Cinco palestrantes estão sentados no palco da Exposibram 2026. Da esquerda para a direita: Leandro L. Rossi, Beatriz Luz, Larissa Malta, Pedro Henrique Borges e Sandra Lucia de Moraes
Da esquerda para a direita: Leandro L. Rossi, Beatriz Luz, Larissa Malta, Pedro Henrique Borges e Sandra Lucia de Moraes (Foto: IBRAM via Flickr)

Mineração circular enfrenta barreira cultural: rejeitos ainda têm baixo valor percebido

Especialistas apontam que o financiamento da circularidade na indústria mineral exige conexão entre empresas, segurança regulatória, escala e formação de mercado consumidor

Por Mariana Sgarioni, 3 min de leitura

Publicado em 27/08/2026

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BELO HORIZONTE – Um dos principais desafios para desenvolver a economia circular dentro da indústria da mineração no Brasil é cultural: boa parte do mercado e dos consumidores associa rejeito a lixo e considera que produtos originados desses materiais têm qualidade inferior. A avaliação foi apresentada durante o Painel 20 – Financiamento Circular: como alavancar negócios circulares na utilização de rejeitos na mineração, realizado nesta quarta-feira (26), na Exposibram 2026.

“As pessoas ouvem falar em rejeito, acham que é lixo, é ruim, não tem valor. Muitas vezes é difícil achar um parceiro para testar nosso coproduto”, afirmou Pedro Henrique Borges, analista de Desenvolvimento de Coprodutos na ArcelorMittal. 

Larissa Malta, analista de Políticas e Indústria na Confederação Nacional da Indústria (CNI), concordou com Borges e apontou esta questão cultural como um dos gargalos para a obtenção de financiamento. “Existe uma barreira cultural: vemos a ausência de demanda por conta da relação da percepção dos consumidores a produtos feitos a partir destes rejeitos. Os consumidores acham que a qualidade é baixa. Não adianta pensar em escalabilidade se não houver um letramento antes”, observou.

Segundo Larissa, um estudo recente da CNI apontou que seis em cada dez empresários no Brasil já adotam práticas de economia circular e 40% deles as adotam em razão da redução de custos. Segundo o levantamento, o retorno sobre o investimento (ROI) aparece em menos de três anos após a adoção dessas práticas.

Uma pessoa de cabelos loiros, usando fones de ouvido grandes e um blazer escuro, fala ao microfone enquanto segura algumas anotações. O fundo é azul e amarelo.

Portanto, a economia circular é uma agenda de negócios, econômica, e não apenas ambiental”

As práticas mais adotadas pelas empresas são reciclagem e logística reversa. O desafio, segundo ela, é direcionar os investimentos para iniciativas capazes de agregar valor e superar simultaneamente barreiras econômicas, tecnológicas e culturais.

Porém, os entraves financeiros não são poucos. Enquanto empresas maiores relatam dificuldades para encontrar condições favoráveis de acesso ao financiamento, pequenas e médias empresas muitas vezes sequer conhecem as linhas de crédito disponíveis.

Escala e mercado

A necessidade de conexão entre diferentes setores foi destacada por Beatriz Luz, CEO da Exchange4Change Brasil, líder do Hub de Economia Circular Brasil e presidente do Instituto Brasileiro de Economia Circular (Ibec). Para ela, a questão central deixou de ser apenas como desenvolver soluções, mas como implementá-las e levá-las à escala.

Uma mulher usando fones de ouvido grandes e uma blusa vermelha fala ao microfone enquanto segura um bloco de notas, sentada diante de um fundo azul.

Uma palavra de destaque: conexão. O desafio não é tecnológico, a questão é chegar na escala e no mercado”

Segundo Beatriz, o desenvolvimento de negócios circulares exige mais do que agregar valor ao rejeito. É necessário identificar parceiros capazes de participar da cadeia e construir novos modelos de negócio e processos. Na Europa, segundo ela, já existem mecanismos de financiamento anteriores à implantação dos projetos, destinados à estruturação das cadeias. No Brasil, o desafio está em formar essas alianças.

“Para chegar nos rejeitos, tem que trabalhar na construção civil, no agro. É uma agenda de competitividade, de resiliência”, afirmou.

A executiva também defendeu que a circularidade não pode ser construída apenas pelo lado de quem gera o rejeito. O mercado comprador precisa participar da estruturação das soluções.

“Para chegar em soluções de circularidade ativa tem que trabalhar também o mercado comprador. Precisa ser uma ação conjunta, igual a uma orquestra”, afirmou. 

Alto volume de rejeitos 

Pedro Henrique Borges chamou a atenção para o alto volume de rejeitos gerados pela indústria da mineração. Segundo ele, apenas uma mina da ArcelorMittal, por exemplo, gera cerca de 60 mil toneladas de rejeitos por mês, enquanto outra chega a 320 mil toneladas mensais.

A escala aumenta a importância da definição de mercados para esses materiais. Segundo Borges, a regulação pode estabelecer parâmetros sobre onde e como o rejeito pode ser utilizado e ajudar a transformar resíduos em subprodutos.

Pedro Henrique Borges, analista de Desenvolvimento de Coprodutos na ArcelorMittal

“A regulação é fundamental para entendermos onde podemos colocar o rejeito. Com incentivo público, temos um excelente argumento para destravar e defender projetos internamente. Para um projeto ser viável, o entrave financeiro é maior que o ambiental”

Escala ainda trava investimentos

Para Sandra Lucia de Moraes, diretora técnica da Unidade de Materiais Avançados do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), a segurança dos dados e a comprovação de desempenho são determinantes para que empresas avancem com investimentos.

Uma mulher de cabelos escuros, usando fones de ouvido, fala ao microfone. Ela está vestida com um blazer preto e calças claras e gesticula com a mão enquanto está sentada no palco, tendo como pano de fundo uma combinação de azul e amarelo.

“A empresa que vai investir precisa ter segurança do dado, colocar em competição o produto que já está no mercado, mas o desenvolvimento tecnológico é fundamental”

Segundo ela, o momento de levar uma solução à escala é justamente quando muitos investimentos acabam sendo interrompidos. A dificuldade está em comprovar que o produto desenvolvido a partir do rejeito terá desempenho equivalente ao das alternativas já disponíveis e, ao mesmo tempo, será competitivo em preço.

“O dono do resíduo precisa entender que tem que devolver mais valor para o ambiente do que o que ele retirou”, concluiu.