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Ricardo Mussa é chair da SB COP3
Ricardo Mussa (Divulgação/ Arte)

Mineração brasileira é mais sustentável, mas preço não reflete vantagem, diz Ricardo Mussa

Voz da indústria brasileira, o chair da SB COP30 defende um mercado de carbono justo para refletir a vantagem da mineração sustentável do país

Por Cinthia Saito * e Viviane Kulczynski *, 3 min de leitura

Publicado em 16/09/2025

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  • A mineração brasileira opera com padrões ambientais superiores aos de outros países, mas essa vantagem competitiva não se reflete adequadamente nos preços das commodities no mercado global.
  • Um mercado de carbono funcional e uma contabilidade de carbono bem definida são necessários para medir e precificar corretamente o impacto relativo das emissões da mineração brasileira versus a internacional.
  • O Brasil pode liderar a transição para economia de baixo carbono aproveitando sua energia renovável barata para industrializar produtos com menor pegada de carbono, começando com biocombustíveis e mineração verde antes de avançar para hidrogênio verde.
Resumo revisado pela redação.

Como uma das principais vozes da indústria brasileira, Ricardo Mussa é chair da SB COP30, sigla para Sustainable Business COP30, iniciativa global liderada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Ele compartilha com o Radar Mineração sua visão sobre o potencial da mineração sustentável do país, a necessidade de um mercado de carbono justo e em que o Brasil deve apostar para liderar a transição para uma economia de baixo carbono.

Como voz da indústria brasileira, qual a mensagem principal que vocês levarão aos líderes mundiais na COP 30?

Aprendi muito nos últimos meses sobre como a mineração brasileira é sustentável. Precisamos mostrar isso da melhor maneira possível ao mundo. Precisamos aproveitar a COP30 para destacar o que fazemos de bom, que é muito diferente do que já vi em outros lugares. Há uma lição aqui que podemos ensinar ao mundo. Ao visitar operações que vão desde o coração da Amazônia até os portos, vi um efeito positivo. Ouso dizer que, se não tivéssemos a mineração do jeito que ela é feita no Brasil, poderíamos ter uma situação muito pior na Amazônia. É contraintuitivo, mas temos uma mineração que contribui positivamente.

Se você pudesse pedir uma única política pública ou mecanismo de mercado para destravar investimentos em uma produção mais limpa e garantir a competitividade, qual seria?

Imagem de crescimento sustentável com pilhas de moedas e muda de plantas, simbolizando economia sustentável e mercado de carbono no contexto de mineração sustentável
Foto: BOY ANTHONY/ Shutterstock

Um mercado de carbono que funcione e consiga medir o impacto relativo das emissões. Para nós, aqui no Brasil, isso traria um benefício imenso, porque a nossa mineração é muito mais sustentável. Acredito que essa vantagem ainda não se reflete como deveria nos preços das commodities. Meu pedido é que pudéssemos ter um mercado de carbono que realmente refletisse as vantagens comparativas do Brasil na mineração. Isso faria uma diferença enorme.

Ou seja, o impacto positivo que você mencionou ainda não está refletido no preço?

Exatamente. O impacto positivo que a mineração no Brasil tem, em relação ao resto do mundo — que na maioria das vezes é negativo —, não se reflete hoje no preço. A forma de isso se refletir é com a evolução do mercado de carbono.

Sobre as regras de competição global, a Europa está criando taxas de carbono, enquanto o Brasil já tem uma matriz energética mais limpa. Qual a proposta da indústria para criar regras justas que reconheçam essa vantagem?

Primeiro, precisamos encontrar uma medição correta. Para mim, a contabilidade de carbono (Carbon Accounting) é a base de toda a discussão. Se não tivermos uma boa forma de contabilizar, não avançamos. Às vezes, acabamos usando regras que não são aplicáveis a um país tropical como o nosso. As regras precisam ser bem definidas e a contabilidade, bem-feita. A partir daí, sim, podemos falar de taxação, mas a base precisa ser sólida.

A transição para uma economia verde é uma corrida tecnológica. Onde está a maior oportunidade para o Brasil ser um líder global?

	
Pessoa abastecendo um carro propagando o uso de biocombustível, uma alternativa sustentável para veículos
Foto: Scharfsinn/ Shutterstock

O Brasil tem uma característica única: muita energia renovável barata. Quando transformamos isso em vantagem competitiva, podemos industrializar e tornar nossos produtos e commodities mais competitivos. A forma que o Brasil tem de exportar essa energia renovável barata para o mundo é por meio dos seus produtos: através do minério, do biocombustível, e assim por diante. Há um vínculo muito grande entre nossa energia limpa e a exportação de produtos com uma pegada de carbono menor.

