maioria das grandes mineradoras já aderiu a um padrão global para gestão de rejeitos (GISTM, da sigla em inglês Global Industry Standard on Tailings Management). 

Entre as características do GISTM está a abordagem integrada da gestão de rejeitos, considerando todas as fases que levam à geração do material. Outro destaque é a obrigatoriedade de auditagem dos requisitos desse sistema, o que significa que a conformidade pode ser avaliada e validada por terceiros.

Benefícios ambientais e viabilidade econômica

Além de elevar os índices de reaproveitamento de água, a metodologia reduz a pegada de carbono, facilita o licenciamento ambiental e tende a gerar maior aceitação por parte das comunidades. A aceitação acontece pela abordagem, da metodologia, onde a filtragem e o empilhamento a seco de rejeitos são considerados o método mais seguro de disposição.

No entanto, seu uso ainda não é amplamente adotado. O principal entrave é o custo elevado, tanto em termos de investimento inicial (Capex), quanto de operação (Opex). Em especial para mineradoras de menor porte, a transição para rejeitos filtrados representa uma barreira financeira relevante, com impacto direto na viabilidade dos projetos.

No Brasil, o avanço do empilhamento a seco também está vinculado ao cumprimento de exigências legais, como as definidas pela Política Nacional de Segurança de Barragens (PNSB). A legislação completa nessa área abrange diversas iniciativas, entre elas o Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens (SNISB), considerado referência internacional e que monitora e divulga o status das barragens em operação no país.

A prestação de contas das mineradoras mostra um quadro interessante, segundo reportagem da Brasil Mineral: das 73 empresas que possuem barragens com alto potencial de dano, 16 divulgaram estar comprometidas com o GISTM. Juntas, elas respondem por 53% das barragens com a classificação citadas. 

Os dados são do segundo Panorama GISTM Brasil, publicado pela consultoria KPMG, com base nas informações da Agência Nacional de Mineração (ANM). Em relação ao primeiro relatório, o percentual de adesão das mineradoras ao GISTM cresceu de 18% para 22%. 

Paralelamente, o setor mineral tem buscado formas de agregar valor aos rejeitos empilhados, com foco no aproveitamento econômico. Há projetos em andamento voltados para a produção de blocos de construção, concreto e madeira plástica. 

Com isso, as mineradoras implementam iniciativas de economia circular ou circularidade. O próprio Serviço Geológico do Brasil (SGB) lidera duas iniciativas pilotos que resumem a circularidade: a meta de identificar, nos resíduos mineiros, outros recursos minerais que poderão ser reaproveitados ou recuperados, alinhando-se com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas. 

Segundo reportagem da revista Fapesp, essas iniciativas contam com a participação de mineradoras, universidades e startups como foco na inovação e reaproveitamento de resíduos minerais.

Dúvidas mais comuns

Mineração a seco é uma metodologia de processamento mineral que utiliza tecnologias de filtragem para reduzir significativamente a umidade dos rejeitos, permitindo seu empilhamento sem a necessidade de barragens tradicionais. Também conhecida como dry stacking, essa abordagem possibilita o reaproveitamento da água após tratamentos apropriados, minimizando o consumo hídrico e maximizando a recuperação de água em até 85% dos processos minerais.

As barragens de rejeitos tradicionais armazenam a polpa formada pela mistura de água e resíduos sem valor comercial, sendo estruturas que ocupam grandes áreas e apresentam riscos de colapso, especialmente quando construídas pelo método a montante. A mineração a seco, por sua vez, utiliza filtros para reduzir a umidade dos rejeitos a níveis abaixo de 14%, permitindo que os resíduos sejam empilhados de forma segura e a água seja recuperada e reaproveitada, eliminando a necessidade de construção de barragens.

De acordo com estimativas do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), os índices de recuperação de água na mineração a seco variam entre 80% e 85%. Estudos mais recentes, apresentados durante o Water Congress 2024 no Chile, indicam que algumas empresas já alcançaram percentuais ainda mais elevados, entre 95,5% e 99%, demonstrando o potencial crescente dessa tecnologia.

A mineração a seco oferece múltiplos benefícios ambientais: reduz significativamente o consumo de água em regiões de estresse hídrico, diminui a pegada de carbono, facilita o licenciamento ambiental e é considerada o método mais seguro de disposição de rejeitos. Além disso, essa metodologia gera maior aceitação por parte das comunidades locais e se alinha com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

O principal entrave para a adoção generalizada da mineração a seco é o custo elevado, tanto em termos de investimento inicial (Capex) quanto de operação (Opex). Para mineradoras de menor porte, a transição para rejeitos filtrados representa uma barreira financeira significativa, com impacto direto na viabilidade dos projetos, embora grandes mineradoras como a Vale já tenham investido bilhões em sistemas de filtragem.

O GISTM (Global Industry Standard on Tailings Management) é um padrão global para gestão de rejeitos que a maioria das grandes mineradoras já adotou. Sua importância reside na abordagem integrada da gestão de rejeitos, considerando todas as fases que levam à geração do material, além de exigir auditagem obrigatória dos requisitos, permitindo que a conformidade seja avaliada e validada por terceiros, garantindo maior segurança e transparência.

O setor mineral tem buscado agregar valor aos rejeitos empilhados através de iniciativas de economia circular, com projetos em andamento voltados para a produção de blocos de construção, concreto e madeira plástica. O Serviço Geológico do Brasil (SGB) lidera iniciativas pilotos para identificar, nos resíduos mineiros, outros recursos minerais que poderão ser reaproveitados ou recuperados, envolvendo mineradoras, universidades e startups com foco em inovação.

No Brasil, a mineração a seco tem ganhado relevância como alternativa estratégica, especialmente considerando que as atividades minerais respondem por apenas 2% de toda a água consumida no país. A adoção está vinculada ao cumprimento de exigências legais como a Política Nacional de Segurança de Barragens (PNSB). Segundo o Panorama GISTM Brasil, a adesão das mineradoras ao padrão global cresceu de 18% para 22%, com 16 das 73 empresas que possuem barragens de alto potencial de dano comprometidas com o GISTM.