- O setor mineral enfrenta pressões simultâneas de sustentabilidade, competitividade e previsibilidade regulatória, com governos aumentando impostos, royalties e barreiras comerciais que geram incertezas nas decisões de investimento.
- A descarbonização depende de minerais estratégicos, mas barreiras e indefinições regulatórias sobre sua exploração atrasam o cumprimento de metas climáticas, criando um paradoxo geoenergético.
- Mineração responsável, estabilidade institucional e transparência tornaram-se diferenciais competitivos, substituindo o critério de menor preço por previsibilidade e confiabilidade nos contratos internacionais.
A multiplicação de metas e pressões sobre o setor mineral molda uma agenda que combina, ao mesmo tempo, competitividade, sustentabilidade e previsibilidade regulatória. Esse foi o eixo central das discussões no painel Perspectivas Econômicas e Geopolíticas para a Mineração, realizado durante a Exposibram 2025, que reuniu líderes do setor para analisar como a mineração se posiciona diante das mudanças no comércio internacional e da urgência climática.
Andréa Fuga, líder de avaliação e modelagem econômica da EY, ponderou que a tendência de maior rigidez por parte de governos e reguladores tem gerado incertezas que afetam as decisões de investimento. Além do aumento de impostos e royalties diante de adversidades fiscais em vários países, ela apontou o avanço do protecionismo e das restrições à participação estrangeira em empreendimentos. “As tarifas e barreiras ao comércio internacional são a teoria dos jogos em prática. A tarifa imposta por um país gera respostas e mexe com os mercados domésticos. O desequilíbrio pode ser momentâneo, mas cada ação vai gerando respostas”, descreveu.
A analista destacou que os governos vivem o dilema de equilibrar as necessidades de arrecadação e a segurança jurídica essencial ao ambiente de negócios. É preciso também combinar políticas de ESG e flexibilidade de se alinhar às variações do mercado. Entre os paradoxos atuais, ela mencionou a “nova dinâmica geoenergética”: “A descarbonização depende de tecnologias baseadas em minerais estratégicos. Quanto mais barreiras e indefinições sobre a exploração desses minerais, mais demora para cumprir as metas climáticas”, constatou.
Globalização seletiva e novos riscos
Andréa enfatizou as transformações no modelo de globalização. “Hoje se fala em uma ‘globalização seletiva’, com arranjos mais regionalizados”, disse. Ela ressaltou que focar em menos fornecedores, adotar rotas alternativas e manter estoques táticos pode reduzir riscos, mas compromete eficiência e margens. No caso da mineração, observou, não há a opção de escolher geografia para cultivo ou produção, o que reforça a necessidade de resiliência às circunstâncias nem sempre sob controle. É preciso ainda conciliar o planejamento de longo prazo com adaptações táticas implementadas com agilidade.
Para o Brasil, a especialista vê uma ampliação de destinos das exportações e, do lado das importações, a busca por fontes alternativas de insumos, como no caso dos fertilizantes. “Há uma redução de margens tanto nas exportações quanto no mercado interno”, avaliou. Segundo ela, em um ambiente volátil e marcado por rivalidades geopolíticas, cada companhia precisa desenvolver mecanismos de resiliência e revisar planos de alocação de capital e portfólios. “O setor tem que se articular para atuar de forma coesa e tempestiva. É um bom momento para consolidar o Plano de Mineração 2050”, afirmou
Mineração responsável como ativo estratégico

“Todas as tecnologias limpas começam a se produzir no subsolo”, resumiu Emmanuel Kamarianakis, embaixador do Canadá no Brasil. “A mineração responsável é um ativo cada vez mais estratégico.” O diplomata lembrou ainda que cerca de 90% do potássio consumido no Brasil é importado, em grande parte do Canadá, enquanto o alumínio brasileiro abastece a indústria canadense.
Kamarianakis enfatizou que estabilidade e segurança institucional são agora diferenciais competitivos: “Não se busca mais quem vende mais barato, e sim quem apresenta mais previsibilidade. Confiabilidade, governança e transparência são os pontos decisivos”, disse.
Inovação, segurança e sustentabilidade

A vice-presidente de relações institucionais da Sigma Lithium, Lígia Pinto, observou que as mudanças ocorrem em várias frentes, desde a estratégia global até os detalhes operacionais. Ela ponderou que as premissas de ética e sustentabilidade da chamada “nova mineração” exigem grandes movimentos de inovação, que, por sua vez, demandam flexibilidade e escala.
Luciano Alves, CEO da Companhia Brasileira de Alumínio, destacou as pressões que afetam o setor, como a redução das exportações para os EUA, o aumento da competição e o crescimento da reutilização de matéria-prima. Já Ruben Fernandes, diretor de operações da Anglo American, reforçou o foco humano da atividade. “Nossa prioridade absoluta são as pessoas. Nenhum avanço é aceitável se não implicar aumento da segurança”, enfatizou.
Rodrigo Barbosa, CEO da Aura Minerais, explicou que a valorização recente do ouro está ligada à desconfiança global em relação ao dólar. “Vivemos algo sem precedentes. Países com reservas em dólar têm receio quanto à liquidez e ao valor. O mundo percebe que o dólar talvez não seja mais dominante”, avaliou.
Estratégia, tecnologia e transição energética
Eduardo Mencarini, líder de estratégia e excelência operacional da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração afirmou que ESG e transição energética são agendas entrelaçadas. “O foco em pesquisa e desenvolvimento para inovação tem que ser constante”, disse. Ele também ressaltou a necessidade de ampliar o diálogo com múltiplos stakeholders, além de acionistas e reguladores: “Cumprir os objetivos do Acordo de Paris é complicado, difícil, e exige ampla colaboração”, argumentou.
Para Mencarini, adaptar-se às especificidades de cada cliente agrega valor e ajuda a evitar a “comoditização” dos produtos.
Daniel Santos, vice-presidente de operações da Alcoa, lembrou que, em meio à extensa agenda de ESG, a segurança das pessoas é o item prioritário e inegociável. Ele lembrou o acidente fatal do mecânico Cláudio da Silva Clara, em agosto, como um marco que reforça a necessidade de revisões constantes dos riscos e medidas de proteção. “Qualidade operacional e segurança são investimentos mais importantes”, reconheceu.
Entre pressões e oportunidades, a mineração vive um momento de redefinição global. Segundo os especialistas, o setor brasileiro pode sair fortalecido se conseguir combinar inovação tecnológica, responsabilidade social e estabilidade institucional, fatores decisivos para sustentar o crescimento em um mundo que exige mais previsibilidade e menos impacto ambiental.
Confira a cobertura completa da Exposibram na página especial do Radar Mineração.