Nesse cenário, em quais áreas a indústria brasileira deveriam apostar mais: hidrogênio verde, biocombustíveis, mineração sustentável ou biotecnologia?

É uma evolução. Os biocombustíveis já estão prontos, são de curto prazo. A mineração está claramente muito mais avançada que no resto do mundo. Já o hidrogênio é algo para o futuro e precisamos trabalhar para chegar lá. Temos de surfar todas as ondas. O hidrogênio pode ser o objetivo final (endgame), mas, para chegar lá, precisamos continuar apostando nos biocombustíveis e na mineração verde. É uma transição, e o Brasil tem tudo para ser líder em todas as etapas.

Em um cenário global de tensões, qual o papel do setor privado para promover a união e o avanço dessa agenda?

O momento global é de guerras comerciais e países se fechando. O setor privado tem menos barreiras geopolíticas, somos mais pragmáticos. Portanto, a forma de avançarmos é trazer o setor privado para a mesa global para discutir e trocar melhores práticas. A melhor maneira de influenciar o setor público é por meio do exemplo. E o setor de mineração no Brasil oferece muitos exemplos de como podemos influenciar as políticas públicas a partir do que já está funcionando na prática.

Especial para o Radar Mineração

Dúvidas mais comuns

A mineração sustentável no Brasil se diferencia pela combinação de práticas ambientalmente responsáveis com uma matriz energética limpa e renovável. Ricardo Mussa, chair da SB COP30, destaca que a mineração brasileira contribui positivamente para a preservação da Amazônia, diferentemente de operações em outras regiões do mundo. Essa vantagem competitiva ainda não se reflete adequadamente nos preços das commodities, sendo necessário um mercado de carbono justo para reconhecer essas diferenças.

Embora a mineração brasileira seja significativamente mais sustentável que a de outros países, essa vantagem não está refletida nos preços atuais das commodities. Segundo Mussa, a forma de isso mudar é através da evolução de um mercado de carbono funcional que consiga medir corretamente o impacto relativo das emissões. Um mercado de carbono bem estruturado reconheceria as vantagens comparativas do Brasil e faria uma diferença enorme na competitividade dos produtos minerais brasileiros.

A contabilidade de carbono (Carbon Accounting) é a base para medir corretamente o impacto ambiental das operações de mineração. Ricardo Mussa enfatiza que sem uma boa forma de contabilizar as emissões, não é possível avançar em políticas de taxação de carbono ou criar regras justas de competição global. As regras de contabilidade precisam ser bem definidas e aplicáveis a países tropicais como o Brasil, considerando suas características únicas.

O Brasil possui uma característica única: muita energia renovável barata, que pode ser transformada em vantagem competitiva. A estratégia é industrializar produtos e commodities usando essa energia limpa, exportando-a indiretamente através de minério, biocombustíveis e outros produtos com menor pegada de carbono. Há um vínculo direto entre a energia limpa brasileira e a exportação de produtos mais sustentáveis, posicionando o país como líder global na transição energética.

A Europa está criando taxas de carbono como mecanismo de competição global, enquanto o Brasil já possui uma matriz energética naturalmente mais limpa. A proposta da indústria brasileira é criar regras justas que reconheçam essa vantagem estrutural. Para isso, é necessário primeiro estabelecer uma medição correta de carbono através de contabilidade bem-feita, evitando regras que não sejam aplicáveis a países tropicais.

O Brasil deve surfar todas as ondas da transição energética. Os biocombustíveis já estão prontos e representam oportunidades de curto prazo. A mineração sustentável está claramente mais avançada que no resto do mundo. O hidrogênio verde é o objetivo final (endgame), mas requer mais desenvolvimento. A estratégia é continuar apostando simultaneamente em biocombustíveis, mineração verde e hidrogênio, posicionando o Brasil como líder em todas as etapas da transição.

O setor privado tem menos barreiras geopolíticas que os governos e é mais pragmático, podendo avançar a agenda de sustentabilidade mesmo em cenários de tensões comerciais globais. A melhor forma de influenciar políticas públicas é através do exemplo prático. O setor de mineração no Brasil oferece muitos exemplos de como políticas públicas podem ser influenciadas a partir do que já funciona na prática, servindo como modelo para outras indústrias e países.

Contraintuitivamente, a mineração brasileira, quando feita de forma sustentável, contribui positivamente para a preservação da Amazônia. Ricardo Mussa argumenta que sem a mineração do jeito que é feita no Brasil, a situação ambiental da região poderia ser muito pior. Isso demonstra que operações de mineração bem reguladas e sustentáveis podem coexistir com a proteção ambiental, diferentemente do cenário em outras regiões do mundo.