- A mineração assinou o Protocolo Global de Circularidade na COP30, estabelecendo o primeiro framework científico global para medir e comunicar a transformação de resíduos em valor econômico no setor.
- A Vale produziu 17,5 milhões de toneladas de minério de ferro por fontes circulares até setembro de 2025, evitando 28,6 quilotoneladas de emissões de CO₂ equivalente, demonstrando viabilidade operacional do modelo.
- O protocolo padroniza métricas de circularidade para mineradoras em diferentes contextos geográficos, permitindo que o setor demonstre evolução regenerativa essencial para aceitação política e social da demanda por minerais da transição energética.
Há um problema estrutural na mineração que nenhuma empresa consegue resolver sozinha: o setor produz rejeitos em escala. A indústria global gera bilhões de toneladas de resíduos por ano. Como reutilizar esses materiais? Como contar isso com credibilidade? Como transformar um custo de disposição em oportunidade de negócio?
Essas perguntas ganharam uma resposta global na COP30, com o lançamento do Protocolo Global de Circularidade para Empresas (GCP, na sigla em inglês). O protocolo, desenvolvido pelo World Business Council for Sustainable Development (WBCSD) e pela One Planet Network (hospedada pelo UNEP), é o primeiro framework global voluntário e baseado em ciência para medir, gerenciar e comunicar impactos de circularidade. Criado com a colaboração de mais de 150 especialistas e 80 organizações — incluindo 61 empresas — o instrumento marca um ponto de inflexão não apenas para a agenda climática global, mas especialmente para a mineração.
Significativamente, a mineração foi reconhecida como prioridade no protocolo. A Vale é a única mineradora entre os signatários iniciais do GCP — uma indicação de que o setor enfrenta pressão real para demonstrar transformação.
“O GCP é um facilitador estratégico para que setores intensivos em recursos, como a mineração, contribuam de forma significativa para as metas globais de sustentabilidade e transição energética,” explica Bruno Pelli, diretor global de Serviços Técnicos em Mineração da Vale, em comunicado sobre o protocolo. “Promover a circularidade significa transformar os sistemas de extração e processamento para maximizar a recuperação de materiais, reduzir o impacto ambiental e acelerar a transição para modelos de produção circulares e de baixo carbono.”
Do conceito à ação: como a mineração está ressignificando resíduos
O problema com o qual a indústria se depara é ao mesmo tempo simples e complexo. Simples: há material valioso sendo desperdiçado. Complexo: transformar esse resíduo em insumo requer reimaginar toda a operação, desde exploração até disposição final.
Alguns já começaram esse caminho. A Vale, por exemplo, desenvolve desde 2024 um programa de mineração circular — conhecido internamente como “Waste to Value” — que reposiciona os desafios de disposição de materiais como oportunidades estratégicas. O programa não opera apenas na ponta: suas iniciativas abrangem desde a exploração até a disposição final de materiais em pilhas e barragens.
Os números da implementação revelam escala real. Em 2024, a empresa produziu 12,7 milhões de toneladas de minério de ferro por meio de fontes circulares, evitando 21,25 quilotoneladas de emissões de CO₂ equivalente. No período de janeiro a setembro de 2025, a produção circular acumulada chegou a 17,5 milhões de toneladas de minério de ferro, com projeção de atingir 20 milhões de toneladas pelo método circular até o final do ano — um crescimento de 57% em relação a 2024.
Para contextualizar: as 17,5 milhões de toneladas produzidas de forma circular neste ano acumularam um benefício em emissão de CO₂ equivalente de 28,6 quilotoneladas — equivalente a tirar 17.600 automóveis das ruas por um ano. Esses números sugerem que o modelo não é apenas ambientalmente defensável, mas operacionalmente viável.
Por que isso importa agora: pressão regulatória e economia de materiais
O lançamento do GCP na COP30 não é um evento isolado. Ele reflete uma pressão convergente: de reguladores, de investidores, de sociedade civil, e — cada vez mais — de mercados que exigem transparência e comparabilidade em questões de sustentabilidade.
Para mineração, a urgência é dupla. Primeiro, o setor é intensivo em recursos e em rejeitos. Segundo, a mineração é vital para a transição energética global. A demanda por cobre, níquel, lítio e minério de ferro para construir infraestrutura limpa continuará crescendo. Mas essa demanda só será aceitável politicamente e socialmente se a mineração conseguir demonstrar que está evoluindo — que não é apenas extrativista, mas parte de um modelo regenerativo.
Aí está a utilidade do GCP. O protocolo fornece um framework padronizado e globalmente harmonizado para que empresas de todos os tamanhos — de startups a operadores gigantes — comuniquem seus avanços em circularidade de forma credível e comparável. Em um setor historicamente marcado por ceticismo quanto a promessas ambientais, padronização é poder.
“A circularidade pode desbloquear US$ 4,5 trilhões em crescimento econômico, reduzir emissões de carbono e criar 6 milhões de novos empregos através de atividades como reciclagem, reparo, aluguel e remanufatura,” aponta o WBCSD em sua análise de impacto do protocolo. Para mineração especificamente, isso significa repensar resíduos não como custos de disposição, mas como matérias-primas.
