BELO HORIZONTE – O governo aponta que a mineração está em seu nível de prioridade mais alto, tanto que figura nos principais discursos do presidente da República em reuniões com outros chefes de estado. Porém, como transformar estes discursos em uma agenda prática, é uma dúvida.
Foi com esta provocação, liderada por Anderson Barreto Arruda, secretário nacional de Geologia Mineração e Transformação Mineral do Ministério das Minas e Energia (MME), que foi aberta a segunda parte do painel: “Mineração e Geopolítica”, realizado no primeiro dia da Exposibram 2026, em Belo Horizonte (MG).
Participaram da mesa Ana Sanches, presidente da Anglo American no Brasil e presidente do Conselho do IBRAM; Eduardo de Come, vice-presidente da Ero Copper; Kaiser Gonçalves de Souza, senior adviser for Ocean Governance na Autoridade Nacional de Fundos Marinhos (ISA); Leandro Chiardelli, CEO da Mineração Usiminas; e Luciano Francisco Alves, CEO da Companhia Brasileira de Alumínio (CBA).

“O acionista internacional busca previsibilidade. É indiscutível que o Brasil tem uma série de oportunidades, mas isso não basta. É preciso transformar isso em projetos, em realidade. Neste momento de disputa geopolítica, como podemos alcançar esta previsibilidade que o investidor procura? Este é o debate. Nem o setor privado, nem o governo podem dar essa resposta sozinhos. As soluções são conjuntas”, apontou Ana Sanches.
Eduardo Come concordou e acrescentou que, além da previsibilidade, é necessária uma coordenação entre todos níveis industriais e de governo.
Cadeia completa

O próximo passo, segundo Leandro Chiardelli, seria garantir que as regulamentações do setor sejam atrativas para que o minério de ferro possa chegar aqui no Brasil até as últimas instâncias de beneficiamento.
“Devemos trabalhar por uma agenda que favoreça a proteção da nossa indústria, com barreiras tarifárias que façam com que o país consiga competir de igual para igual com outros produtores do mundo”, completou.
Neste ponto, o alumínio é um exemplo. O metal é um dos poucos no qual o Brasil tem capacidade de realizar todas as etapas, desde a extração do minério até a reciclagem.
Luciano Francisco Alves afirmou que, assim como o alumínio, outros metais também podem fechar a cadeia completa no país, valendo-se da matriz energética limpa, que oferece um produto final com baixo teor de emissão de carbono.
Mudança cultural da mineração

O secretário de governo Anderson Barreto Arruda lançou uma última provocação aos painelistas, apontando a necessidade de mudança cultural da sociedade brasileira: “É preciso que a sociedade enxergue o valor da mineração”, apontou.
“O setor é muito prejudicado pela atividade ilegal e não responsável. Acreditamos que investimento ambiental e performance não são agendas separadas. Temos que reforçar que é possível, sim, fazer mineração responsável e segura. Isso abre portas e muda uma cultura”, respondeu Ana Sanches.
“Como as pessoas veem a mineração e como elas entendem que a mineração está presente em tudo ao nosso redor? Só quando a sociedade entender isso poderemos avançar e, inclusive, atrair capital humano, com profissionais engajados para que a sociedade siga se desenvolvendo”, completou Leandro Chiardelli.
O papel dos oceanos
Kaiser Gonçalves de Souza, da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA) – organização autônoma ligada à ONU e criada para organizar, regular e controlar a exploração dos recursos minerais em águas internacionais – trouxe ao debate a exploração de recursos minerais em fundo marinho. Ele defendeu o processo não apenas em locais rasos, mas também nas profundezas.

Segundo Souza, diversos países já estão se valendo do direito internacional da mineração de metais valiosos como níquel, cobalto, cobre e manganês no leito oceânico, especialmente em planícies abissais. E o Brasil deve, com urgência, delimitar áreas e iniciar suas pesquisas.
“A ISA administra 31 contratos de pesquisa mineral feitos por vários países como Japão, França e Alemanha. Eles já estão pesquisando recursos minerais no fundo do oceano e desenvolvendo tecnologia para isso. Existe uma necessidade urgente de o Brasil se posicionar para acessar esses minerais, especialmente no Atlântico Sul”, disse.
E concluiu: “Quem chegar antes, obviamente terá um acesso privilegiado”.
* Acompanhe a cobertura da Exposibram 2026 no Radar Mineração.