- A mineração brasileira opera com padrões ambientais superiores aos de outros países, mas essa vantagem competitiva não se reflete adequadamente nos preços das commodities no mercado global.
- Um mercado de carbono funcional e uma contabilidade de carbono bem definida são necessários para medir e precificar corretamente o impacto relativo das emissões da mineração brasileira versus a internacional.
- O Brasil pode liderar a transição para economia de baixo carbono aproveitando sua energia renovável barata para industrializar produtos com menor pegada de carbono, começando com biocombustíveis e mineração verde antes de avançar para hidrogênio verde.
Como uma das principais vozes da indústria brasileira, Ricardo Mussa é chair da SB COP30, sigla para Sustainable Business COP30, iniciativa global liderada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Ele compartilha com o Radar Mineração sua visão sobre o potencial da mineração sustentável do país, a necessidade de um mercado de carbono justo e em que o Brasil deve apostar para liderar a transição para uma economia de baixo carbono.
Como voz da indústria brasileira, qual a mensagem principal que vocês levarão aos líderes mundiais na COP 30?
Aprendi muito nos últimos meses sobre como a mineração brasileira é sustentável. Precisamos mostrar isso da melhor maneira possível ao mundo. Precisamos aproveitar a COP30 para destacar o que fazemos de bom, que é muito diferente do que já vi em outros lugares. Há uma lição aqui que podemos ensinar ao mundo. Ao visitar operações que vão desde o coração da Amazônia até os portos, vi um efeito positivo. Ouso dizer que, se não tivéssemos a mineração do jeito que ela é feita no Brasil, poderíamos ter uma situação muito pior na Amazônia. É contraintuitivo, mas temos uma mineração que contribui positivamente.
Se você pudesse pedir uma única política pública ou mecanismo de mercado para destravar investimentos em uma produção mais limpa e garantir a competitividade, qual seria?

Um mercado de carbono que funcione e consiga medir o impacto relativo das emissões. Para nós, aqui no Brasil, isso traria um benefício imenso, porque a nossa mineração é muito mais sustentável. Acredito que essa vantagem ainda não se reflete como deveria nos preços das commodities. Meu pedido é que pudéssemos ter um mercado de carbono que realmente refletisse as vantagens comparativas do Brasil na mineração. Isso faria uma diferença enorme.
Ou seja, o impacto positivo que você mencionou ainda não está refletido no preço?
Exatamente. O impacto positivo que a mineração no Brasil tem, em relação ao resto do mundo — que na maioria das vezes é negativo —, não se reflete hoje no preço. A forma de isso se refletir é com a evolução do mercado de carbono.
Sobre as regras de competição global, a Europa está criando taxas de carbono, enquanto o Brasil já tem uma matriz energética mais limpa. Qual a proposta da indústria para criar regras justas que reconheçam essa vantagem?
Primeiro, precisamos encontrar uma medição correta. Para mim, a contabilidade de carbono (Carbon Accounting) é a base de toda a discussão. Se não tivermos uma boa forma de contabilizar, não avançamos. Às vezes, acabamos usando regras que não são aplicáveis a um país tropical como o nosso. As regras precisam ser bem definidas e a contabilidade, bem-feita. A partir daí, sim, podemos falar de taxação, mas a base precisa ser sólida.
A transição para uma economia verde é uma corrida tecnológica. Onde está a maior oportunidade para o Brasil ser um líder global?

O Brasil tem uma característica única: muita energia renovável barata. Quando transformamos isso em vantagem competitiva, podemos industrializar e tornar nossos produtos e commodities mais competitivos. A forma que o Brasil tem de exportar essa energia renovável barata para o mundo é por meio dos seus produtos: através do minério, do biocombustível, e assim por diante. Há um vínculo muito grande entre nossa energia limpa e a exportação de produtos com uma pegada de carbono menor.
Nesse cenário, em quais áreas a indústria brasileira deveriam apostar mais: hidrogênio verde, biocombustíveis, mineração sustentável ou biotecnologia?
É uma evolução. Os biocombustíveis já estão prontos, são de curto prazo. A mineração está claramente muito mais avançada que no resto do mundo. Já o hidrogênio é algo para o futuro e precisamos trabalhar para chegar lá. Temos de surfar todas as ondas. O hidrogênio pode ser o objetivo final (endgame), mas, para chegar lá, precisamos continuar apostando nos biocombustíveis e na mineração verde. É uma transição, e o Brasil tem tudo para ser líder em todas as etapas.
Em um cenário global de tensões, qual o papel do setor privado para promover a união e o avanço dessa agenda?
O momento global é de guerras comerciais e países se fechando. O setor privado tem menos barreiras geopolíticas, somos mais pragmáticos. Portanto, a forma de avançarmos é trazer o setor privado para a mesa global para discutir e trocar melhores práticas. A melhor maneira de influenciar o setor público é por meio do exemplo. E o setor de mineração no Brasil oferece muitos exemplos de como podemos influenciar as políticas públicas a partir do que já está funcionando na prática.
* Especial para o Radar Mineração