O que é a mineração circular na prática: exemplos e escalabilidade

O desafio agora é escalar o que ainda é experimental. O modelo de economia circular na mineração já tem provas de conceito visíveis em operações como a de Vale: areia de benefício circularizada para a construção civil, blocos de pedra reprocessados, iniciativas de recuperação de materiais que transformam o que antes seria descartado em insumos com valor agregado. O programa de mineração circular da empresa opera com mais de 100 iniciativas espalhadas pela operação.
O setor enfrenta uma pergunta crucial: como transformar casos de sucesso em modelo de negócio padrão? O GCP aponta um caminho. Ao fornecer métricas harmonizadas e um framework compartilhado para mensuração, o protocolo permite que cada operadora identifique seus próprios hotspots de circularidade — pontos onde é possível extrair valor. Para uma mineradora em um país tropical, isso pode significar uma coisa. Para outra em clima árido, outra. O protocolo não prescreve soluções; oferece linguagem comum para nomeá-las.
O que vem agora: do protocolo à implementação sistêmica
O protocolo lançado esta semana em Belém é a versão 1.0 — um ponto de partida para uma jornada contínua. O WBCSD convida todas as organizações — empresas, governos, pesquisadores e especialistas financeiros — a contribuírem com ideias, metodologias piloto e lições aprendidas conforme o protocolo evolui. Mais de 2 mil comentários e sugestões foram integrados durante o desenvolvimento desta primeira versão.
Para mineração, a próxima fase é transformar o framework conceitual em prática operacional mensurável. Significa integrar os critérios do GCP nos processos de decisão, investimento e comunicação. Significa treinar equipes, auditar operações e reportar resultados com transparência.
Companhias como a Vale já têm programas circulares em operação — os números e o impacto existem. Agora, o GCP oferece a estrutura global para que esses resultados sejam reconhecidos não apenas internamente, mas como contribuição significativa ao novo modelo de economia que o mundo está tentando construir.
Mas há questões abertas. Como será a auditoria do protocolo? Como lidar com diferenças regionais e climáticas?Como garantir que a circularidade não sirva apenas como um discurso vazio? Essas respostas virão conforme a primeira versão for implementada e testada em diferentes contextos.
Circularidade como modelo de negócio — não apenas como mitigação
Há uma diferença sutil, mas crucial, entre dois discursos sobre circularidade na mineração. Um retrata a circularidade como “mitigação de danos” — uma forma de ser menos ruim. O outro, como “modelo de negócio” — uma forma de gerar valor enquanto reduz impactos.
O GCP aponta para o segundo caminho. Não porque a mineração deixará de ser extrativista — ela continuará tirando material do solo, porque assim funciona a mineração. Mas porque pode-se transformar como se opera, maximizando a recuperação de materiais, minimizando os impactos e gerando valor para comunidades e para o planeta simultaneamente.
O que torna isso viável não é benevolência corporativa, mas mercado. Se resíduos podem se tornar matéria-prima com valor, então há incentivo econômico para sua recuperação. Se reguladores exigem transparência em sustentabilidade, então empresas precisam de ferramentas para mensurá-la e comunicá-la. Se investidores pressionam por accountability, então há pressão por padronização.
Em Belém, na COP30, onde governos negociam o futuro climático do planeta, a mineração está tentando escrever seu próprio futuro — por meio de protocolos, números, e operações que demonstram que a mudança é possível. O sucesso dessa transição dependerá da capacidade do setor em adotar e escalar um novo modelo. O GCP é um primeiro passo nessa direção.
Para entender melhor
O que é o Protocolo Global de Circularidade para Empresas (GCP)?

O GCP é um framework voluntário, baseado em ciência e globalmente harmonizado que ajuda empresas de todos os tamanhos, setores e regiões geográficas a mensurar, gerenciar e comunicar seu desempenho circular e impactos ao longo de suas cadeias de valor. Desenvolvido pelo WBCSD e One Planet Network (UNEP), com a participação de mais de 150 especialistas e 80 organizações, o protocolo oferece métricas e metodologias padronizadas para avaliar como as empresas transitam para modelos econômicos circulares.
Por que mineração é considerada setor prioritário no GCP?
Mineração é um setor intensivo em recursos e em rejeitos — gera bilhões de toneladas de resíduos anualmente. Simultaneamente, o setor é vital para a transição energética global (demanda por cobre, lítio, níquel, minério de ferro). O desafio estrutural é como escalar modelos circulares para que mineração contribua significativamente aos objetivos climáticos sem comprometer a viabilidade econômica.
Qual é o potencial de impacto?
Segundo análise de impacto do WBCSD, a adoção generalizada do GCP poderia resultar em: 100-120 bilhões de toneladas de economia cumulativa de materiais até 2050 (equivalente ao consumo global anual de materiais); 67-76 gigatons de CO₂ equivalente evitado até 2050; e desbloqueio de US$ 4,5 trilhões em crescimento econômico com geração de 6 milhões de novos empregos.
Quem está implementando primeiro?
Mineradoras como a Vale já desenvolvem programas circulares em operação — com a companhia reportando produção circular de 20 milhões de toneladas de minério de ferro projetada para 2025, evitando dezenas de milhares de toneladas de emissões de CO₂. A companhia é a única mineradora entre signatários iniciais do GCP.
* Enviada especial à COP30 | Especial para o Radar Mineração

